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Raul Brandão — Cartas a Maria Angelina

(Edição: Sociedade Martins Sarmento. Impressão: Diário do Minho. 2019). In-8º de 191, [1] págs. Br.

Preparado por Maria João Reynaud e Célia Oliveira, o volume recolhe as missivas do escritor à então namorada acabada de conhecer em Guimarães – cujos herdeiros lhe legaram o espólio à Sociedade Martins Sarmento. 
Literariamente de menor interesse em relação ao corpus principal do genial portuense e vimaranense adoptivo (são o que são, são cartas de namoro...), nem por isso deixa esta de se constituir peça importante em qualquer colecção brandoniana.

Tiragem limitada a 250 exemplares, dos quais nos vão chegar agora os últimos cinco - não estando prevista, pelo menos por enquanto, a reedição.

16€ (P.V.P.)

Raul Brandão, por Aquilino

Estou a vê-lo a subir o Chiado a passos lentos, dobrado e ficando ainda um homem alto, os olhos a azulejar em torno, um bom sorriso nos lábios, pronto a dar-se. Ia reunir-se à sua roda, na Livraria Bertrand ou no Café. Raul Brandão prezava o convívio dos amigos, por quem gostava de ser acarinhado, mas não provocava a blandícia. Com uma bonomia de velho capitão de porto, gozando os ócios e a reforma, sentava-se na Brasileira, geralmente ao fundo se havia lugar. O seu cristianismo era uma espécie de cancela franca, por onde passava cordialmente gente de toda a moral e condição, o rapaz de valor e o patarata, o patife e o honesto,o grego e o troiano. No âmago da consciência diferenciava como ninguém, e ia registando.
À sua mesa quem pagava era invariavelmente ele, como se fosse não uma devoção, mas uma prerrogativa. Era o troco em miúdos à admiração e vénia que lhe tributavam. Não figurava também de senhor da Nespereira?
De modo geral prestava orelha deferente a cortesãos e estafadores. Era homem que sabia ouvir. Quando intervinha, fazia-o com pausa, entrecortadamente. Dir-se-ia que andava longe. Talvez andasse, sim, pelos cemitérios, pela noite escura a arrebanhar fantasmas que haviam de representar no seu guinhol, prodigiosamente evocador. (...)
 
Não era rancoroso, e eu permitia-me nos meus verdores ser impertinente com ele. Por vezes, e era injustiça, punha-lhe na cabeça o carapuço do seu próprio Gabiru. Ele ria, tolerantíssimo, duma tolerância filosófica sem despeitos nem reservas. Era integralmente um santo homem, convencido da fatuidade do bem e do mal, de quanto o esforço humano é vão, e de que tudo à superfície da terra, a começar pela ciência e a arte, é uma espuma falaz. No entanto, a sua posição, sob o ponto de vista de cidadania, era a de combatente duma barricada. Desde que o conheci, e foi durante uma década de anos, não dei conta que se arredasse do parapeito. Batia-se pelos desgraçados, pelos humildes, pelos tristes, pelos que tinham fome e sede de sol, de simpatia ou de pão, simbolizados na mulher da esfrega, na Candidinha malfadada; batia-se e sofria pelos próprios maus, vítimas de uma sociedade iníqua e duma nefasta sina sem remissão. A sua gesta, no livro, na palestra, era a dum revoltado.
A obra de Raul Brandão é altivamente eloquente no que tem de social, por conseguinte de humano. A dor foi sempre o centro planetário da sua arte. Mas não a dor metafísica, pela qual se é fácil cavaleiro, mas a dor individuada, que nos torna solidários e responsáveis com o próximo. A par com esta feição toda evangélica, em literatura era um artista do impressionismo.
Os Pescadores e Portugal Pequenino são duas obras, irroradas de todas as tintas da Primavera e da candura da neve, do melhor que pode ostentar a língua.



[«Camões, Camilo, Eça e Alguns Mais». Percebe-se bem esta de "artista do impressionismo" se Aquilino nunca tiver passado os olhos pelo Humus...]

"Il faut être absolument moderne"

No ano em que se comemoraram 150 do nascimento de Raul Brandão, muito se falou da sua literatura como um modernismo alternativo ao canónico que cá teve epicentro em Lisboa - e que fatalmente ficaria na sombra devido a Fernando Pessoa. Este ponto de vista é curioso pelo que tem de curioso no que está certo, no que está errado e no assim-assim.

