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A corrente idealístico-gnóstica do pensamento português contemporâneo: Antero, Pascoaes, Pessoa

estratégias criativas (Impresso em Agosto de 2010 na gráfica Rainho & Neves, Portugal). In-8º de 134, [i], [I] págs. Br.

“O presente estudo contém, ampliada, a comunicação feita pelo autor, ao Seminário sobre a problemática da Criação – “De Creatione”. Ciência, Filosofia e Teologia no século XX, em Portugal –, organizada pela Secção Portuguesa da Associação Europeia para a Teologia Católica, no Porto, em Maio de 2009”.

Exemplar com dedicatória de oferta manuscrita pelo autor (Ângelo Alves) “À «Crítica» - Revista de Filosofia”, datada de 6 de Novembro de 2010.

12€

Homenagem a Vasco da Gama

Homenagem a Vasco da Gama (edição comemorativa do V Centenário do descobrimento do caminho marítimo para a Índia: 1498-1998)


Lisboa, Assírio & Alvim/Fundação Oriente. 1998. In-4º gr. de 35, [7] págs. Enc.

Edição esmerada e de bom recorte gráfico, impressa em grande formato sobre papel de alta gramagem Munken Pure, com tiragem limitada a 1000 exemplares – de que pouco mais de metade deverão ter entrado directamente no mercado, destinados desde logo 300 à Fundação Oriente. Publicada também por ocasião da exposição lisboeta de 98, inclui uma nota introdutória do editor, Manuel Hermínio Monteiro, e os poemas dedicados ou meramente alusivos ao Gama de Mallarmé («Au seul souci de voyager») , Hölderlin («Wünscht' ich der Helden einer zu sein») e Pessoa («Ascensão de Vasco da Gama»), acrescidos os dois primeiros de comentários dos tradutores  respectivos, José Augusto Seabra e Maria Teresa Dias Furtado.
 
Encadernação editorial, com a sobrecapa ilustrada pelo retrato do navegador da colecção do Museu Nacional de Arte Antiga (também reproduzido no anterrosto). Salvo algum desgaste dessa sobrecapa, exemplar em muito bom estado, praticamente impecável e por estrear.

20€

Boavida Portugal — Inquérito Literário

Inquérito Literário (I. Depoimentos dos senhores: Dr. Julio de Matos – H. Lopes de Mendonça – Teixeira de Pascoais – Dr. Augusto de Castro – Gomes Leal – João Grave – Gonçalves Viana – Dr. F. Adolfo Coelho – Dr. Veiga Simões – Julio Brandão – Visc. de Vila Moura – Malheiro Dias – etc. II. Réplicas de outros escritores. III. Comentários da imprensa.

Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1915. In-8º de 368 págs. Br.

Primeira edição em volume, impressa em bom papel de linho, dada a lume três anos depois da publicação faseada no «República» e acrescentada de depoimentos posteriores e de uma resenha dos comentários e críticas antretanto saídos na imprensa. Reproduz a espécie de prefácio «Sinfonia de Abertura», do próprio Boavida Portugal, em que se começava por ler que “Apesar de nos jornais não ser muito habitual tratarem-se largamente assuntos literários, com muita fé, muita tolerancia e muito trabalho, podemos agora dar ao publico este repasto intelectual, que imaginamos da sua utilidade. Não que esses assuntos não sejam simpaticos; mas porque os intelectuais são pessoas mais de apreciar quando precisam dos jornais do que quando estes precisam dêles.”
Celebrizado, de início, pelas várias polémicas a que deu azo – desde as já pouco mansas entre saudosistas e detractores como Júlio de Matos e Adolfo Coelho, até à ferocíssima que estalou entre Júlio Brandão e Pascoaes (à deselegância insultuosa e aparentemente gratuita do primeiro respondeu o segundo com uma violência que lhe nunca tinha sido vista); todas aqui apresentadas através da transcrição das muitas cartas enviadas aos jornais e por eles publicadas –, o «Inquérito» viria mais tarde a ser destacado pela longa (neste volume com 13 páginas) réplica, também a Adolfo Coelho, de Fernando Pessoa (à época, ainda um obscuro colaborador da «Águia»), em que faz a defesa da «Renascença Portuguesa» e, de passagem, da sua auto-centrada teoria/profecia do Super-Camões, considerando Camões como “verdadeiramente grande, mas longe de ser um Dante ou um Shakespeare”.
Exemplar de uma plausível série não declarada encadernada pelo editor em percalina com gravações a dourado e a seco, incluindo o símbolo da sua casa na pasta superior (um pequeno selo do conhecido encadernador A. David, Lisboa, não desmente mas põe dúvidas a esta hipótese); não conservando a capa da série em brochura. Carimbo da brasileira Livraria Académica, em Manaus, na folha de guarda. Na de anterrosto, o sinete de Henrique Perdigão, fundador da portuense Livraria Latina que viria a publicar precisamente de Pascoaes precisamente O Penitente que em breve reeditaremos.

