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Cem anos de solidão

Faz hoje cem anos que Mário de Sá Carneiro, para variar de Camilo, Antero e Laranjeira, se envenenou em Paris num final de tarde de Primavera, mais ou menos por esta hora. Uma pessoa matar-se em Paris e em plena Primavera parece duplamente inexplicável (apesar de Celan, que fez o mesmo em 1970), mas pode supor-se, querendo armar biografias, que as razões imediatas terão sido, fundamentalmente, duas: a paixão e consequente desatino por uma criatura não muito recomendável, maxime; e o prévio desânimo pela frustração dos planos de Orpheu 3, cuja fácil desistência talvez indiciasse desânimo, fundo, já anterior.
 
Fernando Pessoa, o amigo (por correspondência) dilecto, viria a editar-lhe grande parte dos poemas manuscritos e talvez a aproveitar, para conta própria, os fragmentos. Mas isto, que parecerá uma póstuma boa notícia, é de facto má. Pelo simples facto de que Sá-Carneiro era um poeta superior a - ou pelo menos globalmente mais interessante do que - Pessoa. Isto parecerá polémico, e poucos acompanharão o autor destas linhas, mas entre esses poucos há nomes de respeito: Régio e António Maria Lisboa à cabeça.
Vindo A. M. Lisboa muito a propósito, porque também prometia bastante e porque também morreu com a mesma temporã idade: 25 anos. Ficará sempre por saber quão alto voariam estes dois cavalheiros, se não tivessem seguido duas grandes tradições dos poetas portugueses: o suicídio (Antero, Laranjeira e menores) e a tuberculose (Nobre, Duro, Cesário, etc.).
 
Tese: um tipo como Sá-Carneiro nunca deixaria de se suicidar. Uns, ameaçam muito e nunca fazem. Outros, ameaçam porque mais cedo ou mais tarde vão mesmo fazê-lo.
"Ah, o mal dele foi mimo", "ah e tal, o mal dele foi nunca ter trabalhado". Não é nada líquido. "Sagra sinistro a alguns o astro baço", cantou o amigo Pessoa a propósito de Gomes Leal, e muito melhor o cantaria a propósito deste saturnino «Esfinge-Gorda».

(A ilimitada edição da estupidez)



Ser português e querer evitar ruído, circo e geral histeria: semelhante conjunção parecerá talvez a quadratura do círculo, mas foi o que Herberto Helder (HH) passou a vida a tentar. Em vão. Chegado a velho, quando já quase o conseguira, viu a multidão ocupar-lhe à porta a tenda das “edições limitadas” montada pela imprensa e explorada pelas redes sociais. Depois de morto, antes mesmo do funeral, voltaram a montar-lha, um pouco mais discreta, agora no cemitério. “Mas isto não era dispensável, em nome do bom gosto?”, pergunta aqui o pio leitor. Com certeza que era. A falta de gosto, porém, é o menos nesta história. Comparada à estupidez, mal se nota. Tudo é nisto tão fundamentalmente estúpido que até se torna difícil escolher por onde começar. Experimentemos pelo início.
 

Em 2008, catorze anos passados de naturalíssima retirada, que se chegou a supor definitiva, após Do Mundo, etapa final da obra fixada, HH publica A Faca não Corta o Fogo, ainda sob chancela da Assírio & Alvim – que, no entanto, fôra já apanhada nas malhas da Porto Editora. A tiragem, como era hábito, constou de 3000 exemplares, depressa esgotados. Regressado, este nada pródigo mas prodigioso poeta chegava enfim a uma tão tardia quão duvidosa consagração geral, e estava de repente na moda, mesmo entre quem nunca lhe lera até então um único livro. Começavam aqui os equívocos. E, depois, os protestos, mas ainda muito vagos: a Assírio era uma vaca justissimamente sagrada, a ninguém tão logo ocorrendo arguir-lhe “edições limitadas” em “estratégia comercial”. Pelo que a neófita lamentação se limitou à não reedição do volume, desconhecendo, porque neófita, que o poeta nunca reeditara nenhum de poesia própria (só os da traduzida, e os de prosa). Nada de novo debaixo do céu. São costume estes mal-entendidos entre os convertidos súbitos e a normal cronologia do mundo.

