"Queria vir preparar-se aqui para a solidão; queria ir viver no campo, dizer vale a Lisboa; mas sobretudo desabafar comigo. Veio. Fui tão asno que andei com ele a procurar uma vivenda rústica. E o desabafo? Nunca me disse uma palavra sobre as causas daquele excesso. Começou a sair à tarde e a vir alta noite, a ficar em Lisboa e a reaparecer inesperadamente; depois, a obrigar-me a ir com ele passear, o que me incomodava soberanamente, porque eu trabalhava então muito (prova real de que era um chapado asno, como acima disse). Nos nossos passeios (por via de regra sobre a estrada de Pedrouços) tínhamos sempre a fortuna de encontrarmos [a dita cuja]. O carrinho parava, o nosso eremita em projecto punha o pé no estribo do carro, e eu fartava-me de passear sozinho, até que o meu Santo Antão futuro acabasse o colóquio. No fim de três ou quatro meses, voltou para Lisboa sem me dizer nunca nem porque tinha vindo nem porque se ia".
Garrett tinha cinquenta e Herculano quarenta anos quando faziam estas figuras. Para o primeiro, seriam a coisa mais natural do mundo. Para o segundo, deviam ser pesada pena, que dificilmente imaginaremos. Naquela austeridade toda, o homem era quase um santo.