Primeiro, note-se que esta «sombra» é a do grande público e da Academia (mas já não da crítica). Porque, de resto, até se pode traçar um evidente paralelo entre a influência mais ou menos assumida que estes dois senhores exerceram respectivamente sobre a prosa e a poesia portuguesas ao longo do século passado.
Se não houve quase nenhum dos nossos grandes poetas que lhe foram posteriores a negar o estro de Pessoa, também não houve um só dos principais prosadores que não afirmasse de forma explícita a dívida a Brandão - Aquilino (que com ele fundou a Seara Nova e lhe terá facilitado a edição na Bertrand frequentada por ambos), Ferreira de Castro, Torga (veja-se o que Os Bichos herdam do Portugal Pequenino...), Vergílio Ferreira e Saramago, já para nem falar nos devotos Nemésio, Gomes Ferreira e Cardoso Pires, nem em senhoras como Agustina (que apesar de tudo deve ainda mais a Camilo e a Pascoaes, de quem parece um sobre-valorizado sub-produto) e a tão outra e inclassificável Gabriela Llansol, segunda grande aventura nas bordas da prosa portuguesa desde... Raul Brandão, pois. Ninguém, ninguém escapa.
E nisso, goste-se mais ou menos, não há discussão: Pessoa (não gosto muito) e Brandão (gosto de um modo imenso) são incomparavelmente os dois nomes de maior influência na literatura portuguesa do séc.XX e ainda talvez no que se leva até agora do XXI, apesar do Super-Herberto e de Saramago.


Segundo, este par serve de exemplo para demonstrar que, mais do que a Academia, o que mormente concorre para firmar o canône e estabelecer a fortuna da opera é apenas o investimento, desde o estadual (público) ao privado (editorial etc.). Sabe-se, embora pouco se fale, como Pessoa deve a fama ao «lobbying» que começou com António Ferro, em pleno Estado Novo, e continuou e continua com milhões de contos e euros - desde logo do erário público - após o 25 de Abril; promoção no Brasil cedo apoiada desde Casais Monteiro e Cecília Meireles. Isto quando o poeta era pouco mais do que desconhecido e Pascoaes, por exemplo, traduzido em várias línguas no estrangeiro e lá apontado para o Nobel - mas cá proscrito pelo Estado Novo e pela ortodoxia católica e vigiado pela PIDE por outras razões.
Claro: Pessoa vingou porque, além do mérito versejador, se presta ao gosto quase sempre fácil, popular, às vezes quase kitsch, parecendo nesse domínio imbatível e universal. Vingou principalmente onde não é moderno. Mas se também parece difícil pôr o leitor comum a mergulhar maravilhado no Húmus, parece facílimo pô-lo a gostar do nada moderno mas espantoso lado «solar» brandoniano, sobretudo esse tríptico extraordinário formado por Os Pescadores, As Ilhas Desconhecidas e Portugal Pequenino. Basta que os leia.


Terceiro, e quanto ao modernismo: "a angústia da influência". Fernando Pessoa, que de tudo lia e de tudo falava, nunca se referiu a Raul Brandão. Como não parece possível que o não lesse, tratando-se de alguém que publicava na Renascença e na Bertrand, fácil será perceber-lhe o silêncio. O Húmus é o livro mais influente de toda a prosa portuguesa do séc.XX - e, conforme já muita gente notou (por exemplo: os pessoanos Prado Coelho), influenciou desde logo o Livro do Desassossego.
Se na poesia, de um pré-moderno Cesário a um finissecular Pessanha, as influências de Pessoa são óbvias e assumidas, na prosa não. O que não significa que não estejam lá. Sobretudo neste caso, pode e deve falar-se de algo mais do que simples «influência»...
Mais: o Livro do Desassossego é escrito já bastante depois de Os Cadernos de Malte Laurids Brigge e pouco antes (na melhor das hipóteses) de As Ondas. O Humus sai pouco depois do primeiro e muito antes do segundo. Sublinhe-se este ponto, imaginando como seria se a Europa e o Mundo também o conhecessem...
 
       

Natal

Natal.
 