(Corte livros e cabelos, 2 em 1)

Começando um livro tão pouco conhecido quão interessante para a bibliografia portuense - O Passado: história leve e fantasia -, aliás já aqui recenseado, lamentava-se João Grave por, ao descer em passeio a Rua da Restauração alguma tarde de domingo de há um século, ter percebido a transformação do Convento de Monchique, notabilizado pelo Amor de Perdição camiliano, numa fábrica de rolhas de cortiça. Senti, suponho, mais ou menos o mesmo quando, mal passado o ano, cruzei a Rua de Ceuta e percebi o corpo principal, primitivo, da livraria Leitura devindo cabeleireiro. Durante muitos anos, chegaram lá, pela mão de Fernando Fernandes, os livros que não chegavam a mais lado nenhum, censurados de antemão ou simplesmente estrangeiros. Herdeira da Divulgação, era, reconhecida até por lisboetas, a mais importante livraria do país, quer pelos fundos, quer pela frequência. Agora, caem-lhe cabelos como outros quaisquer. Quem ainda, ingénuo, acreditasse nas virtudes da concentração capitalista editorial e livreira ou no Pai Natal, pode talvez começar a desenganar-se. A Latina já não é a Latina, a Leitura já não é a Leitura. Sobra, por enquanto, a Lello, e é ir rezando para que Chardron, lá do alto, vá movendo cordelinhos contra o destino previsível das 3 L's.

O Porto está muito lindo, muito arranjado, muito espevitado, muito turístico, muito na moda e tudo o mais. Seja. Mas uma cidade que perde as melhores livrarias é uma cidade pior. Além do cabelo, perde alma.

Um Natal português

Em Canelas, Vila Nova de Gaia, a população protesta há meses pela substituição do pároco - pretende o regresso do anterior e vitupera o actual, que vai insultando, entre outras razões, por ter cabelos e barbas compridos. Se não erro, todas as crónicas mais ou menos garantem que Cristo, precisamente, passou a vida nesse tipo de preparos (para além de não ter biblioteca nem perceber patavina de finanças, como sugeria o outro, também não consta que o Nazareno usasse cabelo rapado e brinquinho na orelha, como os gunas tugas - citadinos e aldeãos - contemporâneos). A Igreja esteve-se, desde o início, quase sempre nas tintas para o próprio fundador. Agora, estão até as populações, outrora o "rebanho", cada vez mais nas tintas para a Igreja e para o fundador. Querem rezar os seus próprios dogmas. "Creio em Jesus Cristo, filho unigénito de Deus, rapado e barbeado". Ou, tão-só, um CR derivado, de igual modo dado ao 7, 70x7, mas talvez algo menos à complicação metafísica: "Creio em Cristiano Ronaldo". Amen.
 
É Portugal/Carnaval, ninguém leva a mal. Bom Natal.

O Oiro do Dia

José da Cruz Santos, senhor a quem a edição portuguesa muito deve e que num país normal teria o reconhecimento generalizado da nação leitora, acaba de relançar «O Oiro do Dia», colecção de poesia portuguesa e estrangeira que foi entre nós um marco gráfico, à época (anos 70 e 80) arrojado q.b. - uma plaquette concebida por Armando Alves, em cartolina tripartida,  cuja aba servia de rebordo para guardar um caderno solto, com as folhas por abrir, integrando sempre alguma ilustração em folha hors-texte. Passaram por ela António Ramos Rosa, Eugénio de Andrade, Fiama, Ruy Belo, Vasco Graça Moura, etc.; (Herberto teve um dos números, hoje  preciosidade bibliográfica, da  escassa série verde); e nela foram publicadas algumas das primeiras traduções portuguesas de poetas estrangeiros do séc.XX, incluído o maior deles, Celan (por João Barrento, que felizmente o foi traduzindo bastante mais, e que um dia talvez nos brinde com a poesia completa desse imenso suicidado no Sena). O renascimento da  coisa começa com um volume de homenagem à memória do artista portuense Ângelo de Sousa, como o preparado, ainda em vida dele, para Vasco Gonçalves, e tem colaboração de, entre outros, Rebordão Navarro, Bernardo Pinto de Almeida, Fernando Guimarães, Viale Moutinho, Mário Cláudio e o próprio Graça Moura (que foi o director literário da publicação, e ainda deixou um poema para este volume colectivo). Está nas livrarias, e será apenas, espera-se, o primeiro de muitos.