40€

Egyd Gstättner — Viagem ao Tejo com Pessoa na bagagem

Viagem ao Tejo com Pessoa na bagagem (Parte I da Trilogia Os Indolentes do Sul)

Granito, Editores e Livreiros. (2001). In-8º de 106, [VI] págs. Br.

Em carta ao tradutor português, que a isso talvez o tivesse instado, explicava o autor o subtítulo: “O título da trilogia é, aliás, uma citação original do nosso chefe do estado regional da Caríntia, Jörg Haider, proferida no contexto de um dos seus vulgaríssimos e ordinaríssimos discursos de campanha propagandística contra os estrangeiros (…) saiu-lhe assim uma expressão poética muito bonita, tanto mais se a colocarmos – como eu o faço – num contexto filosófico e se admirar – tal como eu – os indolentes do Sul”.
Quanto ao tradutor, salientava no prefácio este “olhar estrangeiro sobre a sociedade portuguesa contemporânea” e “uma Lisboa que se nos vai revelando, página após página, camada após camada, como um palimpsesto composto de múltiplos registos, de imagens, palavras e reflexões”.

Exemplar por estrear.

8€

Alfredo Antunes — Saudade e Profetismo em Fernando Pessoa

Saudade e Profetismo em Fernando Pessoa: Elementos para uma Antropologia Filosófica

Publicações da Faculdade de Filosofia / Braga, 1983. (Fotocomposto e Impresso nas Oficinas Gráficas da Editorial Franciscana / Montariol, Braga). In-8º gr. de 541, [I] págs. Br.

Primeiro parágrafo do «Prólogo»: "Sempre a saudade andou associada aos grandes períodos da reflexão crítica portuguesa. Logo no primeiro grande momento da nossa maturidade mental - o século XV da «Ínclita Geração» - vemos já o Rei-filósofo D. Duarte perplexo perante a estranheza deste sentimento."
Longo estudo publicado na colecção «Pensamento Filosófico» - inaugurada, e já que de saudade se fala, com o de Mário Garcia sobre Pascoaes.   

Exemplar por estrear; pequeno vinco no topo de capa e folhas preliminares. 

17€   

Fernando Pessoa — O Banqueiro Anarquista e outros contos de raciocínio

O Banqueiro Anarquista e outros contos de raciocínio, de (...) / (Antologia organizada e prefaciada por Fernando Luso Soares)

Editora Lux, 1964. In-8º peq. de 158, [II] págs. Br.

Publicada na colecção «Antológica», foi a primeira edição do conhecido e bastante genial texto do poeta originalmente saído na Contemporânea, aqui ainda acompanhada dos fragmentos inéditos das novelas mais ou menos policiais que ficaram por publicar «O Caso Vargas», «A Carta Mágica», «O Roubo da Quinta das Vinhas» e «A Janela Estreita».

Exemplar valorizado por dedicatória de oferta manuscrita pelo próprio organizador/prefaciador; mas algo desdourado, em contrapartida, pelo desgaste exterior. 

22€

Fernando Pessoa — O Banqueiro Anarquista

Edições Antígona / Lisboa, 1981. In-8º esguio de 67, [V] págs. Br.

Primeira edição na Antígona - mas nem por sombras a primeira edição do livro, como tantas vezes se lê -, apresentada por um texto preliminar anónimo, com alguma razão mas péssima prosa, a desancar o reaccionarismo que atribui a Fernando Pessoa.

12€

João Gaspar Simões — Vida e Obra de Fernando Pessoa

Vida e Obra de Fernando Pessoa: História duma geração / 4.ª edição novamente revista, acompanhada de um novo esclarecedor prefácio e de uma tábua bibliográfica actualizada

Livraria Bertrand / Apartado 37 – Amadora. In-8º de 739, [I] págs. Br.

