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Herberto Helder — La Muerte sin Maestro / A Morte sem Mestre

La Muerte sin Maestro / A Morte sem Mestre // Traducción de José Luis Puerto

Ediciones El Gallo de Oro (noviembre de 2016). In-8º de [ii], 87, [2], [iii], [ii] págs. Br.

“La Muerte sin Maestro viene a ser el testamento poético de Herberto Helder. Y funciona como un rito. El poeta, a la altura de la edad, en el umbral entre vida y muerte, en ese finis gloriae mundi en que se encuentra, vuelve a pronunciar -con exaltación y melancolía y con un lenguaje irracionalista, versicular y deslumbrante- los principales motivos de su decir poético: amor, eros, fascinación ante la figura de la mujer... y siempre, como telón de fondo, la vibración de un cosmos incesante.
A cinta editorial cita o poeta espanhol Antonio Gamoneda que dizia ter sido e ser então ainda este “o maior dos poetas contemporâneos da Europa, pelo menos”.  

15€

Paul Celan: centenário do nascimento

23 de Novembro: dá-se esta curiosa circunstância de o poeta maior do século XX e o maior poeta português da mesma centúria terem nascido no mesmo dia. Paul Celan faria hoje 100 anos e Herberto Helder 90. A curiosidade aumenta se tivermos em conta que o segundo era leitor devotado do primeiro, e que o conhecimento de Celan em Portugal é em boa medida a Herberto que se deve (podemos falar por nós). 
Uma dupla homenagem, com prioridade ao senhor de quem hoje se comemora o centenário, e de quem acaba de sair na Antígona a correspondência trocada com a alemã Ingeborg Bachman. Se se despacharem, talvez ainda consigam obter da Cotovia - que neste mesmo Novembro encerrará actividade - algum exemplar de «Sete Rosas Mais Tarde: antologia poética», «A Morte é uma Flor» e «Meridiano», os três fundamentais volumes que editou em Portugal com versões de João Barrento e Yvette K. Centeno.
De Celan vamos aqui deixar um dos seus primeiros e ainda não tão interessantes poemas (deu título ao primeiro livro: Papoila e Memória), o agora apropriadíssimo «Corona» (outra coisa curiosa: reparem como começa e como termina a composição...). A rápida tradução é nossa, ontem, domingo.

"O Outono vem comer a sua folha à minha mão: somos amigos.
Descascamos das nozes o Tempo e ensinamo-lo a andar:
o Tempo regressa à sua casca.

No espelho é domingo, 
no sonho adormecemos,
a boca diz a verdade.

Meu olhar desce ao sexo dos amantes:
olhamo-nos, 
dizemo-nos a escuridão,
amamo-nos como papoila e memória,
dormimos como vinho nas conchas,
como o mar no brilho-sangue do luar.

Ficamos abraçados à janela, as pessoas vêem-nos da rua:
é bem tempo de saberem!
É tempo de a pedra se resolver a dar flor,
de o desassossego palpitar num coração.
É tempo de o tempo ser.

É tempo."

(A ilimitada edição da estupidez)



Ser português e querer evitar ruído, circo e geral histeria: semelhante conjunção parecerá talvez a quadratura do círculo, mas foi o que Herberto Helder (HH) passou a vida a tentar. Em vão. Chegado a velho, quando já quase o conseguira, viu a multidão ocupar-lhe à porta a tenda das “edições limitadas” montada pela imprensa e explorada pelas redes sociais. Depois de morto, antes mesmo do funeral, voltaram a montar-lha, um pouco mais discreta, agora no cemitério. “Mas isto não era dispensável, em nome do bom gosto?”, pergunta aqui o pio leitor. Com certeza que era. A falta de gosto, porém, é o menos nesta história. Comparada à estupidez, mal se nota. Tudo é nisto tão fundamentalmente estúpido que até se torna difícil escolher por onde começar. Experimentemos pelo início.
 

Em 2008, catorze anos passados de naturalíssima retirada, que se chegou a supor definitiva, após Do Mundo, etapa final da obra fixada, HH publica A Faca não Corta o Fogo, ainda sob chancela da Assírio & Alvim – que, no entanto, fôra já apanhada nas malhas da Porto Editora. A tiragem, como era hábito, constou de 3000 exemplares, depressa esgotados. Regressado, este nada pródigo mas prodigioso poeta chegava enfim a uma tão tardia quão duvidosa consagração geral, e estava de repente na moda, mesmo entre quem nunca lhe lera até então um único livro. Começavam aqui os equívocos. E, depois, os protestos, mas ainda muito vagos: a Assírio era uma vaca justissimamente sagrada, a ninguém tão logo ocorrendo arguir-lhe “edições limitadas” em “estratégia comercial”. Pelo que a neófita lamentação se limitou à não reedição do volume, desconhecendo, porque neófita, que o poeta nunca reeditara nenhum de poesia própria (só os da traduzida, e os de prosa). Nada de novo debaixo do céu. São costume estes mal-entendidos entre os convertidos súbitos e a normal cronologia do mundo.