Está um dia fosco de neblina incerta e tristeza. Para lá as árvores despidas não bolem. A vida parou. As nuvens andam a esta hora a rastro pelas encostas pedregosas dos montes. Não se ouve um grito. Tudo na natureza se concentra e sonha. Há no entanto um grande rio envolto que nunca cessa de correr…
Longe pelos caminhos, através de pinheirais cismáticos e calados, vão velhinhas tristes, de saia pelos ombros, para consoar nessa noite com os filhos. Andam trôpegas léguas e léguas. As suas mãos calosas, as caras enrugadas, onde as lágrimas abriram sulcos, os olhos tristes, contam o que elas têm passado na vida, dias sem pão, suor de aflições, desamparos, maus tratos…
 
Os cavadores deixaram os arados mortos nos campos, que a chuva alaga. Que tudo repouse. O vinho de hoje conforta, como as lágrimas choradas pelas nossas desgraças, o lume de hoje aquece como o amor de nossas mães.
Nos soutos, sob a chuva que cai mansa e continua, andam pobres que não têm lenha, a arrancar uma raiz esquecida, para se aquecerem. Deus os tenha na sua mão de pai. Partem, chegam, vêm muito longe, para verem os seus meninos, matando saudades. Quase não comem e sustentam filhos, sustentam netos. Os velhos, que tem atrás de si uma vida de martírio e fomes, dizem:
– É hoje o maior dia do ano…



[Raul Brandão, Natal dos Pobres]

Raul Brandão — Os Pescadores

Livrarias Aillaud e Bertrand, 1924. In-8º de 326 págs. Br.
 
Um dos livros principais do escritor portuense, com capítulos dedicados a vários pontos da nossa costa marítima, de Norte (sobretudo) a Sul, e aos hábitos, costumes e tipos das respectivas comunidades de pescadores – de que constitui o mais belo monumento literário conhecido.
Terceira de várias edições saídas num mesmo ano, prova de leitura inusual para um livro português desse tempo.
 
Exemplar em brochura, bem conservado, apesar de algumas marcas (uma delas de perfuração) na capa.
 
15€

Raul Brandão ― Memórias I

Memórias (1.º Volume) (2.ª edição – 2º milhar)

Edição da «Renascença Portuguesa», Pôrto. (1919). In-8º de 332, [4] págs. Br.
 
O exemplar pertenceu a Abel Brandão, de quem tem repetida a assinatura no anterrosto e no rosto.
 
15€

Raul Brandão ― Memórias II

Memórias (Volume II / 1.ª edição)

Livrarias Aillaud & Bertrand / Paris-Lisboa. (MCMXXV). In-8º de 296, [2] págs. Br.
 
Exemplar com ligeiros rasgões e falhas de papel na capa; de resto, sem qualquer defeito significativo a assinalar.
Pertenceu também a Abel Brandão, de quem ostenta a assinatura, como de costume, ao alto da folha de rosto.
 
17€

Raul Brandão ― Vale de Josafat (III Volume de Memórias)

Seara Nova, 1933. In-8º de 286, [2] págs. Br.

Terceiro e último volume das Memorias, este de publicação já póstuma, e geralmente apontado como o melhor dos três; mesmo que Raul Brandão não tenha chegado a retocá-lo.

Exemplar francamente bom, salvo ligeiro desgaste da capa e um discreto carimbo de assinatura na folha de guarda.
 
28€

Vida Devota (V)

Valeu-me a pena viver? Fui feliz, fui feliz no meu canto, longe da papelada ignóbil. Muitas vezes desejei, confesso-o, a agitação dos traficantes e os seus automóveis, dos políticos e a sua balbúrdia - mas logo me refugiava no meu buraco a sonhar. Agora vou morrer - e eles vão morrer.
 A diferença é que eles levam um caixão mais rico, mas eu talvez me aproxime mais de Deus. O que invejei - o que invejo profundamente são os que podem ainda trabalhar por muitos anos; são os que começam agora uma longa obra e têm diante de si muito tempo para a concluir. Invejo os que se deitam cismando nos seus livros e se levantam pensando com obstinação nos seus livros.


[Raul Brandão, Memorias - Vale de Josafat]

Gomes Leal — A Senhora Duquesa de Brabante

Plaquette comemorativa da inauguração do mausoléu do poeta Gomes Leal / XVII de Dezembro de MCMXXV. (Tipografia Torres – Lisboa). In-8º gr. de 19, [1] págs. Br.

“Desta edição, que se destina a socorrer a publicação da Antologia de Gomes Leal, fez-se uma tiragem de mil exemplares, dos quais o presente é o N.º 176, rubricados pela Comissão Organizadora do mausoléu” – mais precisamente, pelo seu impulsionador, Humberto Pelágio, que também manuscreveu esse número atribuído ao exemplar. O volume começa por uma nota de apresentação («Algumas Palavras») do próprio Pelágio, transcreve depois uma longa passagem das Memórias de Raul Brandão relativas ao poeta e, por fim, este conhecido excerto d’As Claridades do Sul, que mesmo antes conhecera já edição independente.
 