Uma biblioteca é uma biblioteca é uma biblioteca


É esta a nova biblioteca de Almere (cidade holandesa próxima de Amesterdão, toda ela moderníssima), cuja câmara a encomendou a uma sociedade de arquitectos sob condição expressa de que fosse concebida como livraria. A ideia parece, à primeira vista, muito engraçada, e justificar-se-á no caso pelo contexto, mas parte de premissa errada, desde há algum tempo constituída, garantem-nos a cada passo, em novo «paradigma»: o da «idade da informação», que se sobreporá a séculos da anterior, para este efeito nomeada «documental». No que aqui vem a propósito, devem as bibliotecas (mais clássicas e antigas incluídas, eis o ponto) perder a bem composta gravitas e tornar-se centros “dinâmicos”, com etéreos e permanentes “fluxos” de informação, em que, como numa livraria generalista, esteja o cliente/utente reverenciado no primeiro plano (convindo chamar-lhe a atenção seja de que modo for), e o documento - coitado - devolvido ao estatuto funcional, utilitário, que sempre deveria ter sido o dele. Um bom bocado como os nossos «planos nacionais» de leitura, por exemplo. Uma e outra coisa lembram, no desajeitado voluntarismo, aquelas anedotas em que o fundamental é ajudar a velhinha a atravessar a rua, mesmo quando ela não quer.
 
Há disto correspondência portuguesa, aliás bem conhecida e já espalhada de norte a sul do território. Toda uma visão festivaleira e folclórica do livro e da leitura que parece ter vindo para ficar, bastante promovida país - autarquias - bibliotecas municipais fora pela «gestão cultural» que pretende extremadamente contrastar com a apatia e a burocracia funcionárias à moda lusa que dirige. [Em comum, uns e outros e por regra, a falta mesmo no singular daquilo a que resolveram chamar, no plural, «hábitos de leitura». E de alguma sensatez, já agora]  

O poeta e os mestres: segundo acto


Herberto Helder, personagem pouco frequentadora de mestrados em geral, é um malandro. Vejam bem: publicar edições limitadíssimas de cinco-mil-exemplares de livros de poesia numa terra em que, manifestamente, eles se comem ao pequeno-almoço, como se fossem grande coisa, a “armar em autor de culto”. Estúpida extravagância. Como se, aliás, autor e editor se pudessem reservar, seja por que razão seja, qualquer espécie de direito de definir a tiragem de uma edição. Como se, aliás ainda, mais exemplares proporcionassem mais vendas, assim estando ambos a abdicar de receitas directas. Como se, em suma, isto fosse uma economia de mercado. 

Tão malandros quanto ele, os livreiros que açambarcam exemplares – há quem chegue a comprar 4 ou 5, imagine-se – para depois os venderem com lucro. Vejam bem: comprar livros ao preço editor e depois vendê-los mais caros quando esgotados, ou seja, quando a procura ultrapassa marginalmente a oferta. Bando de especuladores. Como se fosse legítimo vender livros raros dos quais depende a alimentação – ainda por cima, tão sazonal e tardia – do povo. Como se não fossem profissionais subsidiados a eito pelo Estado, lhe pagassem impostos e precisassem de qualquer espécie de mais-valia para ganhar a vida. Como se, outra vez, (sobre)vivessem numa economia de mercado. 