Herberto

Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar


Uma maneira de começar este texto seria lamentar a morte do maior poeta português de sempre, mas o desfasamento de tantos séculos em relação a Camões, fundador do nosso idioma, desaconselha, por vários motivos, comparações ambiciosas de que não tenhamos a justa medida. Uma outra, única outra, seria dizer só que morreu o maior poeta português desde Camões; mas essa, ainda soando a mais a muitos, soar-me-ia a menos. Entre estes dois nomes/números inteiros, não há hipóteses de permeio: vigora entre nós, até hoje, uma espécie lacunar do princípio do terceiro excluído. Pelo que não teremos adequado panegírico para início de prosa. O que se pode é adiantar o que ninguém discutirá: morreu o poeta português de maior fôlego e mergulho mais fundo. Morreu, em suma, o maior nadador da literatura em língua portuguesa até hoje conhecida. Se não foi este o «Super-Camões», não foi nenhum. 

Herberto Helder [1930-2015]


E a morte passa de boca em boca com a leve saliva
com o terror que há sempre no fundo informulado de uma vida


Intertexto (I)

(Sobre ombros, por ordem decrescente de cronologia e de altura)

                                                                               
Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
                         É uma onda            
Seus ombros beijarei, a pedra pequena                                  que quer estender-se
do sorriso de um momento.                                                   sobre a página
Mulher quase incriada, mas com a gravidade                         e quer durar  

de dois seios, com o peso lúbrico e triste                              como um ombro 
da boca. Seus ombros beijarei.                                             amante
(Herberto Helder)                                                                 que descalço 
                                                                                            vai abrindo a sombra
                                                                                            e as pupilas
                                                                                           que atónitas se esquecem
                                                                                           ao ver a folha ou face                                                                                            em que o centro se demora                                                                                             (António Ramos Rosa)

Gosto daquela mulher alta e esbelta que passa vestida com um fato de verão que lhe mostra a quase nudez de uns ombros que apetece beijar lentamente, até a pele dos nossos lábios não nos pertencer e ser a pele dos ombros da mulher
(Armando Ventura Ferreira)
                                                                                             

(Sobre e tão antes de isto destacado, muito evidentemente, Camões: Transforma-se o amador na cousa amada, por virtude do muito imaginar. E sobre isto, por sua e outra vez, Herberto, Transforma-se  o amador na coisa amada com seu feroz sorriso, os dentes, as mãos que relampejam no escuro etc.)

Herberto Helder ― Os Passos em Volta

Editorial Estampa (1970). In-8º de 165, [3] págs. Br.

Terceira das tantas edições que o livro continua a contar até hoje, impressa sobre bom papel levemente avergoado, com arranjo gráfico de Alda Rosa e a capa ilustrada em trabalho conjunto por José Brandão e Keith Trickett; publicada na série «Novas Direcções», de que foi o segundo título a sair. Em relação às predecessoras, de 1963 e 1964, acrescenta mais alguns textos (esta prosa contínua tem sido, como se sabe, work in progress): o famoso «Poeta Obscuro», por exemplo.

Pertenceu o exemplar ao bibliófilo José Sá de Frias, dele tendo aposta ligeiríssima assinatura sobre a primeira folha de texto.
 
18€  

O poeta e os mestres: segundo acto


Herberto Helder, personagem pouco frequentadora de mestrados em geral, é um malandro. Vejam bem: publicar edições limitadíssimas de cinco-mil-exemplares de livros de poesia numa terra em que, manifestamente, eles se comem ao pequeno-almoço, como se fossem grande coisa, a “armar em autor de culto”. Estúpida extravagância. Como se, aliás, autor e editor se pudessem reservar, seja por que razão seja, qualquer espécie de direito de definir a tiragem de uma edição. Como se, aliás ainda, mais exemplares proporcionassem mais vendas, assim estando ambos a abdicar de receitas directas. Como se, em suma, isto fosse uma economia de mercado. 

Tão malandros quanto ele, os livreiros que açambarcam exemplares – há quem chegue a comprar 4 ou 5, imagine-se – para depois os venderem com lucro. Vejam bem: comprar livros ao preço editor e depois vendê-los mais caros quando esgotados, ou seja, quando a procura ultrapassa marginalmente a oferta. Bando de especuladores. Como se fosse legítimo vender livros raros dos quais depende a alimentação – ainda por cima, tão sazonal e tardia – do povo. Como se não fossem profissionais subsidiados a eito pelo Estado, lhe pagassem impostos e precisassem de qualquer espécie de mais-valia para ganhar a vida. Como se, outra vez, (sobre)vivessem numa economia de mercado. 

Só não são malandros, claro, os milhares (milhões? às tantas...) de leitores putativos que, de facto, só não compram o livro porque não podem. Não podem telefonar para as livrarias a reservá-lo, porque dá isso o considerável trabalho de marcar algumas teclas no telefone. Não podem lá ir depressa, porque esse esforço, o da propositada deslocação, ainda é mais significativo. E, de resto, o princípio estaria errado: não faltava mais nada do que um leitor ter de ir de propósito a uma livraria para comprar um livro que diz querer, como se este não devesse ficar disponível e inesgotável o tempo que preciso fosse. “Agora não, que é hora do almoço; agora não, que é hora do jantar...”. Portugal é sim o país de mais injustiçada gente que se conhece. Não somos campeões do mundo (e arredores) porque não nos deixam, não perseveramos porque não nos deixam, não parecemos educados nem nos comportamos com um módico sequer de civismo porque não nos deixam. Não lemos porque não nos deixam, pelos vistos. Se calhar, também só não raciocinamos porque não nos deixam.
 
Tudo julgado, todos justíssimos  os protestos que por aí fora lavram. No que toca ao poeta, restará expulsá-lo da República, antigo e platónico desiderato aqui inócuo: num país de tanto vate, nem se lhe vai notar a ausência.