É um dos mais conhecidos e reproduzidos, posto que nem de longe dos mais directamente apelativos trabalhos compostos pelo pintor de Nuremberga - primeiro, estranha-se, só depois se entranhando. Quadro-testamento, suposto até o último por ele pintado, ter-lhe-á dedicado, se é verdade essa nota com que o encarece quando se propunha oferecê-lo ao município da cidade, muito mais tempo do que a outro qualquer. «Os Quatro Santos» é título que aqui fica por bem mais razoável do que aquele que o tempo tratou de consagrar, «Os Quatro Apóstolos» (soa melhor, mas não vale, como nem será de Dürer). Salva desde já opinião preferível, o que tanto impressiona no quadro não é a ascese formal (composição surpreendentemente elementar, em contra-mão da complexidade típica, por vezes, até excessiva - dizia-o logo Michelangelo -, do autor desse espantoso «Melencolia»), nem a pioneira, quase inédita, disposição vertical sobre-alongada dos painéis (isto, claro, para um olhar contemporâneo, que terá já passado por tudo o que veio depois, oitocentos inglês à cabeça; não assim até então), começada a ensaiar por ele noutros, também de santos e de Adão e Eva. O que logo faz pensar à própria medida que o vemos, e isto cada vez mais, é a tremenda verosimilhança das figuras, numa familiariedade perturbadora, como se estivessem prestes a aparecer representação exacta, não podendo ser senão essa, das personagens aludidas. Ia a escrever: como se as tivéssemos mesmo conhecido. Crentes, tresmalhados, pagãos e ateus, já para desfazer equívocos. Pequena ressalva: o discípulo favorito de Jesus, com um ar demasiado germânico - o que aconteceu em grande parte das pinturas religiosas deste artista - e, convenhamos, pouquíssimo hebraico.