Além de reproduzir os prefácios das anteriores (a primeira na década de 50 e as duas sucessivas na de 70), esta edição acrescenta um novo texto introdutório em que o autor explicava ter apenas reelaborado o capítulo relativo aos amores com Ofélia Queirós - tendo em conta a publicação das cartas na Ática pela mão de Mourão-Ferreira (que também temos). Ainda hoje de referência, apesar dos seus defeitos, o estudo divide-se nos dois livros «Infância e Adolescência» e «Maturidade e Morte».

Exemplar com algum desgaste da capa.

22€

Fernando Pessoa — Obra Poética e em Prosa

Obra Poética e em Prosa (Introduções, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa)

1986 / Lello & Irmão – Editores, Porto. 3 vols. in-8º de 1212; 1352; e 1502 págs. Enc.

Edição monumental, daquelas típicas da Lello em papel-bíblia (a.k.a. papel-da-índia), com encadernação em pele profusamente gravada a ouro na lombada e na pasta superior – complementando, por via da prosa, as que no mesmo género Maria Aliete Galhoz preparara para a brasileira Aguilar na década de 60. A introdução de António Quadros, «Introdução Cronológico-Biográfica», espécie de biografia (demasiado psicologizante mas rica de apontamentos com interesse) do poeta, é extensíssima, espraiando-se pela primeira centena de páginas; seguindo-se a da escritora portuense, «Uma Demanda», com três dezenas. O resto do primeiro volume foi ocupado pela antologia poética, sendo o segundo e o terceiro dedicados à prosaica: «Páginas Íntimas», «Cartas», «Ficção», «Textos de Intervenção na Vida Cultural e Literária Portuguesa» (vol.II); «Estética, Teoria e História da Literatura», «Páginas de Reflexão Filosófica», «A Realidade Transcendente», «Sobre Portugal e o homem português», «Pensamento Político (Páginas Polémicas e Doutrinárias)», «Teoria Económica», «Poemas Traduzidos do Inglês», «Biobibliografia», «Apêndice» (vol.III).

Bom conjunto, globalmente por estrear, apesar de ligeiros vestígios de manuseio no início do vol.I.


75€

Fernando Pessoa — Obra Poética

Círculo de Leitores (1986). 3 vols. in-4º. Enc.

Encadernados pelo editor com gravações a dourado, impressos sobre bom papel canelado e ilustrados por Ilda David e Manuel Rosa, com organização e prefácio, cronologia e bibliografia de João Gaspar Simões no primeiro, os volumes recolhem respectivamente: Mensagem, À Memória do Presidente-Rei Sidónio Pais, Quinto Império e Cancioneiro; Poemas de Alberto Caeiro, Odes de Ricardo Reis, Poesias de Álvaro de Campos e Para Além Doutro Oceano de Coelho Pacheco; Poemas Dramáticos (O Marinheiro / Primeiro Fausto), Poesias Inéditas, Novas Poesias Inéditas, Poemas Ingleses, Poemas Franceses, Poemas Traduzidos e Quadras ao Gosto Popular.


40€

Cartas de Amor de Ofélia a Fernando Pessoa

Cartas de Amor de Ofélia a Fernando Pessoa (organização de Manuela Nogueira / Maria da Conceição Azevedo)

Assírio & Alvim (1996). In-8º gr. de 334, [2] págs. Br. 

Textos introdutórios da sobrinha do poeta e da académica, aquela explicando que apenas ultrapassou os pruridos em publicar estas cartas pela insistência da segunda; pruridos que dizia herdados da mãe (irmã de Fernando Pessoa), que desde sempre se opusera à publicação e já não terá achado graça nenhuma à edição das inversas cartas do fingidor à pobre «namorada», pela Ática, em 1978. 16 anos passados sai este volume igualmente fundamental para qualquer pessoana, bastante ilustrado num conjunto de folhas destacadas com fotografias de ambos (algumas aparentemente inéditas) e de cartas e castiços postais e bilhetes postais usados, incluindo o repetido que serviu para a capa do livro. “Ao ler estas cartas ingénuas, patéticas, apaixonadas e um pouco obsessivas sentimos os meandros dolorosos das disparidades humanas”, assim bem resumia Manuela Nogueira, porventura com alguma deselegância, a coisa; indicando depois que estas mesmo assim três centenas de páginas correspondem apenas a uma selecção dentre um total de “230 cartas, 46 postais, vários pequenos bilhetes e 2 telegramas”. 

Edição original, entretanto reeditada no ano passado. 

Exemplar muito bem conservado, talvez por estrear; com o selo da livraria cooperativa portuense Unicepe. 