Só não são malandros, claro, os milhares (milhões? às tantas...) de leitores putativos que, de facto, só não compram o livro porque não podem. Não podem telefonar para as livrarias a reservá-lo, porque dá isso o considerável trabalho de marcar algumas teclas no telefone. Não podem lá ir depressa, porque esse esforço, o da propositada deslocação, ainda é mais significativo. E, de resto, o princípio estaria errado: não faltava mais nada do que um leitor ter de ir de propósito a uma livraria para comprar um livro que diz querer, como se este não devesse ficar disponível e inesgotável o tempo que preciso fosse. “Agora não, que é hora do almoço; agora não, que é hora do jantar...”. Portugal é sim o país de mais injustiçada gente que se conhece. Não somos campeões do mundo (e arredores) porque não nos deixam, não perseveramos porque não nos deixam, não parecemos educados nem nos comportamos com um módico sequer de civismo porque não nos deixam. Não lemos porque não nos deixam, pelos vistos. Se calhar, também só não raciocinamos porque não nos deixam.
 
Tudo julgado, todos justíssimos  os protestos que por aí fora lavram. No que toca ao poeta, restará expulsá-lo da República, antigo e platónico desiderato aqui inócuo: num país de tanto vate, nem se lhe vai notar a ausência.

A Poesia está na Rua (e no Cartaz)


Sob proposta de Sofia de Melo Breiner, que já para o 1.º de Maio de 74 escrevera o verso em composição dedicada aos militantes do P.S. (partido pelo qual integraria as listas à Assembleia Constituinte, vindo nela a ser deputada após essas primeiras eleições livres, a 25 de Abril de 1975), Maria Helena Vieira da Silva concebeu, pelo menos - quem isto assinala estava capaz de garantir já ter visto terceira versão -, dois cartazes ilustradores de «A Poesia está na Rua», saídos a público nesse primeiro aniversário e agora aproveitados para a exposição homónima que hoje, comemorando os exactos 40 anos da Revolução, vai a inaugurar na Galeria do Palácio de Cristal, no Porto. Dos dois, um, não menos genial, apresenta o típico traço que celebrou a pintora, a que certa escolástica artística chama abstracto. O outro, de belo efeito, que aqui se mostra, foi na sua figuração mais fácil e apropriado ao propósito que lhe deu azo, permanecendo por isso até aos nossos dias o propriamente icónico e em regra reproduzido. Dessa figuração terá um olhar atento, ou apenas insistente, muito a dizer.

Não sabendo se alguém o notou, nem se a pintora alguma vez o chegou a referir, parece indiscutível ser o primeiro rosto - fileira da frente, à esquerda - o de Pascoaes (que Maria Helena dizia apreciar): é, sem tirar nem pôr, o desenho de um dos seus, assumidamente toscos, auto-retratos. A custo se discutirá que à direita na segunda linha estejam os de Pessoa e Eça. E, em subida progressiva, quase se juraria ainda reparar nos de Régio, Cesariny, Aquilino e Ruben A. (primo da escritora), para não jurar que o (ainda mais) taciturno ao lado de Pascoaes seja o de Camilo, e que a mulher à porta do prédio fosse a própria Sophia, e a mais ao alto a própria Maria Helena - hipóteses, mesmo assim, nada de descurar. Escusado reforçar o ponto com alguns casos já de dúvida, entre gente nacional e estrangeira, sobretudo francesa (Proust e Char, por exemplo). O que temos como certo chega para perceber que o mote, A Poesia está na Rua, foi levado à letra e de maneira radical: não era só a poesia, era a palavra em sentido amplo. Dirão os neo-cépticos / neo-austeros / neo-liberais (paremos por aqui, para o novo parar de estragar o velho...) que a simples ideia disso não passa de literatura.

