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Ex-Libris (IV)

Ex-libris da autoria do fotógrafo americano de ascendência alemã Frank Eugene-Smith [1865-1936], um dos pioneiros da arte, a partir de composição fotográfica recortada em silhueta. Tal como para alguns ex-libris que compôs, usou frequentemente os seus negativos para trabalhos de desenho e pintura, ideia bastante inovadora - e praticada bastante bem, como se pode conferir por este exemplo - à época. 

(imagem reproduzida do álbum El Arte de las Sombras - M. Aguilar, Madrid, [s/d])

 

Ex-Libris (III): Moreira da Costa

Não é só das comercialmente mais bem situadas, é ainda uma das mais castiças (e antigas, somando várias gerações consecutivas) livrarias do Porto, daquelas que nenhum livreiro se importaria de remoer, encantado pela sobreloja em dossel que ao alto o cercaria. O único defeito evidente a apontar-lhe será mesmo este, o ex-libris, cujo dístico reza assim: "mesmo velho, é um bom amigo". Ora, se tal advérbio já pareceria inapropriado no caso humano (lembro por exemplo, aliás com saudade, o meu amicíssimo avô, abraçando-me risonho de cada vez que lhe entrava pela casa dentro fosse a que hora fosse: e não há, podem crer, nenhuma amizade jovem que valha isto), mais impertinente parece tratando-se de livros, que só não substituem no nosso adágio o vinho do Porto porque a lusa raça sempre foi mais dada à bebida do que à leitura. Dos novos, poucos livros têm graça. Dos velhos - já para não falar dos antigos, propriamente ditos - quase todos a têm. É até possível que daqui por cem anos alguém folheie o lixo que hoje se edita com o condescendente sorriso que fazemos ao pegar naquelas altamente improváveis brochuras de 1915: não as da Grande Guerra, mas as que, entre outras maravilhas, ofereciam receitas para as mulheres perderem a barba (juro que não estou a inventar).

Ex-Libris (II): Manuel Ferreira

Foi de Manuel Ferreira a primeira livraria antiquária que conheci e muito pontualmente frequentei, aí por meados dos anos 90, ao alto da Rua Formosa, a partir de onde tomava autocarro depois de incursões pela Baixa do Porto e, mais tarde, sessões quase diárias na Biblioteca Municipal (São Lázaro). Era ainda muito incipiente a bibliofilia, e, da doente bibliomania sucedânea, nada (só interessava então a literatura, que ingénuo tomava por conteúdo, entendendo o suporte em livro simples forma, de que desdenhava). Além disso, o senhor, entregue aos seus estudos e trabalhos, já então pouco aparecia ao público; pelo que só depois - uma década - o conheci um pouco, pouquíssimo, melhor, quando mais bibliófilo-a-sério lhe comecei a frequentar os leilões de bibliotecas particulares levadas a praça no salão da Junta do Bonfim. Ainda além disso, fechou entretanto a livraria enquanto loja propriamente dita, passando a funcionar em feição mais de armazém, com atendimento menos directo e óbvio, na perpendicular Alves da Veiga (onde até hoje permanece, da mão competente do filho mais velho, Herculano; o mais novo Paulo, também fotógrafo artístico, «emancipou-se» e fundou a In-Libris, já quase maior de idade).

