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«Traduttore, traditore»: os reis também podem trair.

Supondo que Deus não seja estrangeiro, a Bíblia não conta, mas um dos candidatos a livro da literatura estrangeira mais variadamente traduzido por cá talvez seja o «Hamlet»: assim de memória, foram tradutores o rei Dom Luís, Santos Quintela, Domingos Ramos, Sofia de Melo Breiner e António Feijó, por exemplo.
Para quem não saiba, o nosso  monarca foi um dos mais denodados tradutores de Shakespeare, e um dos primeiros - ou mesmo o primeiro - a traduzi-lo sistematicamente a partir do original. Camilo, no afã de dar graxa para obter o tão solicitado título de Visconde, chegou mesmo a publicar um opúsculo a que chamou "esboço de crítica" acerca da tradução do «Othello». E Junqueiro diria que mais valia ter ensinado o filho a escrever antes de se preocupar com traduções. Quase todas em exposição na Biblioteca Nacional.
   

Prémios literários: uma romaria sem grande mensagem...

O argumento mais usado e mais decisivo para arrasar a pertinência dos prémios literários do Estado Novo (embora pudéssemos arrasar a de todos...) é o de no primeiro ano da sua atribuição o Prémio Antero de Quental ter sido concedido ex-aequo a Fernando Pessoa e ao Padre Vasco Reis, mas com este a ficar de facto com o primeiro lugar. Durante toda a vida, parece que o próprio padre desdenharia da sua produção e juraria o absurdo da vitória da sua Romaria em detrimento da Mensagem pessoana, aliás ideologicamente também tão a contento do novo regime. Quanto ao patrono do concurso, só não deu voltas no túmulo porque não iria muito à bola com o nacionalismo fernandino. A paz do cemitério açoriano de São Joaquim, onde está sepultado o Santo Antero, agradece.
 
Foi esta a primeira edição da dita Romaria, que até teve direito a reedição. Não uma por ano, mas teve.
[Fotografia do exemplar da Casa Fernando Pessoa]

Do Prefácio

Sampaio Bruno, que morreu faz hoje cem anos, apresentava assim um livro: «Advertencia preambular, prefacio, prolegomeno, introito, ou como queiram chamar-lhe, manda a technica que aqui o escrevunhe» (Notas do Exilio, 1893). Da técnica sabia ele, bibliógrafo aturado que era - e que mais foi quando director da nossa cara Biblioteca Municipal do Porto, em São Lázaro, da qual quase só saía para recolher à Rua do Bonjardim. Aliás, por aqueles finais de dezanove, iniciar um livro com um prefácio, próprio ou alheio, parecia quase inevitável, muito mais ainda do que agora. O que nos leva a pensar. Por que razão, afinal, decide um autor (palavra incerta, mas "manda a technica que aqui a escrevunhe") dar as próprias palavras a público envoltas num embrulho em vez de nuas.
Se o suicídio de Camilo, de que há pouco se tratava, foi o grande trauma activo, o homicídio de Inês de Castro foi o passivo, com consequências literárias propriamente ditas, e como nenhumas outras nas nossas letras. Nenhum outro motivo terá dado ensejo a tanta folha de papel impresso por bandas lusas. Garcia de Resende, Camões, António Ferreira e Francisco Manuel de Melo, já se sabe, entre muita mais gente quinhentista e seiscentista. Bocage, depois. Os principais românticos, estranhamente, passaram-lhe bastante ao lado, o que é tanto mais estranho quanto Garrett (chegou a esboçar um drama, depois de assegurar que "Inês de Castro, o mais belo e poético episódio do riquíssimo romance da história portuguesa, está por tratar ainda") e Camilo teriam feito do tema o que entendessem; também a Geração de 70, já sem estranheza nenhuma. Mas, de aí em diante, a coisa é quase omnipresente, sobretudo falando de indivíduos com alguma ligação, natural, afectiva ou académica, a Coimbra: Eugénio de Castro, António Patrício, Antero de Figueiredo, Lopes Vieira, Rocha Martins, etc. Até nos contemporâneos: Natália, Fiama e Agustina, pelas senhoras, e pelos senhores nem vale a pena começar uma lista que teria início alfabético e apropriado em Alegre, Manuel. Saliente-se só o original tratamento dado por Herberto (que poderia porém ter feito ainda muito melhor) no texto incluso n'Os Passos em Volta.
Desde já se pede desculpa aos nomes úteis, quase todos, pela mistura com inúteis porém famosos, flagrantemente dois.
 
