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Arqueologia Literária (VIII)

Ninguém saberá ao certo, nem talvez ninguém tenha nunca sabido, da complexidade das relações que ligaram os dois nomes fundadores, e principais, do nosso Romantismo: Garrett e Herculano. De feitios tão distantes como a cigarra e a formiga da fábula (escusado dizer qual deles fosse cada uma delas), um o cúmulo da diletância e o outro o cúmulo da profundidade, sabe-se só que combateram juntos, embora em distintos batalhões, enquanto voluntários do exército liberal durante o Cerco, que depois alinharam por partidos diferentes, e que viriam até a protagonizar um tremendo despique sobre a questão da propriedade literária. Sabe-se também que sempre se admiraram reciprocamente q.b.: Garrett respeitou Herculano, apesar de ter nascido dez anos antes, porque o Lobo do Vale impunha respeito a quem quer que fosse; e Herculano também respeitou Garrett, não por ser mais velho mas por o entender o maior poeta de Portugal, só comparável a Camões (quando lhe deram a ler os textos de Folhas Caídas, na Bertrand do Chiado, adivinhou-lhes o autor por em terra lusa "mais ninguém poder compor versos assim"). No meio disto tudo, sabe-se menos do episódio que aí vai, contado pelo autor do Eurico a Gomes de Amorim, pau-de-cabeleira, confidente e biógrafo de Garrett, em carta que ele lhe pedira para as Memórias que escreveu deste último. Passa-se em 1849. Garrett, após uma das zangas amorosas com a Viscondessa da Luz, Rosa Montufar, requer asilo a Herculano no seu semi-eremitério da Ajuda, onde então preparava a Historia de Portugal. Pelo menos algumas das Folhas Cahidas, as mais róseas,  também hão-de ter estado aos pés  daquelas árvores, que por isso duplamente merecem geográfico destaque na bibliografia portuguesa.
 
"Queria vir preparar-se aqui para a solidão; queria ir viver no campo, dizer vale a Lisboa; mas sobretudo desabafar comigo. Veio. Fui tão asno que andei com ele a procurar uma vivenda rústica. E o desabafo? Nunca me disse uma palavra sobre as causas daquele excesso. Começou a sair à tarde e a vir alta noite, a ficar em Lisboa e a reaparecer inesperadamente; depois, a obrigar-me a ir com ele passear, o que me incomodava soberanamente, porque eu trabalhava então muito (prova real de que era um chapado asno, como acima disse). Nos nossos passeios (por via de regra sobre a estrada de Pedrouços) tínhamos sempre a fortuna de encontrarmos [a dita cuja]. O carrinho parava, o nosso eremita em projecto punha o pé no estribo do carro, e eu fartava-me de passear sozinho, até que o meu Santo Antão futuro acabasse o colóquio. No fim de três ou quatro meses, voltou para Lisboa sem me dizer nunca nem porque tinha vindo nem porque se ia".
 
Garrett tinha cinquenta e Herculano quarenta anos quando faziam estas figuras. Para o primeiro, seriam a coisa mais natural do mundo. Para o segundo, deviam ser pesada pena, que dificilmente imaginaremos. Naquela austeridade toda, o homem era quase um santo.

Arqueologia Literária (VII)

Concedo passaporte a Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos, solteiro, literato, natural d'Amarante, que tambem usa o nome Teixeira de Pascoaes, filho de João Pereira Teixeira de Vasconcellos. É portuguez de nascimento. / para Hespanha e França
 
[O filho só tem - e bem - direito a um dos 'l's do «Vasconcellos», o pai tem-no aos dois. Distracção ou confusão do Senhor Governador Civil do Porto já uns bons anos após a primeira, bem feita, convenção ortográfica (imagine-se o que nos espera agora, com esta mal feita...)? Respeitinho, muito bonito, pelo nome do Senhor Desembargador? A antiguidade é um posto? Vá-se lá sabê-las.]   