 23€

Cartas de amor de Fernando Pessoa

Cartas de amor de Fernando Pessoa (Organização, prefácio e notas de David Mourão-Ferreira / Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz)

Edições Ática, Lisboa. (1978). In-8º de 222, [6] págs. Br.

São bastante extensos os textos da própria destinatária Ofélia Queirós e sobretudo o de David Mourão-Ferreira que, respectivamente, abrem e encerram o volume: «O Fernando e Eu» (estruturado pela sobrinha-neta Maria da Graça) e «Estas «Cartas de Amor» de Fernando Pessoa»; um e outro já não reproduzidos na edição posterior dada a lume pela Assírio & Alvim que também apresentamos.

16€

António Quadros — Fernando Pessoa: Vida, Personalidade e Génio

Fernando Pessoa: a obra e o homem / Nova versão // I Volume: Vida, Personalidade e Génio

arcádia (1981). In-8º de 316, [IV] págs. Br.

Volume publicado na conhecida colecção de biografias da Arcádia, embora neste caso menos biográfico e mais exegético, como seria de esperar tratando-se do esotérico-compulsivo Quadros – que após uma «Introdução cronológica à vida e à obra» dividiu o seu estudo principal, «Personalidade, génio e destino», em nove secções de capítulos, uma delas «O Poeta visto pelos seus contemporâneos (Um retrato-robot), entre os quais Almada, Ofélia e Carlos Queirós, Pierre Hourcade, etc.). Como de costume, há um conjunto de folhas centrais ilustradas, impressas sobre papel couché.

Em complemento a este primeiro volume, independente por si só, sairia depois um ainda mais exegético Iniciação Global à Obra ; salvo erro, um caso único na série.

14€

Fernando Pessoa — Odes de Ricardo Reis

Lisboa: Editorial Ática, 1946. In-8º de 170, [3] págs. Br.

Primeira edição, impressa em bom papel e incluindo no final uma lista das variantes apostas por Pessoa nos manuscritos, até então inéditos.

Exemplar ainda em muito bom estado, salvo pontuais e pouco pronunciados vestígios de acidez.

30€


António Botto — O Livro das Crianças

O Livro das Crianças (Com uma carta de Fernando Pessoa) / Proémio de Carlos Camposa | Ilustrações de Margarida Neto

Solivros de Portugal. [1988?]. In-4º/in-4º gr. de 113, [1] págs. Enc.

«Nova edição de Homenagem ao Poeta António Botto», enriquecida pelas boas ilustrações a pena, impressa sobre papel encorpado com a capa cartonada.

Exemplar em bom estado.
 
15€

Poetas Novos de Portugal (selecção e prefácio de Cecília Meireles)

Edições Dois Mundos Editora Ltda. Rio de Janeiro. (1944). In-8º de 315, [5] págs. Enc.

Do longo – estende-se por quase cinquenta páginas – texto introdutório da escritora brasileira, como de costume, nestas circunstâncias, proclamador de intenções e explicador de critérios, poder-se-ia, entre outras coisas, reportar: a indicação habitual de Cesário, Nobre e Antero como as raízes desta «nova» poesia portuguesa, atribuindo-lhes depois como «caules» Pessanha e, até certo ponto, Afonso Duarte, o que hoje parecerá quase uma extravagância (salvo o caso de alguns nomes do Novo Cancioneiro, Carlos de Oliveira – que aqui nem aparece –, confessado tributário do poeta da Ereira, à cabeça), para não dizer um contra-senso, mesmo cronológico (Sá-Carneiro, por exemplo, era mais velho, pelo que ainda aí não se entende que influência haveria o Orpheu de lhe ir beber...); a inclusão, aliás com algum destaque, de Irene Lisboa (João Falco) e Fernanda de Castro neste contexto, talvez explicável por simpatia feminina, ou nem isso (se por aí fôssemos, antes a lamurienta Florbela); a colação larguíssima de um Fernando Pessoa então quase inédito, mas já credor do maior – de longe – destaque e assinalado “o caso mais extraordinário das letras portuguesas”, o que as amizades portuguesas de Cecília explicariam; e a atribuição à Presença de mais méritos dos que comummente, e com bom juízo, por estes dias se lhe reconhecerá. Cronologia, gostos, tendências, compadrios e presumível «mão» lusa (de Casais Monteiro, de Cortes-Rodrigues, ou ambas; não a de Cortesão, director desta «Coleção Clássicos e Contemporâneos» e também a viver no Brasil, que decerto ditaria outras escolhas) a esmo: tudo certamente cheio de boas intenções, mas demasiado confuso, atabalhoado, desequilibrado e falho de critério.
São os principais representados Pessanha, Sá-Carneiro, Pessoa, João Falco, Régio, Nemésio, Botto, Alberto de Serpa, Carlos Queirós, Casais Monteiro, Saul Dias e J. J. Cochofel.