O exemplar, em bom estado (salvo uma pequena mancha na capa), conserva ainda os cadernos por abrir; ostentando na folha inicial de anterrosto o carimbo da lisboeta Livraria Profissional (Rua Anchieta, 5 a 7).
 
15€

História do Futuro (VII)

Isto está hoje nas mãos de meia dúzia de cavalheiros, que dispõem das livrarias e dos jornais. Quem não estiver com eles é esmagado. E cada vez será pior...
 
(Raul Brandão, em carta a Pascoaes)

Raul Brandão ― Memórias (1.º Volume)

Edição da «Renascença Portuguesa», Porto. (1919). In-8º de 326, [2] págs. Enc.

Edição original do primeiro volume de um conjunto que é documento fundamental do penúltimo entresséculo e do primeiro quartel do séc.XX, talvez, em panorama, o melhor para a compreensão dos tempos finais da monarquia e do advento da República.

Exemplar coberto de encadernação modesta que não conserva, de resto, a capa de brochura; e maculado por assinatura de propriedade no rosto.
 
22€

Raul Brandão ― Memórias (Volume II / 2.ª edição)

Livrarias Aillaud & Bertrand / Paris-Lisboa. (MCMXXV). In-8º de 296, [2] págs. Enc.

Este segundo volume foi dedicado ao já então maior amigo Pascoaes e conta com os capítulos «O Silêncio e o Lume» (para a mulher Maria Angelina, tremendo de belo), «O meu Diário», «Ainda o Regicídio», «Vivos e Mortos» e «Os Ultimos Anos de Junqueiro».

Exemplar revestido da mesma encadernação, também sem a capa primitiva.
 
14€
 
 

Amplas almas

Suponho que ninguém se atreva a discutir a Angelina e Raul Brandão o estatuto de mais enternecedor casal de toda a literatura portuguesa.
Conheceram-se por 1896, em Guimarães, onde o portuense começava a breve carreira militar de que muito cedo se reformaria. Casaram. E a partir daí, segundo consta, nunca mais se largaram um ao outro. Narra a irmã de Pascoaes que, visitando este com ela pela primeira vez a Casa do Alto, convidou à saída Brandão (como já várias vezes fizera por carta) para a retribuição da visita, acompanhando-o ao Marão. Esqueceu-se de estender o convite a Maria Angelina. Ela e o homem entreolhavam-se, olhavam para Pascoaes, tornavam a olhar um para o outro, e andou-se nisto algum tempo - até Maria da Glória perceber e chamar a atenção do irmão. Brandão explode: "Apre... Do que me livrou... É que eu nunca me separei de minha mulher!" Chegando, aliás, a levá-la para «A Brasileira do Chiado» lisboeta, numa época em que senhoras num café roçava o escândalo.
Por menos simpatizante que se seja do instituto do casamento, ninguém pode deixar de se deliciar com este.

Além da carta aqui transcrita há dias, é também de Maio de 1930 a publicação do livro que assinaram em conjunto, último saído em vida do escritor: esse igualmente delicioso Portugal Pequenino (aqui). Evidentemente, foi Raul a escrevê-lo. Mas nota-se aqui e ali a mão da mulher, entremeando na prosa alguma graça de humor e jovialidade apropriadas a um livro do género, só que de todo estranha ao espírito do marido. Quem nunca leu, mexa-se.

Voltando aos fulgurantes prefácios das Memórias, segue agora o final do segundo, «O Silêncio e o Lume» - longo texto que é das mais belas declarações de amor alguma vez feitas por um homem a uma mulher. Normalmente, fazem-se no início. Esta, foi feita no fim, os dois já de cabelos brancos, apesar da diferença de idade. "Enternecedor" é capaz de ser pouco.

[Não deixaram descendência. Esgotaram-se um no outro.
Um Coração e uma Vontade seria o título do livro de memórias de Angelina já viúva.] 

Raul Brandão ― Humus

Edição da «Renascença Portuguesa», Porto. (1917). In-8º de 334, [2] págs. Enc.

Primeira edição do livro magno do autor, por muita (e boa) gente considerado também a peça magna da prosa portuguesa de todo o séc.XX – cujo magno poeta, Herberto Helder, a viria a transladar a verso na década de 60.