Páscoa e escritores «pascoais»

De modos mais ou menos voluntário e crente, devem nome à Páscoa (palavra derivada da hebraica Pessach, passagem: se do Mar Vermelho, êxodo, ou num sentido ainda ultra-metafísico, anterior, é ponto discutido) escritores em número assinalável. Desde logo, por cá, um tão heterodoxo e pouco devoto Teixeira de Pascoaes, que foi buscar pseudónimo à casa paterna onde passara e continuaria a passar a maior parte dos dias: o solar de Pascoaes, em São João de Gatão, Amarante. Mas a principal via é também nisto naturalmente a francesa, profusa em baptizados com o nome Pascal, próprio ou comum. Ainda há poucos dias se mencionava aqui Pascal Quignard, esse grande escritor contemporâneo desta nossa época de que bastante desdenha. Sendo Blaise Pascal - ou Pascal, assim sem mais - o senhor de fama dominante até agora, por entre matemáticas, filosofias e teologias.

[William Blake]
Há, de resto, todo um conjunto dos seus Pensamentos dedicado pelo  auvernês  à  angústia (a consagrada agonia  pode ser  ambígua, ninguém sabe) premonitória de Cristo, agregados sob a menção «O Mistério de Jesus». A páginas tantas, lê-se uma máxima feliz, que por isso foi ganhando entretanto o favor da glória: "Jesus estará na Agonia até ao fim do mundo. É preciso não dormir durante esse tempo" (citado de cor).
Fica  evidente a alusão a essa agonia antecipada no  Monte das Oliveiras, anti-Éden frequentado pelo Cristo em consecutivas noites anteriores (di-no-lo Lucas, 21) e na noite/madrugada de quinta para sexta-feira santa. Dos mais inquietantes episódios narrados ou sugeridos no Novo Testamento, cuja estranheza terá sobrenadado narradores e narração (excepção notável: a de João, único dos quatro então presente, referem-no os outros três, e que pura e simplesmente se abstém, chegado aqui, de continuar a narrar), afirmam Mateus, Marcos e Lucas que o Mestre, ao início da madrugada, pedira a Pedro, Tiago e João que velassem, atentos, e não adormecessem, enquanto se afastava "a distância de uma pedrada" para rezar, queixando-se por vez única no texto bíblico - salvo erro, já o apontava o autor - de tristeza, "uma tristeza de morte", ele que foi dela, mas viva, a personificação neste mundo. Estaria Jesus só, e os discípulos, aqui de todo irrelevantes (tal o capítulo seguinte demonstra), seriam «mera» projecção como tudo o resto, humana ilusão de companhia, vago consolo futuro do novo credo vitorioso? Estaria de facto acompanhado e o pedido, simbólico, aconselhava apenas vigília genérica contra o Mal, que há-de durar enquanto Tempo houver (interpretação de Pascal, comummente aceite; e também aqui viria à colação Quignard, que desenvolve algures a ideia de o Tempo ter começado com a consciência da predação: a projecção da morte na presa)? Escusado elaborar hipóteses. Fosse ele Filho do Homem ou de Deus ou ambas, parece ultrapassar o nosso entendimento, mais a mais tão diferido, e não muito ajudado por uma quanta, típica e talvez forçosa confusão evangélica, de resto pobre nas pistas que deixa (o dogma da revelação divina das escrituras será, até para os fiéis, posto que as leiam, difícil, muito difícil de acreditar). Invejável a fé, que não aspira a entender ou se despista.

A Literatura no Desemprego

é mais do que uma moda: quem apostar que o vencedor de qualquer chorudo prémio literário luso será apresentado como «desempregado» deve ter, no mínimo, 50% de probabilidades de acertar. Este sinal dos nossos tristonhos tempos mereceria talvez só um conformado encolher de ombros não fôra o irritante tom latente, entre a condescendência e o paternalismo, com que os patronos (palavra da mesma família de patrões) parecem louvar a coisa e lavar o que de consciência possa restar como veste de capital. No meio de todos os outros de um geral empobrecimento da população que se quer lento e insinuante (não anda a dormir, quem o promove), será este só mais um sinal, mas bem elucidativo do anunciado regresso ao tempo da caridade e da esmola cujo cheiro, não especialmente agradável, vai começando a pairar pelos ares.
(O que menos se entende é o aparente pouco incómodo com que muitos dos ditos vencedores se prestam ao papel. Ainda que haja nos concursos alguma cláusula que obrigue à indicação da profissão - informação de relevância literária quase tão funda quanto a de saber se a pessoa prefere peixe ou bife, praia ou campo, despir-se ou vestir-se -, não haverá decerto a proibição de dar resposta torta a quem no assunto insista.)
 