Pouco menos (em certa época, mais) que as lusas, as castelhanas, depois espanholas: aqui ao lado así mismo se fartou de perorar, sobretudo em teatro, como por cá, acerca do drama desta galega criada em Castela com a castelhana Constança. O próprio Quevedo pegou no assunto, e ainda hoje se lhe pega.
Pasmai: até na China e no Japão continua a levar-se à boca de cena versões à moda do extremo oriente.
 
E tal as letras, as artes. De modo mais obsessivo, como costumam. Talvez falhe a memória, que se recorda de dois casos evidentes: o recente defunto Espiga Pinto, com milhentas variações à volta de Inês-loura-cósmica, e Lima de Freitas, com outras numerosas do Rei-Saudade e da Rainha-Morta, um fantasma vivo enlouquecendo do esqueleto do não-fantasma morto.
 
Tudo isto pode parecer um tanto doentio, mas entende-se lindamente. Quem entre desprevenido nesta história nunca mais dela sai.

Uma velha disputa

 
Começou  ainda no séc.XIX, pela consagração do segundo, desenvolveu-se sobretudo durante as primeiras décadas do XX, e, mais ou menos atenuada, com mais ou menos concessões a uma pouco plausível neutralidade, dura até hoje. Os nomes de  Camilo e Eça são, em sentido quase político, dois partidos, a que correspondem duas «ideologias» que parecem fáceis de precisar, mesmo se tantos os campos em que se manifestam.
Desde logo, o literário: posto que o romantismo do primeiro fosse mais de feitio do que de literatura, sempre se lhe opôs com afinco doutrinal o realismo de José Maria, descontando a fronteira, chamemos-lhe, «naturalista» que ambos frequentavam. Também o ambiental: A Cidade e as Serras e A Ilustre Casa de Ramires não mitigam o fundo mais urbano da bibliografia do seu autor (que mal conheceu outra coisa), bem distinta da daquele que quando não escrevia sobre o Porto, estava, por regra, a compor cenários campestres, numa apologia da ruralidade que, em franca (e não irónica; também dessa houve muita...), raramente quis disfarçar a motivação reaccionária. O pessoal: vida fácil e convencional do cônsul, vida difícil, desregrada e "atormentada de um profissional das letras" pioneiro por cá, com os naturais ressentimentos acumulados; disse-se já, e bem, haver a impressão permanente, ao ler Eça, de alguém que escreve recostado numa poltrona, e ao ler Camilo a de alguém inclinado sobre a banca em que, é verdade, trabalhava. E até, se quisermos, o político: legendária (o mais crível) ou não a história do ajudante de campo de Mac Donnell, oficial de D. Miguel, faria decerto menos espécie aquele ultramontanismo absolutista e religioso à criatura da Samardã do que ao diplomata, sem grandes dúvidas do lado constitucional e com movimentação fluente pelos meandros da Corte. 

Sobre «livros digitais»


i - A facilidade e a velocidade com que por estas bandas se ensaia e consegue estabelecer, em  plenos senhorio e domínio, fórmulas absurdas, para não dizer parvas, chegam a exasperar um santo. Há meia dúzia de anos que a tão parolinha, tão portuga, tão logo deslumbrada vertigem tecnológica nos martela olhos e ouvidos da peregrina expressão «livros digitais», embebida na conversa do costume: que os «livros em papel» vão acabar, que o futuro é radioso mas da radiação de um ecran de computador (ou de outro qualquer aparelho assim mesmo digital), bla bla bla. Alguma caridosa alma bem poderia explicar -  pelo menos, à luminária que para cá tenha importado da americana o discurso - que dizer «livros digitais» faz o tanto sentido de «livros telefónicos», ou «livros gira-discos», ou «livros televisivos», ou «livros rádio», ou «livros filme», ou o diabo-a-quatro. Nenhum, isso.
 