Arqueologia Literária (VI)

A casa fica a meia encosta. Por trás o mar bravo dos pinheiros, em frente os montes solitários: a tarde tinge-os de oiro e à noite o granito compacto esvai-se ao luar como um fantasma. Este cantinho rústico criei-o eu palmo a palmo. Tudo isto foi pedra e uma árvore contemporânea da fundação da monarquia. O carvalho centenário cobria todo o eido. Era enorme, era prodigioso. No tronco, que nem seis homens podiam abranger, tinham os bichos as luras, e a ramada imensa era a moradia de todas as aves. Seu hálito sentia-se ao longe. Logo que o vi fiquei apaixonado. - Vamos viver juntos, vou envelhecer ao pé de ti. - Nós não ouvimos as árvores, mas a sua alma comunica sempre connosco: sua força benigna toca-nos e penetra-nos... Quando voltei de Lisboa o caseiro tinha-o deitado abaixo. Ainda hoje faz parte da minha vida, ainda hoje sonho com ele.
Construí a casa, plantei as árvores, minei as águas. Absorvi-me. Uma pedra basta, basta-me um tronco carcomido... Este tipo esgalgado e seco, já ruço, que dorme nas eiras ou sonha acordado pelos caminhos, sou eu. Sou eu que gesticulo e falo alto sòzinho, envolto na nuvem que me envolve e impregna. Que força me guia e impele até à morte?... Este sonho, reconheço-o, não é só meu - é o de minha mãe realizado, é o dos outros mortos que me rodeiam. E o meu sonho? - pergunto - o meu sonho quem o realizará jamais?...
 
(Não nenhum filho, que Raul Brandão os não teve, nem por isso nenhum consequente descendente, cuja tarefa seria aliás árdua: não fez o homem outra coisa senão sonhar, só nos intervalos escrevendo. A casa era a do Alto, em Nespereira, Guimarães. E o texto - mais tarde publicado no segundo volume das Memórias, com alterações pontuais e de plano - inicia Sombras Humildes: Páginas de Memórias, e saiu no n.º1 da Seara Nova, em 1921) 

Um anti-decreto afonsino

De Afonso Lopes Vieira [1878-1946], muito tradicionalista (não, não  se fala aqui de praxes) toda a vida, ficaram  famosos  alguns dos versos satíricos, improvisados durante as  aulas em Coimbra, com que  ia dando o sal possível aos anos de vida académica. Pascoaes, Augusto Gil, Faria e Maia e gente vária, colegas de curso ou não, deixaram à posteridade  exemplos, reproduzidos com maior ou menor rigor. Aqui uma quadra (dela dava conta Diamantino Calisto  in Costumes Académicos de Antanho), de impecável métrica, que por muitos anos teria persistido na «tradição oral» da universidade coimbrã - sobretudo, naturalmente, na Faculdade de Direito. Dizia-a Calisto dedicada a um  Guimarães Pedrosa, catedrático da casa.

Decretos e mais Decretos
De Decretos não se farta,
Só não cita aquele que o mande
Pro grão raio que o parta 

O Tempora, O Mores...


Saibamos que a primeira e principal virtude da língua é ser clara e que a possam todos entender e para ser bem entendida há-de ser a mais acostumada entre os melhores dela e os melhores da língua são os que mais leram e viram e viveram.
 
(Da Grammatica da Lingoagem Portuguesa de Fernão de Oliveira, a primeira publicada, em 1536, que por cá se conhece)
 
 

A «austeridade» segundo Manuel Pinheiro Chagas

Os caprichos da sorte, que dão a certos homens todos os prazeres e todas as prosperidades e condenam outros à miséria, revoltam forçosamente os corações generosos. Este contraste [...] do luxo e da pobreza, da abundância e da fome, este agrupamento confuso dentro dos muros das capitais, dos que se sentam à mesa dos banquetes opíparos e dos esfaimados que esperam à porta dos palácios o pão da caridade, estas aproximações do palácio sumptuoso e da casinha de paredes nuas sem ar e sem luz, este espectáculo do prazer e da angústia, dos requintes da civilização e dos crimes selvagens do desespero, desenrolando-se à noite debaixo do mesmo céu estrelado, à mesma luz da lua que beija com os seus raios indiferentes a vidraça resplandecente do salão de baile e os caixilhos da janela sem vidros por trás da qual se ouvem os gemidos, os soluços, as maldições dos desvalidos, esta constante antítese, que se apresenta aos olhos e ao espírito do pensador, principalmente nos grandes focos de população, impressiona por força os homens de coração e de inteligência
 
