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Vida Devota (V)

Valeu-me a pena viver? Fui feliz, fui feliz no meu canto, longe da papelada ignóbil. Muitas vezes desejei, confesso-o, a agitação dos traficantes e os seus automóveis, dos políticos e a sua balbúrdia - mas logo me refugiava no meu buraco a sonhar. Agora vou morrer - e eles vão morrer.
 A diferença é que eles levam um caixão mais rico, mas eu talvez me aproxime mais de Deus. O que invejei - o que invejo profundamente são os que podem ainda trabalhar por muitos anos; são os que começam agora uma longa obra e têm diante de si muito tempo para a concluir. Invejo os que se deitam cismando nos seus livros e se levantam pensando com obstinação nos seus livros.


[Raul Brandão, Memorias - Vale de Josafat]

Vida Devota (IV)

Uma pastora meio-selvagem das Ardenas, que nunca vira outro espectáculo mais grato ao seu coração do que as cabras que guardava, foi um dia trazida das suas serranias a Paris, quando no boulevard passava, com a tricolor ao vento, um regimento em marcha. A pobre donzela fez-se branca como a cera, e só pôde murmurar, numa beatitude suprema:
- Jesus! tanto homem!
Eu sei que estou aqui fazendo o papel ridículo desta pastora, e balbuciando, com a boca aberta como se chegasse também das Ardenas:
Jesus! tanto livro!
Mas não é este grito, como o da pastora, natural?
O beduíno do deserto de Oeste, que, passando a Serrania Líbica, avista pela primeira vez, imenso, lento, enchendo um vale, o rio Nilo, exclama espantado:
- Alá! tanta água!
A água é a sua preocupação: todas as tristezas das areias que habita vêm da falta da água: mais que ninguém sente as maravilhas que a água produz; e no seu grito há uma tímida repreensão a Alá! "Tanta água aqui, e tão pouca lá de onde eu venho!..."
Assim eu venho... Mas o resto da comparação complete-a, antes, o leitor astuto.
 

(Eça de Queirós, Acerca de Livros, in Cartas de Inglaterra. Mas está bom de ver que tudo isto já foi mais assim.)

Vida Devota (III)

"Os livros antigos pagam liberalmente a quem os atura. Não há velhice mais dadivosa e agradecida do que a deles. Sentam-se connosco à sombra de árvores, suas coevas, e contam-nos coisas que viram os plantadores das árvores. Nos silêncios das noites geadas dos nossos janeiros, eles, que os contam aos centos, aconchegam-se de nós e conversam com o mesmo afecto das tardes estivas, embora o frio lhes esteja orvalhando os pergaminhos das capas. Óptimos amigos que nem quando nos adormecem se agastam, e até sofrem ser ouvidos sem ser escutados!
(...) O Presente é este sincero desgosto de muitos e intermitente embriaguez da felicidade de poucos. O Futuro é um descuido do maior número e uma aflição de poucos espíritos que vieram sãos a um mundo cheio de aleijados. O Passado, o passado, é já agora o único, seguro e abençoado refúgio de quem pode ir por trevas adentro a bater asas de luz e a poisar-se lá sobre ruínas, onde não chega a pedra destes fundibulários que têm seus arsenais nos enxurdeiros das cidades florentes."

[Camilo Castelo Branco, começando o prefácio de «Cavar em Ruinas».]

Vida Devota (II)

A nem sempre inocente mania dos bibliófilos interessa-me ao mesmo tempo que me repugna um pouco; para quem procura saber quais as tendências duma época que começam a tomar consistência, há vantagem em consultar as flutuações das suas preferências. No meio da tagarelice literária que escorre por toda a parte, absolutamente desprovida de garantias, essas pessoas ao menos arriscam dinheiro nos seus gostos - que não incidem sobre quase nenhuma das novas estrelas.


Vida Devota (I)

Não sei como aprendi a ler; não recordo senão as minhas primeiras leituras e o efeito que tiveram sobre mim: é o tempo de que dato sem interrupção a consciência de mim próprio. Minha mãe havia deixado romances. Pusemo-nos a lê-los após o jantar, meu pai e eu. Não se tratava primeiro de outra coisa que não fosse exercitar-me na leitura por livros curiosos; mas depressa o interesse deveio tão vivo, que líamos à vez sem descanso, e passávamos a noite nesta ocupação. Não podíamos nunca abandonar o volume que não no fim. Às vezes, meu pai, percebendo de manhã as andorinhas, dizia todo envergonhado: "Vamos deitar-nos. Sou mais criança do que tu"