De Manuel Ferreira dir-se-ia, à parte o que já sabe mesmo quem não o conheceu - muita ciência, desde logo -, ter sido figura discretíssima, de feitio e de modos (impecavelmente cordiais), daquelas que, se desatentos, nos passam quase despercebidas na rua. Nada que faiscasse, nem uma chispa, nem uma alteração, nada. Pura serenidade. (Estava capaz de jurar que nunca terá dado um berro na vida, por exemplo; o que também não imagino no meu tio-avô João, livreiro da Figueirinhas, primeira livraria que frequentei tout court, ainda durante a infância, na Praça aos sábados de manhã; esta ideia, propensão a personalidade búdica de alguns velhos livreiros, dava sozinha um estudo). O que nele sobressaía e era único era «apenas» isto: a maneira como pegava nos livros. Daquelas coisas tão óbvias que, se calhar, ninguém mais nunca deu fé (mesmo quem isto escreve, só depois de ele defunto, em exercício já de memória). O homem tocava os livros como, sei lá bem, não era só delicadeza, nem só cuidado, nem só devoção, e de tudo um tanto, como cabelos ondulando, sombras, o movimento da fuga ou nem isso, gesto que não fosse a só fragilidade mas o modo segundo de ela o suspender entre as coisas vivas e as coisas mortas. Pegava-lhes de modo tão natural (hábito) e atento (profissão, de professar) como se em simultâneo fossem o ar devolvido da própria respiração e a respiração devolvida de alguém que muito se quer. (E não, não se está aqui a armar poesia barata. Era como que isto.)
 
O ex-libris, dos melhores que conheço, modelo de conseguimento com simplicidade de meios e de execução, foi composto por José Rodrigues algures na década de 80 (quatro vintes, quatro vezes vinte). Reza-lhe o mote que «Livros cerrados não fazem letrados». O que, sendo verdade, não deixa de se aplicar a quase todos os coleccionadores, mesmo mais modestos, como o autor destas linhas: por cada mil juntos, talvez se leia uma ou duas centenas, se tanto... Soa, em suma, um lema demasiado honesto para uma livraria. 

Ex-Libris (I): Pedro Veiga


Difícil seria não inaugurar esta série com o ex-libris que mais vezes vi e me passou pelas mãos: o de Petrus, advogado (mas pouco) e publicista portuense, figura lembrada como extravagante nos meios da cidade, reconhecido ainda hoje por alguma - heterodoxa - actividade política de oposição ao Estado Novo (foi um dos fundadores do MUD) e sobretudo pelas edições que patrocinou e, em alguns casos, promoveu ele mesmo na sua Arte e Cultura, de que destacaria a colectânea Documentos Literários, editora e reeditora de trabalhos de Fernando Pessoa; foi dele, por exemplo, o estudo (não muito brilhante, mas sempre procurado) sobre Os Modernistas Portugueses.
Era o homem  senhor de  biblioteca notável, das melhores por cá reunidas no séc.XX, agregadora de umas boas dezenas de milhar de espécimes - apontaria para 50/60 mil, só um alvitre, não  podendo haver  números seguros, até por dela ter sido entretanto perdida  incerta parte. Criteriosa, com relativamente baixa percentagem de «monos», se não falha a memória, tinha a literatura lá a parte de leão, e nessa é preciso sublinhar tudo, ou quase tudo, o que houve  de  mais  relevantes  títulos dos nossos  sécs.XIX e XX: destacando-se em  edições  originais uma importante camiliana e bastante completas bibliografias de Antero, Pascoaes e Pessoa (Mensagem incluída). 
Ora, foi essa mesma colecção que começou por caber em sorte a quem isto aponta (também a Raquel Patriarca, rapariga de talentos vários que se pode ler aqui e em muita folha impressa, e de quem já por aqui se falou) quando novel estagiário na Faculdade de Letras do burgo, à qual coube a parte mais significativa do acervo; para a de Direito, pouco antes constituída, foi a jurídica, cerca de cinco mil volumes (de novo  vem a memória pedir piedade,  passada que  é mais de uma década). Muitas atribulações depois, permanecerá elementar justiça reconhecer a estoutro bibliómano, apesar de nunca conhecido, morto havia muito tempo, uma fase bem significativa do desenvolvimento de um qualquer gene doentio que já por cá andaria mas só mais tarde se veio a notar, vicioso e viciado em livros antigos. Homenagem ou recriminação, se não ambas, aqui fica, pois. Suum cuique tribure.