ii - Mais do que qualquer outra palavra que agora lembre, se comparável existe, «livro» designa em simultâneo ideia e matéria, substância e forma, conteúdo e continente. Chamamos livro à criação mental como ao suporte em que se vem a plasmar, sempre o mesmo, mais que sejam as variantes: conjunto de folhas de papel agrupadas em cadernos que se reúnem num corpo único, hoje em dia (até ao séc.XIX, inclusivé, não necessariamente) quase sempre coberto, por uma folha ou por cartão, recoberto ou não de material acrescido - tecido, pele, etc. É, em grande parte, esse monismo mais do que linguístico, essa duplicidade unificada em linguagem e em cosa mentale que o tornam objecto de devoção sem par. Não como a arte, que por inteiro consubstancia a ideia na matéria; ou a música, que pelo contrário nem chega a depender de qualquer das formas reprodutoras que a manifestam em diferido, quase até à indiferença.

Do determinismo literário, segundo Cesariny


A propósito de Cesariny, entrevista lida ainda há pouco, dada por ele a António Cândido Franco. A páginas tantas, sai-se com esta para explicar a superioridade (antes dele, quase nunca sublinhada) do amarantino face ao lisboeta: "Pessoa tinha uma mesa de café para escrever e a rua com os carros. Pascoaes tem um castelo e uma serra de bronze, mesmo em frente. O que é que você escolhe?". Pontos de vista, em suma.

Afonso Ribeiro e o Neo-Realismo em Portugal


Parece discutível, e vai aqui tentar-se brevemente demonstrá-lo, um velho apontamento que confere a Afonso Ribeiro lugar destacado, ainda que de rodapé, na história da literatura portuguesa, enquanto precursor do nosso neo-realismo (do qual o autor destas linhas está, em todo o caso, longe de ser especialista).
Do ponto de vista geracional, nem há debate: o escritor nasceu em 1911, ano de nascimento de Redol e Manuel da Fonseca; Soeiro Pereira Gomes, antes, em 1909; para não chamar agora José Gomes Ferreira. E a actividade de editor e colaborador da revista portuense Sol Nascente, durante os anos das polémicas com os presencistas que serviram de incubação ao movimento, não se pode dizer antecessora (nessa, n'O Diabo e em Altitude, como em muitas outras revistas literárias não tão vinculadas, escreviam pela mesma altura Álvaro Cunhal, Álvaro Salema, Alves Redol, Joaquim Namorado, José Rodrigues Miguéis, Mário Dionísio, exemplos). Pelo que o mote só poderia ser a data de edição - 1938 - de Ilusão na Morte, seu primeiro livro, de pequenas novelas e contos, publicado.

Pascoaes, cem anos de Verbo Escuro

A 15 de Março de 1914 - corre hoje um século preciso - ultimava Teixeira de Pascoaes  nos  prelos da Renascença Portuguesa a primeira edição de Verbo Escuro. 

