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O Livro na Arte (XIII)

Atribuído numa página de arte ao pintor russo Vasily Perov (permitimo-nos duvidar), num séc.XIX que quer na Rússia quer em Portugal era ainda monárquico, este porém republicaníssimo quadro será a capa do nosso próximo catálogo - dedicado justamente à Primeira República. Para o «ilustrar», as palavras que ocorrem são de um vagamente monárquico contemporâneo português do pintor, Alexandre Herculano, que hoje continuaria céptico mas republicanérrimo:
 
"A instrucção tem por alvo o benefício do cidadão e a utilidade da Republica"

O Livro na Arte (XII)

Com alguma injustiça, Sarah Afonso é hoje quase só lembrada como a mulher de Almada Negreiros - por trás de um grande homem, por trás de um grande pintor e escritor, etc. Mas ela mesma foi sempre uma interessantíssima artista, apesar de, logo após casada, ter decidido apoiar o marido e dedicar-se sobretudo às lides domésticas. No desenho, solto, fresquíssimo, é que talvez mais longe a senhora poderia ter ido. Mas mesmo os óleos, pintados entre uma desenvoltura falsamente naif e a estilização típica do autor de Nome de Guerra, são muitas vezes encantadores. Este, além do mais, representa uma figura feminina ela mesma encantada - pela leitura, como sói acontecer.

O Livro na Arte (XI)

Lindo que se farta, deverá ser este quadro a figurar na capa do próximo catálogo da bibliographias. Quem o não conheça, dirá logo que foi pintado por um inglês, mesmo sem precisar de saber: há uma atmosfera típica, quase etérea, que só um pintor britânico, e um britânico de oitocentos, captaria. Assim é. Compô-lo Llewellyn.
Deixemos os aspectos mais técnicos e formais, porque tudo aqui se concentra no triângulo formado pelos olhos espantosamente espiritualizados da rapariga, pelo livro (maravilhoso objecto que sobressai em qualquer contexto) e pelas mãos femininas, graciosas, expectantes. Sendo certo que deslumbram, num segundo plano, os belos cabelos ruivos iriados por reflexos de luz e de verde, casados em pura mestria com a folhagem e a cobertura do volume.
Estes olhos apanham-nos como se viessem do princípio do mundo ou do centro do terra. Não tendo, ainda assim, nem metade da força que outros, também femininos e também verdes, também cercados de ruivo, andam por estes dias a exibir na Feira do Livro do Porto, nos jardins do Palácio - que em 150 anos de acesso público nunca terão visto nada de sequer comparável. De uma espécie inteiramente diferente, fatal, feiticeira, poderosa e irresistível, não vêm esses do princípio. Vêm do fim do mundo.

O Livro na Arte (X)

[Um pessimista profissional, ou um analfabeto funcional, ou um «neo-liberal» ou outro que tal, afirmará, contemplando este Pierrot, a que supõe natureza subsidiária da leitura: no caso, só serviria para mergulhar a tristeza. Qualquer diversa criatura posta perante este óleo de Juan Gris, pintado na década de 1920, pensará coisa diferente e dará instintivamente ao quadro um título assim: o leitor cresce com o que lê. Também não estará mal uma conhecida citação de Herculano, senhor que terá aqui destaque nos próximos tempos, do número inaugural d'O Panorama que dirigiu: "cidadão de todas as repúblicas, membro de qualquer sociedade, contemporâneo de qualquer século, só o homem dado à leitura pode, com verdade, dizer que para ele foi o universo criado." Um homem a querer abarcar em recolhimento o universo inteiro, eis uma boa definição daquele que lê]

O Livro na Arte (IX)

Ao autor destas linhas (tem também o lume aceso, e põe agora mesmo mais uma acha na fogueira: 4º lá fora) sempre pareceu haver duas coisas que combinam particularmente bem com bons livros: o vinho tinto maduro e o fogo, lá está. Quanto à primeira combinação, já deve ter vindo nos genes paternais, e não haverá muito como a explicar a um abstémio ou a um iletrado. Quanto à segunda, dá pano para várias mangas. Desde logo, a de pensar na obsessão que os mais fanáticos dos não leitores - se lessem, passava-lhes depressa o fanatismo: remédio santo contra a guerra santa - sempre tiveram em queimar livros: é um clássico desde os inquisidores, com passagem pelos nazis, todos menos dados a ler do que apregoavam. Hipótese 1: quem não tem neurónios para queimar, e não escapa à pulsão pirómana do descendente de Neanderthal, opta pelos livros. Hipótese 2, nada incompatível mas de mais consequências: quem não lê, gosta de fazer arder os livros e mais quem os lê; quem não pensa, gosta de queimar quem pensa e o próprio pensamento (nota: ainda na chamada era digital, nada que simbolize o pensamento tão bem como um livro; não é só por não serem tão combustíveis, nem por serem consideravelmente mais caros, que ninguém queima e-books).

