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Julien Gracq ― A Literatura no Estômago

A Literatura no Estômago
(apresentação e tradução de Ernesto Sampaio)

Assírio & Alvim. 1987. In-8º peq. de 53, [3] págs. Br.

Segunda edição portuguesa do ensaio, acrescentada por Ernesto Sampaio da introdução «Uma rajada mais forte», que dele dizia “condenação sem apelo não só do exibicionismo e vedetariato do escritor, como dos costumes vigentes na república das letras (prémios literários!) e da incapacidade da crítica”.

Exemplar em bom estado, descontando pequenos vestígios de acidez.


8€ (reservado)

Julien Gracq ― A Costa das Sirtes (Tradução de Pedro Tamen)

Edições António Ramos, Lisboa (1979). In-8º de 325, [I] págs. Br.

"Julien Gracq, um grande romancista quase desconhecido em Portugal, revela-se agora ao público português com uma das suas obras essenciais, em que (...) o leitor é enfeitiçado e transportado «para um outro mundo, de horror e maravilhas, onde o herói experimenta a sua incapacidade de conduzir a sua própria vida»", anunciava o editor, que sublinhava a ironia de o autor de La Littérature à l'estomac (1950) ter no ano seguinte sido premiado pelo Goncourt com este livro - prémio que, muito naturalmente, recusou.


12€ (reserva)do)

Vida Devota (II)

A nem sempre inocente mania dos bibliófilos interessa-me ao mesmo tempo que me repugna um pouco; para quem procura saber quais as tendências duma época que começam a tomar consistência, há vantagem em consultar as flutuações das suas preferências. No meio da tagarelice literária que escorre por toda a parte, absolutamente desprovida de garantias, essas pessoas ao menos arriscam dinheiro nos seus gostos - que não incidem sobre quase nenhuma das novas estrelas.


A Literatura no Desemprego

Já é mais do que uma moda: quem apostar que o vencedor de qualquer chorudo prémio literário luso será apresentado como «desempregado» deve ter, no mínimo, 50% de probabilidades de acertar. Este sinal dos nossos tristonhos tempos mereceria talvez só um conformado encolher de ombros não fôra o irritante tom latente, entre a condescendência e o paternalismo, com que os patronos (palavra da mesma família de patrões) parecem louvar a coisa e lavar o que de consciência possa restar como veste de capital. No meio de todos os outros de um geral empobrecimento da população que se quer lento e insinuante (não anda a dormir, quem o promove), será este só mais um sinal, mas bem elucidativo do anunciado regresso ao tempo da caridade e da esmola cujo cheiro, não especialmente agradável, vai começando a pairar pelos ares.
(O que menos se entende é o aparente pouco incómodo com que muitos dos ditos vencedores se prestam ao papel. Ainda que haja nos concursos alguma cláusula que obrigue à indicação da profissão - informação de relevância literária quase tão funda quanto a de saber se a pessoa prefere peixe ou bife, praia ou campo, despir-se ou vestir-se -, não haverá decerto a proibição de dar resposta torta a quem no assunto insista.)
 
De Julien Gracq [1910-2007], escritor francês de fugaz ligação durante a juventude ao círculo surrealista, a que nunca se vinculou e de que nunca se desvinculou, ficou sobretudo famoso fora de França o breve ensaio A Literatura no Estômago, murro no estômago, precisamente, à instituição, ao sentido e à legitimidade dos prémios literários. (E às «carreiras» literárias, e aos cortejos, pompas e feiras de vaidades, longo etc.). Falava o do Loire, a páginas tantas, nos escritores recém-chegados com o "ar de sair de uma estufa", que "querem estar à altura do que deles se espera". "A «saída» dum novo escritor oferece-nos frequentemente o espectáculo penoso duma pileca esgalgada tentando lugubremente levantar a garupa no meio dum estralejar teatral de chicotes de circo - nada a fazer; uma volta à pista e basta, fareja o estábulo imediatamente e logo corre para a manjedoura". Palavras não muito mansas, mas talvez ainda mais actuais sessenta e tal anos depois.

Uma das várias perversões intrínsecas e inevitáveis dos prémios literários é o reforço dessa velha falácia: a de que a literatura, como tudo no mundo, se compra e se vende, e o escritor, se não quiser ser «maldito», será mais ou menos domável pelo «meio». Estando desempregado, torna-se evidentemente mais fácil domá-lo. Eis o ponto.