O livro, consagrando "a seriedade escura da palavra", o verbo das "palavras indecisas, nevoentas do sonho que as gerou",  ensaia logo de início  uma peregrina programática, invectivando os gerais poetas a fazerem o que fez e faria  este toda a vida, cantar os fantasmas ("Cantae o que não existe... O resto é cinza."). E peregrino, mas nada devoto, é ele todo, facilitando no grau máximo o simpático apodo de «poeta tolinho» que, por exemplo, uma certa ortodoxia católica sempre lhe dedicou. Não admira: "Crear: eis o mal da creatura, o erro fatal que a diminue. Ela definha na sua obra. / O Universo é a obra, a pessoa de Deus e o unico argumento contra a sua existencia"; ""Amae a Deus sobre todas as cousas. Decerto. É proprio do creador amar a creatura"; "O homem não é o peccador: é o Peccado"; "A Arte eleva-nos ao Homem, mas afasta-nos dos homens. Na Natureza ha o ritmo e não a rima. É uma obra em versiculos, como a Biblia"; e dizer de Deus ser a "alegria creadora, infernal", à que sucedeu a "tristeza que redime" de Cristo; e empreender solitárias excursões nocturnas a cemitérios como mote de dissertação; etc.
(Quem diz o clero, diz a burguesia. Também não pasmando. "Em sociedade só depois de morto e com os mortos", evitando na idade maior, já por isso retirado no Marão, "o crepusculo, a esposa e a livre critica", entre o anjo da infância e o cidadão, "especie de fossil animado". Entre uma e outra  banda da ponte de São Gonçalo, Pobre Tolo. Entre  as  faces  ilusórias  do  tempo, "O futuro é o passado que amanhece". Entre a vida e a morte, mas sempre olhando para esta, do modo desta: "Para os olhos da caveira tudo o que existe - é osso.". O Verbo Escuro, a própria saudade em negativo)  

Rosto, fronte, frontispício, pórtico, portada, etc.

Tradicionalmente, é a folha de rosto o «salão nobre» do livro, onde consta, quase sempre, a indicação do título e da editora; sendo também frequentes nome do autor e data de edição; e podendo apor-se-lhe tudo o que bem aprouver (simbologia nobiliárquica, tontices e efeitos cómicos de vário tipo e ex-libris e emblemas do escritor ou da casa editora eram comuns, por essa ordem, até finais do séc.XIX, início e meados do XX; mas estão hoje em desuso, se se fala dos principais - e cada vez mais carneirinhos, graças a deus - nomes da edição portuguesa).
Frontispício das «Cartas ao
Muito Reverendo em Christo
Padre Francisco Recreio (...)
Por Um Moribundo.». O
«Moribundo» era Herculano, que
então (1850, em sequência da
publicação da sua «Historia
de Portugal») voltava à carga
na famosa polémica «Eu e o Clero».
O melhor modo  de dar uma ideia da importância dela é lembrar que, mandam as regras bibliográficas, em caso de discrepância  entre os dizeres  respectivos e os da própria capa, devem prevalecer aqueles. (Fazia isto cá todo o sentido até meio, 3/4 do  séc.XIX, quando literatura e edição  sofrem um valente abano, porque  sucedia com frequência o livro não ter sequer uma capa, como hoje a entendemos: havendo amiúde  apenas uma folha incaracterística, em papel de embalagem ou outro qualquer, sem  nenhum vestígio de impressão, a revestir a brochura; que, às vezes, era publicada só, de todo despida. Com o tempo, a norma tornou-se, em parte, obsoleta, por muito ter  a importância da capa, evidentemente, aumentado entretanto. Quando a data desta e a do rosto são distintas, por exemplo, parecerá de bom senso preferir a primeira para aferir da publicação, por a execução ser aí, com poucas excepções, posterior à da impressão do volume, sobretudo se é mesmo isso que se anuncia. Enfim, minudências agora, em plena era digital, cadastro para tudo e mais alguma coisa, residuais, porventura  sobrando a propósito de editoras marginalíssimas e que se recusem a apresentar, ao menos,  qualquer  site  na  web. Conjunção bastante improvável)    