Alheia a todas estas e quaisquer outras considerações, a rapariga lê, e o fogão de sala, ao fundo, trabalha o tempo.
[Florence Fuller, que por 1900 pintou a óleo o quadro, chamou-lhe «Inseparáveis»]

O Livro na Arte (VIII)

É o 39.º dos Caprichos do genial Francisco Goya de Lucientes, e tem por legenda Hasta su abuelo (até ao seu avô/antepassado). Evidentemente, uma sátira às brenhas genealógicas, isto por alguém que tinha vários ramos aristocratas na família. Das três inscrições manuscritas conhecidas em três exemplares da gravura (que teve  esboços preliminares algo diversos) atribuídas ao próprio Goya, uma diz "A este pobre animal le volvieran loco los genealogistas y reyes de armas" (mimo); outra, só "A este pobre animal le han vuelto loco las genealogías"; e a terceira, brilhante e mesmo à época ousadíssima, "Los borricos preciados de nobles descienden de otros tales hasta el último abuelo". Nenhuma alma propriamente republicana, plebeia ou não, consegue deixar de se deliciar com isto.

Há variantes interpretativas, que porém não convencem. Uma, apenas poética, sugere quase como Camões transformar-se o leitor na cousa lida. Outra, de razão mais estática e inversa, que a cousa lida é que reflecte aquele que lê. Outra ainda, afim desta última, e com ela aliás lembrando um aforismo de Lichtenberg já aqui recenseado, garante, criteriosa, que por mais que leia não há volta a dar, continuará burro. Mas não parece esse o ponto.

O Livro na Arte (VII): Visão de S. Bernardo

Neste quadro de Fra Bartolomeo, composto, segundo se crê, entre 1504 e 1507, o fundador dos Templários tem um oitavo aberto para leitura e um quarto pousado, ao alto, no chão. Do mesmo formato deste último são os volumes que seguram o anjo (aberto) e o logicamente suposto São João Evangelista (fechado), parecendo, ambos, querer com eles chamar a atenção do homem - que, bem se vê, não está para leituras, e prefere a contemplação beatífica da Senhora e do Menino. É justo. Uma aparição - de qualquer género, sagrada ou profaníssima, como outras várias que ficaram também na lenda que atribui ao cisterciense preferência extrema pelas primeiras... - será das poucas coisas a justificar distracção, por momentos, de um livro.

O Livro na Arte (VI)

Não é de crer, se não há indicação do pintor em contrário, que Velázquez pretendesse algo mais do que isto: a aparente* desproporção de formas entre homem e livro, cujo efeito grotesco nos parecerá hoje  (mais de um século de modernismo e de figuração «deformadora», tendo esta até por cá  exemplo conhecido, Paula Rego)  relativamente banal, mas que não seria, à época, nada despiciendo.
 
Um habitual leitor, porém, talvez prefira achar que sim e descortine logo a sugestão de pequenez do ser que lê face à leitura em que o ego parece adormecer. Ou, já agora, a ideia da própria leitura enquanto embalo, tão cara a um escritor como Quignard. Paradoxo: a leitura, linguagem, ecoa naquele que lê apelo semelhante ao da vaga música que de longe, de fora, chega ao feto intra-uterino, infante (infans: o que não tem fala, i.e. linguagem) em formação. É dizer, aquele que lê, linguagem, responde sobretudo, notando-o ou não, ao fundo indistinto em que ela se forma. (Também ela, assim tudo, fantasma). Paradoxo eventual: aquele que escreve é em simultâneo o que embala e o que é embalado.
 