De Julien Gracq [1910-2007], escritor francês de fugaz ligação durante a juventude ao círculo surrealista, a que nunca se vinculou e de que nunca se desvinculou, ficou sobretudo famoso fora de França o breve ensaio A Literatura no Estômago, murro no estômago, precisamente, à instituição, ao sentido e à legitimidade dos prémios literários. (E às «carreiras» literárias, e aos cortejos, pompas e feiras de vaidades, longo etc.). Falava o do Loire, a páginas tantas, nos escritores recém-chegados com o "ar de sair de uma estufa", que "querem estar à altura do que deles se espera". "A «saída» dum novo escritor oferece-nos frequentemente o espectáculo penoso duma pileca esgalgada tentando lugubremente levantar a garupa no meio dum estralejar teatral de chicotes de circo - nada a fazer; uma volta à pista e basta, fareja o estábulo imediatamente e logo corre para a manjedoura". Palavras não muito mansas, mas talvez ainda mais actuais sessenta e tal anos depois.

Uma das várias perversões intrínsecas e inevitáveis dos prémios literários é o reforço dessa velha falácia: a de que a literatura, como tudo no mundo, se compra e se vende, e o escritor, se não quiser ser «maldito», será mais ou menos domável pelo «meio». Estando desempregado, torna-se evidentemente mais fácil domá-lo. Eis o ponto.

Feira do Livro do Porto: a restauração da independência ?

fotografia antiga da Avenida das Tílias, no Palácio
É a primeira medida de fundo que o novo executivo da Câmara Municipal do Porto (CMP) anuncia quanto a eventos para as massas no pelouro da cultura – sim, essa que fazia ao anterior “sacar logo da calculadora”, como diziam no III Reich “sacar logo do revólver”, quando dela ouvia falar, por saber o erário autárquico destinado a coisas tão obviamente mais importantes como brincar aos carros na Avenida da Boavista, aos aviões sobre o Douro e ao teatro, com estranhas, muito estranhas contas de “calculadora”, no Rivoli tornado feudo particular de um encenador lisboeta de revista (que dispunha até de toda a Praça D. João I, engalanada, atapetada de vermelho e escoltada pela polícia, a cada estreia, qual nubente Mestre de Avis). E, caso venha de facto a ser cumprida, merece desde já todos os louvores.
 
Após negociações falhadas com a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (por que há-de ser necessário negociar com a APEL a organização de uma feira do livro local, perguntará ao corporativismo lusíada o munícipe, se ingénuo, e perguntará bem) para a já em 2013 anulada (nisso  esteve  Rio, por uma vez, certo) Feira-do-Livro-do-Porto-como-ultimamente-a-conhecíamos, resolveu a CMP encarregar- -se, ela própria, da organização em Setembro da de 2014, nos jardins do Palácio de Cristal, garantindo que, a partir de agora, o modelo é este. Dirá o mesmo munícipe ingénuo, de novo com razão, que para isso foram por cá introduzidas, ainda na primeira metade do século passado, as feiras do livro, antes de orientadas – enquanto meio, e não só enquanto fim – ao negócio. Dirá também nesse  passo  que o logo fundamento delas é o interesse do cidadão como leitor; e não (ou só muito acessório) o do livreiro; e não, esse é que não, o do (grande) editor. Dirá ainda que não entende, nem a pretexto do «programa paralelo», por que diabo se precise «apoiar» (leia-se “pagar a”) quem já vai, justamente, ganhar dinheiro e não tem dele falta nenhuma. Dirá por fim, sem dúvida e aqui sem sombra de ingenuidade, ser Setembro ou Outubro uma altura, em inovação, bem melhor do que Junho: o início de temporada é  mais promissor do que o final. Aprovando, portanto, a medida na generalidade e na especialidade.