Uma história portuguesa, com (única) certeza


Ainda sobre Descobrimentos. Tem  dado  notícia na imprensa  e  na  web (que vê polémica e risota seguirem crescentes) a venda a uma galeria nova-iorquina especializada em iluminuras, por um livreiro antiquário português, de um manuscrito luso no qual figura, dentro de uma letra capital «D», o desenho do que  se  logo aventou um canguru. Julgar-se a peça composta entre o final do séc.XVI e o início do XVII acentua a hipótese - que vários historiadores têm sugerido - de a Austrália não ter sido descoberta, por navegador holandês, em 1606 e sim antes, à imagem do caso americano (Colombo, o oficial, chegou cinco séculos depois dos vikings, cuja aportação à Terra Nova é sabida). Certo que, até prova concludente, não valerá embandeirar o useiro entusiasmo auto-glorificador lusíada em arco: ainda que o manuscrito anterior a 1606 e o animal representado, efectivamente, um canguru, continua a faltar o corpo de evidência: a garantia de o desenho ter sido feito à vista desarmada, in situ ou memorando, e não em cópia. Se, como se diz, a autora do manuscrito fosse uma freira de um convento das Caldas, não parece muito pertinente, passe o mau feitio, imaginá-la em tão meridional e peregrina missão aos aborígenes, navegando no meio da súcia marinheira. É  bem possível que (também aqui como na América, before Columbus) hajam pela Oceânia passado portugueses antes dos demarcados holandeses. Mas a fácil rapidez com que se pretende fazer uma pequena  curiosidade assumir  foros de revolucionária  prova histórica, mais a mais, quase implausível, torna-se espantosa coisa. Sem emenda.
Pode-se ler acerca disto variações (ficamo-nos pelas jornalísticas, respeitando os bons costumes e a pudícia dos leitores) aqui e aqui , por exemplo. 

Não ladrão que não rouba ladrão: 418 anos de perdão (e não é Salomão)

a iluminada «arguida»
Tem sido notícia nos últimos dias, e Luís Miguel Queirós desenvolvia-a ontem nas páginas do Público. Reclama-se em Faro pela biblioteca de Martins Mascarenhas  (bispo do Algarve, conhecido teólogo da época, sucessor no cargo do hoje mais  afamado Jerónimo Osório; autor dos Commentariae in Proverbiae Salomonis, entre vários tratados; jesuíta, representou o clero português no Concílio de Trento* e acabaria Inquisidor-Geral do Reino), saqueada pelo conde de Essex durante assalto à cidade e alguns anos depois doada à Bodleian Library, da Universidade de Oxford. Primeiro tema: escusa de esfregar as mãos, por descontentamento contente, quem entre nós não tenha "à velha Albion dos mais acrisolados amores" (Camilo), porque o ataque foi em 1596, vigentes reinado cá de Filipe II e conflito entre coroas, britânica e hispânica; e o mote, embora aqui especialmente impreciso (dada a ligação pessoal do irreverente aventureiro à própria Elizabeth, então rainha), terá sido mais o corso do que, enfim, militar. Segundo: se a ideia é aproveitar a recente vaga de devoluções, francesas e inglesas, em grande parte por reclamações (e ameaças de processos em tribunal) do Egipto a conceituadas leiloeiras, talvez convenha notar este pequeníssimo pormenor: uma coisa são «saques» de há 1 ou 2 anos; outra, os que contam séculos. Para efeitos jurídicos, por exemplo, depressa se perceberá a diferença. De resto, se isto, à mera diplomacia, fizesse escola, era ver esvaziar num ápice metade de bibliotecas e museus (estes, mais) em todo o lado. No caso das bibliotecas, tomariam o sentido oposto ao do étimo: lugar onde arrumar os livros (disse alguém: a própria vida. A de bibliotecários e leitores, pelo menos, passaria ao caos).  

[* Pode-se ler, no repositório digital do Instituto Camões, a reprodução da carta enviada ao rei, D. Sebastião, logo após o conselho]  

O livro (impresso) mais caro do mundo

Foi vendido em leilão único, pela Sotheby's, um exemplar do que é agora o livro de transacção conhecida mais cara: The VVhole Booke of Psalmes (a.k.a. Bay Psalm Book), impresso em Cambridge, Massachussets, 1640. O valor - «preço de martelo» de 14 milhões e 165 mil dólares - explicar-se-á só, ou quase, pelo facto de se o crer o primeiro saído dos prelos nos E.U.A. Destrona, assim, Birds of America, peça (bem mais interessante e decerto menos rara) naturalista de J. J. Audubon, também  emblema da bibliografia americana, que detinha o anterior máximo desde 2010. Pode sobre isto ler-se notícias aqui e aqui.