Primeira edição; rara em Portugal (e mesmo no Brasil pouco frequente). Este exemplar, da série encadernada pelo editor, pertenceu também a Laureano Barros, que nos típicos apontamentos a lápis sobre a guarda indicou isso mesmo - a série e a raridade. A encadernação apresenta-se porém um tanto manchada e escurecida junto às margens.
 
35€

"Il faut être absolument moderne"

No ano em que se comemoraram 150 do nascimento de Raul Brandão, muito se falou da sua literatura como um modernismo alternativo ao canónico que cá teve epicentro em Lisboa - e que fatalmente ficaria na sombra devido a Fernando Pessoa. Este ponto de vista é curioso pelo que tem de curioso no que está certo, no que está errado e no assim-assim.

Primeiro, note-se que esta «sombra» é a do grande público e da Academia (mas já não da crítica). Porque, de resto, até se pode traçar um evidente paralelo entre a influência mais ou menos assumida que estes dois senhores exerceram respectivamente sobre a prosa e a poesia portuguesas ao longo do século passado.
Se não houve quase nenhum dos nossos grandes poetas que lhe foram posteriores a negar o estro de Pessoa, também não houve um só dos principais prosadores que não afirmasse de forma explícita a dívida a Brandão - Aquilino (que com ele fundou a Seara Nova e lhe terá facilitado a edição na Bertrand frequentada por ambos), Ferreira de Castro, Torga (veja-se o que Os Bichos herdam do Portugal Pequenino...), Vergílio Ferreira e Saramago, já para nem falar nos devotos Nemésio, Gomes Ferreira e Cardoso Pires, nem em senhoras como Agustina (que apesar de tudo deve ainda mais a Camilo e a Pascoaes, de quem parece um sobre-valorizado sub-produto) e a tão outra e inclassificável Gabriela Llansol, segunda grande aventura nas bordas da prosa portuguesa desde... Raul Brandão, pois. Ninguém, ninguém escapa.
E nisso, goste-se mais ou menos, não há discussão: Pessoa (não gosto muito) e Brandão (gosto de um modo imenso) são incomparavelmente os dois nomes de maior influência na literatura portuguesa do séc.XX e ainda talvez no que se leva até agora do XXI, apesar do Super-Herberto e de Saramago.


Segundo, este par serve de exemplo para demonstrar que, mais do que a Academia, o que mormente concorre para firmar o canône e estabelecer a fortuna da opera é apenas o investimento, desde o estadual (público) ao privado (editorial etc.). Sabe-se, embora pouco se fale, como Pessoa deve a fama ao «lobbying» que começou com António Ferro, em pleno Estado Novo, e continuou e continua com milhões de contos e euros - desde logo do erário público - após o 25 de Abril; promoção no Brasil cedo apoiada desde Casais Monteiro e Cecília Meireles. Isto quando o poeta era pouco mais do que desconhecido e Pascoaes, por exemplo, traduzido em várias línguas no estrangeiro e lá apontado para o Nobel - mas cá proscrito pelo Estado Novo e pela ortodoxia católica e vigiado pela PIDE por outras razões.
Claro: Pessoa vingou porque, além do mérito versejador, se presta ao gosto quase sempre fácil, popular, às vezes quase kitsch, parecendo nesse domínio imbatível e universal. Vingou principalmente onde não é moderno. Mas se também parece difícil pôr o leitor comum a mergulhar maravilhado no Húmus, parece facílimo pô-lo a gostar do nada moderno mas espantoso lado «solar» brandoniano, sobretudo esse tríptico extraordinário formado por Os Pescadores, As Ilhas Desconhecidas e Portugal Pequenino. Basta que os leia.


