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«Rei-Saüdade»: Até ao fim do mundo

É «só» uma lenda, mas daquelas que logo metem num bolso a própria História, e bastante plausível dado o indivíduo em questão: a coroação da Rainha Morta. Nunca se deixou de contar que Pedro, quando da transladação dos restos mortais de Inês de Coimbra para Alcobaça, obrigou a côrte inteira a desfilar no cortejo, em plena noite, madrugada dentro; e a beijar depois no Mosteiro os ossos do esqueleto daquela que com intrigas condenara, ou ajudara a condenar, na que terá sido a mais tétrica cerimónia da História de Portugal. Documentos, crónicas, afirmações históricas disto? Nada. E mesmo assim nisto apostaria o autor destas linhas, sem pestanejar entretanto, todos os seus reais. Euros, perdão.
De qualquer maneira, o cortejo é que não terá sido tão tétrico como esta gravura alusiva de João Carlos, que padece de um erro grave: Pedro não ia apoiado em ninguém. Iria lutuoso, mas altivo e feroz na perseguição da sua ideia. Intocável.
Percebe-se a intenção, mas é absurda.
 
Se o suicídio de Camilo, de que há pouco se tratava, foi o grande trauma activo, o homicídio de Inês de Castro foi o passivo, com consequências literárias propriamente ditas, e como nenhumas outras nas nossas letras. Nenhum outro motivo terá dado ensejo a tanta folha de papel impresso por bandas lusas. Garcia de Resende, Camões, António Ferreira e Francisco Manuel de Melo, já se sabe, entre muita mais gente quinhentista e seiscentista. Bocage, depois. Os principais românticos, estranhamente, passaram-lhe bastante ao lado, o que é tanto mais estranho quanto Garrett (chegou a esboçar um drama, depois de assegurar que "Inês de Castro, o mais belo e poético episódio do riquíssimo romance da história portuguesa, está por tratar ainda") e Camilo teriam feito do tema o que entendessem; também a Geração de 70, já sem estranheza nenhuma. Mas, de aí em diante, a coisa é quase omnipresente, sobretudo falando de indivíduos com alguma ligação, natural, afectiva ou académica, a Coimbra: Eugénio de Castro, António Patrício, Antero de Figueiredo, Lopes Vieira, Rocha Martins, etc. Até nos contemporâneos: Natália, Fiama e Agustina, pelas senhoras, e pelos senhores nem vale a pena começar uma lista que teria início alfabético e apropriado em Alegre, Manuel. Saliente-se só o original tratamento dado por Herberto (que poderia porém ter feito ainda muito melhor) no texto incluso n'Os Passos em Volta.
Desde já se pede desculpa aos nomes úteis, quase todos, pela mistura com inúteis porém famosos, flagrantemente dois.
 
Pouco menos (em certa época, mais) que as lusas, as castelhanas, depois espanholas: aqui ao lado así mismo se fartou de perorar, sobretudo em teatro, como por cá, acerca do drama desta galega criada em Castela com a castelhana Constança. O próprio Quevedo pegou no assunto, e ainda hoje se lhe pega.
Pasmai: até na China e no Japão continua a levar-se à boca de cena versões à moda do extremo oriente.
 
E tal as letras, as artes. De modo mais obsessivo, como costumam. Talvez falhe a memória, que se recorda de dois casos evidentes: o recente defunto Espiga Pinto, com milhentas variações à volta de Inês-loura-cósmica, e Lima de Freitas, com outras numerosas do Rei-Saudade e da Rainha-Morta, um fantasma vivo enlouquecendo do esqueleto do não-fantasma morto.
 
Tudo isto pode parecer um tanto doentio, mas entende-se lindamente. Quem entre desprevenido nesta história nunca mais dela sai.

Eugénio de Castro — Constança

Constança (poema)

Coimbra, na Livraria França Amado. M DCCCC. In-8º peq. de 80, [2] págs. Enc.

Primeira edição, impressa em bom papel de linho; uma das mais valorizadas peças inesianas.

O exemplar foi sobriamente encadernado, apenas com singelas gravações a ouro pontuando a lombada, preservando-se a capa primitiva. Em condição quase impecável, ostenta no rosto uma discreta assinatura de Artur de Almeida Ribeiro, a quem terá pertencido.

40€

Eugénio de Castro — Constança

Constança ∙ Depois da Ceifa ∙ A Sombra do Quadrante

Lumen. (1929). In-8º de 184, [8] págs. Enc.


Edição publicada na série das «Obras Poéticas de Eugénio de Castro» levada a cabo pela editora coimbrã; a segunda, salvo erro, de Constança. Transcreve, à laia de prefácio, o texto crítico que ao poeta dedicara Miguel de Unamuno (saído em La Nación e depois compilado no volume Por Tierras de Portugal y España).

Exemplar revestido de uma boa encadernação com cantos e lombada em pele gravada a ouro e as pastas em marmoreado de tons verdes, preservando ambas as faces da capa primitiva.


20€

Eugénio de Castro — Constança

 Constança / com um desenho de Giovannino de’ Grassi

(Janeiro / 1981, executado na Inova / Artes Gráficas – Porto). In-4º de 38, [2] págs. Br.

Volume publicado no figurino habitual desta série «o oiro do dia», com a capa em cartolina dobrada com rebordo lateral e a «plaquette» em folha solta de papel couché. Tiragem limitada de 250 exemplares, tendo a este – em muito bom estado global, mas ligeiramente esfolado sobre a base da capa inferior – cabido o n.º133.

15€

Antero de Figueiredo ― D. Pedro e D. Inês, "O Grande Desvayro"

D. Pedro e D. Inês, “O Grande Desvayro!” (Fernão Lopes) ― 1320-1367

Livrarias Aillaud e Bertrand / Paris-Lisboa. [S/d]. In-8º de 318, [4] págs. Enc.

Tendo muito que se lhe diga (resumindo: ler-se pelo menos tanto como um romancezinho de ficção quanto como um romance propriamente histórico, pois nem é um nem é outro, pretendendo fazer a espargata; naquele tom típico do autor, quase omnisciente...), o certo é integrar já o livro o core da bibliografia inesiana. E, não tendo outro especial mérito, tem pelo menos o de apresentar dela, a terminar o volume, uma bem extensa relação.

Exemplar do 12º milhar impresso, na série encadernada pelo editor em tela relevada com gravações a ouro, conservando a frente da capa primitiva. Em muito boa condição global no miolo, mas apresentando alguns pequenos defeitos. 

12€