Camões e Camones e «Os Lusiadas», ou a Epopeia Contínua


A história, um tanto à la Rocambole e com reportagem também um tanto crédula (às vezes, incongruente, até), vem contada no Público, aqui, e merece bem a leitura. Pelos vistos, há um exemplar da primeira edição de Os Lusiadas no Centro de Investigação de Humanidades do pólo de Austin da Universidade do Texas que lá dizem ter pertencido ao próprio poeta e por ele sido deixado ao frade que, asseveram mais uma vez, o teria assistido no leito de morte; seguido depois a Espanha, durante o domínio filipino; a um diplomata britânico já no séc.XIX; e, com escala de empréstimo às mãos do Morgado de Mateus (serviu-se dele  para os estudos preparatórios  da celebrada edição, publicada na casa parisiense Firmin Didot, que lhe tomou o nome; este trânsito oitocentista, sim, é  documentado, pois foi de facto um dos espécimes consultados pelo homem nessa altura), vendido finalmente nos anos 1960, sob muita típica manobra, naquelas partes. Só talvez não garantam a pertença a Inês de Castro por não ser nada líquido que existisse imprensa e que já estivesse escrito, por antecipado Camões, quando ela linda e posta em sossego. 
Desta atribulada transacção restará apenas a memória nos arquivos do Centro de que teria custado à volta dos 100 mil dólares, valor que hoje monta a umas seis vezes mais, 600 mil. Havendo todas as razões para desconfiar de quase tudo na história, como as há para os termos e supostos números do negócio, não deixa ainda assim de servir como indicador para o que poderia valer, actualmente, um exemplar do livro, se aparecesse enfim a leilão (sorte de epifania por que se espera há décadas entre alfarrabistas e coleccionadores «lusíadas»). E de servir do mesmo passo os que sustentam, tal o autor destas linhas, parecer manifestamente baixa a estimativa nestes últimos tempos repetida de 300/400 mil euros. Certo, certo, é poder considerar-se, sem grande margem de erro, que valerá qualquer coisa mais do que os 5€ da edição fac-similada acabada de lançar pelo mesmo Público. 

Bibliographica (I) : «Assinatura de posse» vs. «Assinatura de propriedade»


uma dita cuja nada discreta,
sobre o rosto de um
exemplar da primeira edição de «Conversar», de
Augusto de Castro
 

Parecerá isto talvez só um preciosismo jurídico, mas a expressão «assinatura de posse», tão usada no nosso meio desde há muito pela grande maioria dos bibliógrafos e livreiros antiquários, não é rigorosa. Descontando ofertas e dedicatórias - por autores, editores, tradutores e todo o tipo de ofertantes particulares -, quem assina (mau hábito...) um livro é o dono como tal, não enquanto «possuidor»,  categorias que nem sempre coincidem, aliás. Situações há, mesmo se invulgares, de possuidor autónomo: por exemplo, aquele que encontra um livro na rua e o toma desde logo à sua guarda, ou que compra num alfarrabista algum antes roubado, só se lhe tornando propriedade após um período mínimo de tempo (seis ou três anos, consoante a hipótese em causa - art. 1299º do Código Civil)  sem reclamação do anterior proprietário. Assim já não sequer aquele, mero detentor, a quem o proprietário o empresta (hábito outro nem sempre famoso). «Assinatura de propriedade» é então a que, estando mal, está bem.   
 
(«Propriedade», «posse» e «mera detenção» são as três figuras da dogmática de direito civil - real - aqui chamadas. A primeira é a única a que correspondem genuínos direitos. As outras duas, com rigor, nem passam de uma circunstância de facto, embora de hierarquia diversa, já que a mera detenção, também dita «posse precária», é, ao contrário da efectiva, por definição, transitória e subordinada.
Para expor de modo mais grosseiro a diferença, esquecendo o plano normativo, será porventura a sexual a melhor imagem, em que a «posse», obviamente, não configura «propriedade». (Há de resto muito em comum com a volúpia e o gozo livrescos. Esses, porém, seriam já outros quinhentos)).