Exemplar revestido de encadernação modesta e sem conservar a capa de brochura. Pertenceu ao tenente Leopoldo Carmona (oficial do Corpo Expedicionário Português à Flandres durante a Grande Guerra), de quem tem o carimbo, a assinatura a tinta e sublinhados a lápis de cor.
 
50€

Raul Brandão ― Humus

Editores: Renascença Portuguesa – Porto / Annuario do Brasil – Rio de Janeiro. (1921). In-8º de 236, [4] págs. Enc.

Segunda edição, impressa no Brasil e, como se sabe, com alterações significativas: desde logo, a pura e simples supressão do bastante significativo capítulo final «Vêm ahi os desgraçados», porventura com algumas raízes mais ou menos conscientes no conturbadíssimo contexto político da época.

Exemplar revestido de muito boa encadernação com cantos e lombada em pele gravada a ouro e as pastas em efeito tábua. Conserva por inteiro a capa primitiva, que nesta série para a Renascença (menos frequente do que a do Anuário do Brasil, de capa lisa) foi ilustrada na frente por José Tagarro. 
 
(40€)    

Raul Brandão ― A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore


A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore de Raul Brandão / (Ilustrações de Martinho da Fonseca)

Edição da «Seara Nova» (Praça Luís de Camões, 46, 2.º) – Lisboa. MCMXXVI. In-8º de 287, [5] págs. Enc.
 
Primeira edição deste livro que respiga o anterior História de um Palhaço. Com os capítulos: «K. Maurício», «A casa de hóspedes», «Halwain», «Camélia», «Sonho e realidade», «A última farsa», «Diário de K. Maurício», «Os seus papeis», «A luz não se extingue», «O mistério da árvore», «Primavera abortada» e «Santa Eponina».
 
Exemplar em brochura, sem defeitos significativos.
 
30€

(Auto-«biografia» literária)

Morreu em Dezembro. Em Maio, escrevia isto numa carta.
 
"Meu amigo:
 
...A propósito do seu pedido, devo confessar-lhe que muitas vezes digo a mim mesmo: - que me importa que um homem seja um grande escritor! A primeira coisa seria definir o que é um grande escritor. Pode escrever-se muito mal e ser-se um grande escritor - Dostoiewsky, por exemplo, que passou a vida a lamentar-se de não ter tempo nem dinheiro para escrever como o senhor Tolstoi. E pode escrever-se muito bem sem que isso baste para se ser um grande escritor. Escrever bem é às vezes horrível.
Quanto a mim não só me não considero um grande escritor (...) mas nem sequer me tenho como escritor. Considero-me um homem em luta com um fantasma. Quando é o fantasma que fala e me arrasta, às vezes aturdido, para onde não quero ir - apesar dos meus protestos - escrevo talvez com certo interesse, com dor e grotesco, com piedade pelos humildes; mas quando sou eu que intervenho, não sei fazer uma coisa de jeito. Tenho horror às palavras postas umas ao lado das outras, em préstito e escorrendo um líquido mole e pegajoso. O que eu procuro encontrar nos livros é humanidade e outra coisa viva que se pega para todo o sempre ao papel e à tinta.

Raul Brandão ― Os Pescadores

Livrarias Aillaud e Bertrand, Paris-Lisboa / 1923. In-8º de 326, [2] págs. Enc.

Primeira edição desta magna peça de contraponto solar ao magno lunar Húmus, explosão cromática de um pintor de palavras descendente, ele mesmo, de pescadores da Foz do Douro. A estes Pescadores tencionava Brandão fazer seguir numa imaginada série sobre a vida humilde, um entre milhentos propósitos literários nunca concretizados, Os Lavradores, Os Pastores, Os Operários (ainda chegou a avançar bastante), etc.  
Exemplar revestido de boa encadernação com lombada (profusamente gravada a ouro) e cantos em pele; mas que apenas conserva, má-sorte, a face inferior da capa primitiva.
 
45€

Raul Brandão ― Os Pescadores

Os Pescadores (2.ª Edição)

Livrarias Aillaud e Bertrand, 1924. In-8º de 326 págs. Enc.

Segunda das várias edições saídas no mesmo ano de um dos livros principais do escritor portuense, com capítulos dedicados a vários pontos da nossa costa marítima, de Norte a Sul, e aos hábitos, costumes e tipos das respectivas comunidades de pescadores – de que constitui o mais belo monumento literário conhecido.

Exemplar revestido de uma boa encadernação em material sintético da casa (também portuense) de António de Sousa Oliveira; que porém apenas conserva a face inferior da capa original.
 
17€