Terceiro, e quanto ao modernismo: "a angústia da influência". Fernando Pessoa, que de tudo lia e de tudo falava, nunca se referiu a Raul Brandão. Como não parece possível que o não lesse, tratando-se de alguém que publicava na Renascença e na Bertrand, fácil será perceber-lhe o silêncio. O Húmus é o livro mais influente de toda a prosa portuguesa do séc.XX - e, conforme já muita gente notou (por exemplo: os pessoanos Prado Coelho), influenciou desde logo o Livro do Desassossego.
Se na poesia, de um pré-moderno Cesário a um finissecular Pessanha, as influências de Pessoa são óbvias e assumidas, na prosa não. O que não significa que não estejam lá. Sobretudo neste caso, pode e deve falar-se de algo mais do que simples «influência»...
Mais: o Livro do Desassossego é escrito já bastante depois de Os Cadernos de Malte Laurids Brigge e pouco antes (na melhor das hipóteses) de As Ondas. O Humus sai pouco depois do primeiro e muito antes do segundo. Sublinhe-se este ponto, imaginando como seria se a Europa e o Mundo também o conhecessem...
 
       

Eduardo Lourenço — Fernando Pessoa Revisitado

Fernando Pessoa Revisitado: leitura estruturante do drama em gente

Moraes editores (1981). In-4º peq. de 196, [4] págs. Br.

Segunda edição (a original saíra na Inova), com capa de Vitorino Martins a partir de um trabalho do pintor Costa Pinheiro. Capítulos: «Considerações pouco ou nada intempestivas», «A curiosa singularidade de «Mestre Caeiro», «Ricardo Reis ou o inacessível paganismo», «O Mistério-Caeiro na luz de Campos e vice-versa», «Álvaro de Campos I ou as audácias fictícias de Eros», «Dois interlúdios sem muita ficção», «Álvaro de Campos II ou a agonia eróstrato-Pessoa», «A existência mítica ou a porta aberta». 

12€

Fernando Pessoa — Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação

Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho)

Edições Ática, Lisboa. [S/d – 1966?]. In-8º de XL, 445, [VII] págs. Br.

Cada um dos dois organizadores apresenta um texto introdutório: «O relativismo criador de Fernando Pessoa» o do professor alemão e «Fernando Pessoa, pensador múltiplo» o do português, que assim começava – “Este livro de inéditos (quase todos desencantados pelo Dr. Georg Rudolf Lind na arca inexaurível) vai deliciar os apreciadores de Fernando Pessoa. Compõem-no documentos, uns escritos pelo autor para si próprio, para sua autognose, outros em função de projectos literários que não viriam a realizar-se ou que se apresentariam depois sob outra forma. De qualquer modo, documentos reveladores da sua intimidade, do que pensava de si próprio, de como se geravam no seu espírito, por vezes obsessivamente, motivos poéticos, ideias, ensaios. E textos que, não raro, patenteiam a grandeza e o sentido das suas ambições culturais, a par da espantosa argúcia da sua inteligência crítica”.
O volume integra seis extratextos, quase todos de horóscopos feitos pelo lisboeta.
Primeira edição.
  
24€

Fernando Pessoa — Obra Poética e em Prosa

Obra Poética e em Prosa (Introduções, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa)
1986 / Lello & Irmão – Editores, Porto. 3 vols. in-8º de 1212; 1352; e 1502 págs. Enc.

Edição monumental, daquelas típicas da Lello em papel-bíblia (a.k.a. papel-da-índia), com encadernação em pele profusamente gravada a ouro na lombada e na pasta superior – complementando, por via da prosa, as que no mesmo género Maria Aliete Galhoz preparara para a brasileira Aguilar na década de 60. A introdução de António Quadros, «Introdução Cronológico-Biográfica», uma espécie de biografia (demasiado psicologizante mas rica de apontamentos com interesse) do poeta, é extensíssima, espraiando-se pela primeira centena de páginas; seguindo-se a da escritora portuense, «Uma Demanda», com três dezenas. O resto do primeiro volume foi ocupado pela antologia poética, sendo o segundo e o terceiro dedicados à prosaica: «Páginas Íntimas», «Cartas», «Ficção», «Textos de Intervenção na Vida Cultural e Literária Portuguesa» (vol.II); «Estética, Teoria e História da Literatura», «Páginas de Reflexão Filosófica», «A Realidade Transcendente», «Sobre Portugal e o homem português», «Pensamento Político (Páginas Polémicas e Doutrinárias)», «Teoria Económica», «Poemas Traduzidos do Inglês», «Biobibliografia», «Apêndice» (vol.III). 

Bom conjunto, globalmente por estrear, apesar de ligeiros vestígios de manuseio no início do vol.I.     
 
75€