* [Don Diego de Acedo, el primo, era um anão. E o volume que segura, um volumoso in-folio. O quadro, óleo de finais de 1630, integra o acervo do Prado] 

O Livro na Arte (V) - Hieronymous Bosch e a «Pedra da Loucura»

Sobre este, embora menos do que em quase todos os outros quadros de Bosch, difícil dizer, ensaiar, o que quer que seja: haverá poucos pintores em toda a História da Arte tão desafiadores de qualquer interpretação digna do nome (ainda assim, ou por isso mesmo, ninguém deverá ter sido tão estudado pela psicanálise), a tal ponto delirante é nele o símbolo. De referir apenas que o motivo do livro na cabeça, significasse o que fosse, aparece várias vezes no trabalho do holandês (v.g. o principal Jardim das Delícias), só que aqui de efeito mais perturbador, e talvez, pelo contexto, também de compreensão mais arriscável: superstição, estupidez, crendice. 

É  o  dito  contexto a  «operação» fundamental - A Extracção da Pedra da Loucura - do quadro. Defende-se que  constituísse uma forma de trepanação algo habitual na Idade Média, assentando na suposição, tão evidentemente científica, de que a loucura do indivíduo se consubstanciaria numa pequena pedra estacionada ao alto da cabeça. A ser assim, melhor nem imaginar quantos «loucos» hão-de ter sido «cirurgicamente» salvos pela morte, essa universal «salvadora». Entre isto e os modernos hospitais psiquiátricos, bem capaz de ser preferível a segunda hipótese, apesar de tudo...

O Livro na Arte (IV) - Albrecht Dürer, «Os Quatro Santos»


É um dos mais conhecidos e reproduzidos, posto que nem de longe dos  mais directamente apelativos  trabalhos  compostos pelo pintor de Nuremberga - primeiro, estranha-se, só depois  se entranhando. Quadro-testamento, suposto  até o último por ele pintado, ter-lhe-á dedicado, se é verdade essa nota com que o encarece quando se propunha oferecê-lo  ao município da cidade, muito mais tempo do que a outro qualquer. «Os Quatro Santos» é título que aqui fica por bem mais razoável do que aquele que o tempo tratou de consagrar, «Os Quatro Apóstolos» (soa melhor, mas não vale, como nem será de Dürer).

Salva desde já opinião preferível, o que tanto impressiona no quadro não é a ascese formal (composição surpreendentemente elementar, em contra-mão da complexidade típica, por vezes, até excessiva -  dizia-o logo  Michelangelo -, do autor desse espantoso «Melencolia»), nem a pioneira, quase inédita, disposição vertical sobre-alongada dos painéis (isto, claro, para um olhar contemporâneo, que  terá  já  passado por tudo o  que veio depois, oitocentos inglês à cabeça; não assim até então), começada a ensaiar por ele noutros, também de santos e de Adão e Eva. O que logo faz pensar à própria medida que o vemos, e isto  cada vez mais,  é a tremenda verosimilhança  das  figuras, numa familiariedade perturbadora, como se estivessem prestes a aparecer representação exacta, não podendo ser senão essa, das personagens aludidas. Ia a escrever: como se as tivéssemos mesmo conhecido. Crentes, tresmalhados, pagãos e ateus, já para desfazer equívocos. Pequena ressalva: o discípulo favorito de Jesus,  com um ar demasiado germânico - o que aconteceu em grande parte das pinturas religiosas deste artista - e, convenhamos, pouquíssimo hebraico.

O Livro na Arte (III)


(Composto em 1893 pela finlandesa Anna Sahlstén, artista da era tida como dourada na pintura do seu país - assim a nórdica, em geral; e a europeia, mais em geral ainda -, penúltimo entresséculo, o trabalho é notável não só pela delicadeza da pose e do traço mas sobretudo pelo efeito da luz: trazer a um simples quadro, mais a mais, de interior, a luz  mesma escandinava. Da expressão da retratada só não se entende se em plena rêverie, por o livro ser tão bom, ou se divaga e olha através a janela insinuada para qualquer coisa que pouco mais interesse, por tão mau. Nem importa grandemente...) 

O Livro na Arte (II)

Natureza Morta com Livros
(óleo s/madeira, c.1628; Mauritshuis, Haia)







Johannes de Heem 

O Livro na Arte (I)

Composition surréaliste: l'Homme au livre
(óleo sobre tela, 1926; Petit Palais, Genève?)




Jean-Pierre Viollier