Kafka, cá fica

Parece uma anedota, e não é. Há  tempos, numa daquelas rápidas entrevistas televisivas em modo «flash», perguntava-se a um qualquer dito notável - daqueles que só quem ligue à nossa televisão notará - o que andava ele a ler. "Kafka", respondeu. Sim, mas qual Kafka, voltou a perguntar-se. "Kafka", respondeu de novo, impávido, o homem. Sim, mas que livro?, insistiu ainda o entrevistador. "Kafka !", já algo impaciente, a  cultivadíssima «figura pública». O perguntador (sentindo-se quase n'O Processo, talvez) desistiu.

Kafka seja.

Águias Passadas, ou a escrita automática em feição digital

Vinha no Público de hoje/ontem, em legenda a uma fotografia do último jogo do Benfica, uma maravilhosa frase, que aparenta aquela muito típica confusão informática e foi capaz de, sozinha, sobressaltar a quotidiana pacatez do jornal. Citando: Em delit am, conullum zzril illa aut alis nit adigna corting eriustrud Ure vel ulla. É algo que não apetece, Ambrósio, a quem escreve agora estas linhas, mas dá vontade de pensar em embrenho decifrador, porque a sentença, com vírgula e tudo (note-se o cuidado sintáctico), soa quase a oração votiva pagã e provoca de facto um espanto hipnótico semelhante ao efeito da escrita automática. Terá sido o mote do clube, única coisa nele  tão pouco portuguesa (refere-se o afã colectivo, não a língua morta), Et Pluribus Unum, a inspirar aquela primeira parte da frase, sorte de latim entrecortado por um estranho "zzril" [espirro?], até "adigna" ? E a saudade dos golos de Mats Magnusson, dos livres de Stefan Schwarz e do pulmão de Jonas Thern, já para não invocar o deus dinamarquês Manique (não o pouco divino Pina), a casá-la, de modo flagrantemente contra-natura, com a final, nórdica? (Outro sim aqui a alusão romana, os visigodos tomando conta do exército imperial no estertor do Baixo-Império, etc.)
 
Se fosse - disso o livrem todos os deuses, romanos e nórdicos e os mais que haja - benfiquista o autor deste pedaço de prosa, não desdenharia tomar por lema a frase, mesmo abreviada, e deixar lá o et pluribus unum. Em qualquer dos casos, fica à consideração, para memória futura. Não mereça  como a passada glória de ambas as icónicas águias, queira dizer o que queira, sempiterna fama.

(está tudo nos livros ?)

Tomando por pretexto a morte de Mandela, não será descabido repescar esta instantânea de Will Counts, tirada do outro lado do Atlântico e frequente em vários álbuns antológicos da fotografia do século XX. Faz-se notar, desde logo, pela oposição das duas personagens centrais, Elizabeth Eckford (estudante negra tida como pioneira da luta contra a discriminação racial praticada pelo ensino norte-americano, na imagem a chegar ao liceu de Little Rock, onde debalde pretenderia entrar), em tão serena quão magoada beatitude, ar quase de Pietá, e a criatura que atrás vocifera de raivosa histeria. A uma segunda vista, porém, atenta-se na moça loura que com as duas fecha um triângulo narrativo na composição assistindo, divertidíssima, à cena, tendo na cara o que parece um certo riso apalermado ainda hoje típico daquelas geografias e o regaço a atafulhar de livros. Chegamos ao ponto: como escrevia (cito de cor) Lichtenberg algures entre os seus aforismos a propósito semelhante: pode um macaco contemplar-se o tempo que entenda ao espelho, que nunca este lhe devolverá em reflexo um apóstolo. É dizer: por muito que leia, nunca o estúpido devirá sábio. Entre tal sentença e esta imagem, das que podem valer mil palavras, nada fácil discernir qual mais arrasadora do fundamento de qualquer «plano nacional de leitura».