[Voilá; e já nem se pedia  aqui  inteligência. Na abertura da tão crítica e hoje rara «Historia da Revolução da Communa de Paris, por M. Pinheiro Chagas», agora acabada de manusear. Muito haveria a dizer sobre o livro e alguns episódios, até anedóticos, subsequentes à publicação. Ficam duas só notas: não estando datada, há-de ela ter sido no último quartel do séc.XIX, entre 1871 (Comuna) e 1895, ano da morte do escritor; que não era, propriamente, como o livro justifica, conhecido por posições esquerdistas...]

Boas Festas

Apareceu o folheto a quem estas linhas escreve num dos números da segunda, e mais engraçada (até porque ilustrada), série da já de si engraçadíssima Encyclopedia das Familias. Faz propaganda a um álbum que há-de ter sido castiço, Encyclopedia da Infancia, “editado por esta empreza, impresso em bello papel de côr, profusamente illustrado, elegantemente brochado n'uma capa a côres, cujo desenho allusivo, é devido ao lapis de um dos nossos primeiros desenhadores. O volume compõe-se de uma serie de contos, que, ao mesmo tempo que recreiam o pequeno leitor, forma um verdadeiro compendio de grammatica portugueza, como V. Ex.ª poderá ver pelos titulos dos contos que publicamos na pagina seguinte, igualmente decorada por trabalho alusivo.    
Parece ter havido depósito de um número - talvez o primeiro, talvez único a sair - da publicação na Biblioteca Nacional, em cujo catálogo é a descrição, contudo, lacónica. A nova proprietária deste só folheto promocional, autoridade  em história do livro infantil lusíada, não a conhecia, o que leva a crer, segundo a teoria das probabilidades, tratar-se de mui rara coisa.

É de bom tom, e aqui ficam os votos de Boas Festas a clientes e demais leitores "de boa vontade".

Arqueologia Literária (I) - Uma carta de Oliveira Martins


(Carta enviada pelo publicista a Albertina Paraíso, que lhe pedia colaboração - a ele, como a toda a fina flor da nossa literatura segundo-oitocentista, cuja anuência mais ou menos prestável terá tornado este volume dos mais bem concorridos no género por cá publicados - para o seu Almanach das Senhoras Portuguezas e Brazileiras para 1888 por Albertina Paraizo/(3.º anno). [Nas duas edições anteriores chamava-se Almanach das Senhoras Portuenses].  
O exemplar que tenho em mãos pertence à rara tiragem especial de 25  impressos  sobre  papel  de linho,  numerados e presumivelmente em maior formato, destinados a "bibliophilos e camonianistas". A capa, decerto comum com a tiragem corrente, é, veja-se pela fotografia, castiça q.b.
Já se sabe da devoção à estância de Eça, que lá fez a côrte a Emília Resende, e de Ramalho, que lhe erguera panegírico n'«As Praias de Portugal», por exemplo. Fica-se a saber - quem  ainda  não  soubesse, assim o autor destas linhas - da dest'outro Vencido da Vida, que no Porto morou muito tempo, e talvez até então morasse.)
 
 
             Ex.ma Senhora
 
     No remanso desta praia, onde vim buscar algumas raras horas de socego, recebo a carta de V. Ex.ª.
     Entre as tyrannias mais crueis, que affligem a raça dos escriptores, estão, permitta-me V. Ex.ª a franqueza, os albuns e os almanachs.
     Que quer V. Ex.ª que lhe diga para o seu? Deseja algum parecer sobre o intrincado problema dos tabacos? Ou variações lyricas ácerca das ondas do mar? Ou finalmente opiniões sábias com respeito á eficácia dos banhos?
     São os motivos mais de occasião; mas infelizmente não tenho que dizer, a respeito de nenhum delles. Dos tabacos fujo com medo dos espirros, das ondas com medo do rheumatismo. Só me agrada agora o socego e o silencio.
     E' tudo o que lhe posso mandar para o seu almanach, isto é, cousa nenhuma, além dos meus mais respeitosos e sinceros cumprimentos.

     Granja, 16 de Setembro
                                                                                       J. P. Oliveira Martins