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Maria José de Almada Negreiros — Sarah Affonso

Imprensa Nacional – Casa da Moeda. (1989). In-8º de 43, [29] págs. Br.

Preparada pela filha, a edição, integrada na colecção «Arte e Artistas», inclui a reprodução de um belo retrato da pintora e de dezenas dos seus trabalhos, entre desenhos e quadros; consistindo o texto, sobretudo, na sua biografia artística, praticamente interrompida, como se sabe, durante toda a vida de casada. 

12€

Moledo do Minho e do Modernismo

Curiosa a quantidade de gente dos nossos vários «modernismos» que assentou arraiais em Moledo do Minho Alto: começando em Almada (relembre-se que Sara Afonso, sortuda, passara a juventude em Viana) e nos Delaunay, por exemplo; e continuando em António Pedro (que lá teria casa) e no fugaz compagnon-de-route Cesariny, rapidamente desavindo em feroz profissão de fé surrealista-mesmo, que deixou a pequena povoação balnear gravada em poema.
E já agora, sobre o nosso modernismo stricto sensu, estas palavras de Almada, escritas justamente em Moledo:


"Mário de Sá-Carneiro suicidou-se em Paris ao peso de todas as suas razões pessoais. Guilherme de Santa-Rita, o espírito mais brilhante que conheci, alma veemente de iluminado traído por uma natureza ingrata que o acabou por fim antes de quase começar a sua vida. Pintor em essência mais do que de oficina, alguém seu íntimo cumpriu com a sua última disposição de aniquilar as suas produções. Amadeu de Sousa-Cardoso, o pintor por excelência, o autêntico génio do grupo, o exemplo mais formidável de artista português de hoje em qualquer parte do mundo, é levado em plena vida em meia dúzia de horas por uma epidemia, no instante mesmo em que o seu espírito exuberante produzia inúmeras das suas telas mais vigorosas. Vive ainda Fernando Pessoa na serenidade da sua imaginação literária, e sempre pronto para tudo o que seja elevado, superior, de élite, isto é, tudo o que não sejam actualidades forçadas e sem longo efeito perene.
Pelo grupo passaram uma infinidade de flutuantes, o mais díspares possível, mas não era dos seus destinos elevarem em Arte os seus nomes à altura destes."


(1934. Pessoa morreria em 35. Almada por cá ficaria até 70. A fotografia, com Sara grávida, é desse 1934 nessa praia de Moledo).   

O Livro na Arte (XII)

Com alguma injustiça, Sarah Afonso é hoje quase só lembrada como a mulher de Almada Negreiros - por trás de um grande homem, por trás de um grande pintor e escritor, etc. Mas ela mesma foi sempre uma interessantíssima artista, apesar de, logo após casada, ter decidido apoiar o marido e dedicar-se sobretudo às lides domésticas. No desenho, solto, fresquíssimo, é que talvez mais longe a senhora poderia ter ido. Mas mesmo os óleos, pintados entre uma desenvoltura falsamente naif e a estilização típica do autor de Nome de Guerra, são muitas vezes encantadores. Este, além do mais, representa uma figura feminina ela mesma encantada - pela leitura, como sói acontecer.