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11 de dezembro de 2015

(Auto-«biografia» literária)

Morreu em Dezembro. Em Maio, escrevia isto numa carta.
 
"Meu amigo:
 
...A propósito do seu pedido, devo confessar-lhe que muitas vezes digo a mim mesmo: - que me importa que um homem seja um grande escritor! A primeira coisa seria definir o que é um grande escritor. Pode escrever-se muito mal e ser-se um grande escritor - Dostoiewsky, por exemplo, que passou a vida a lamentar-se de não ter tempo nem dinheiro para escrever como o senhor Tolstoi. E pode escrever-se muito bem sem que isso baste para se ser um grande escritor. Escrever bem é às vezes horrível.
Quanto a mim não só me não considero um grande escritor (...) mas nem sequer me tenho como escritor. Considero-me um homem em luta com um fantasma. Quando é o fantasma que fala e me arrasta, às vezes aturdido, para onde não quero ir - apesar dos meus protestos - escrevo talvez com certo interesse, com dor e grotesco, com piedade pelos humildes; mas quando sou eu que intervenho, não sei fazer uma coisa de jeito. Tenho horror às palavras postas umas ao lado das outras, em préstito e escorrendo um líquido mole e pegajoso. O que eu procuro encontrar nos livros é humanidade e outra coisa viva que se pega para todo o sempre ao papel e à tinta.

Da minha vida não posso avançar mais nada, além do que aí está em farrapos nalguns dos meus volumes; da minha obra a sério, «Humus», «A Farsa», etc., não serei eu quem lhe fale, porque os meus livros só me interessam enquanto os não realizo. Às vezes aquela voz mete-me medo... É o fantasma a rir-se dos outros e principalmente de mim - e prega, fala, gesticula, passando-me para segundo plano. A parte que lhe pertence dissocia-se perfeitamente da parte que me pertence, e em que me detenho, com alegria, a fixar a paisagem e a luz. Porque eu adoro a luz esplêndida e o outro só gosta de nódoas escuras; onde emprego azul, emprega ele negro, e dá-se muito bem só com uma tinta e dor, só com uma tinta e sarcasmo. (...)
Podia dizer-lhe quando nasci, quando comecei a escrever, etc. Considero tudo isso inútil. O importante seria dizer-lhe quando o fantasma se introduziu na minha vida. Nem sei ao certo... Dar cabo dele, calculo que será até ao fim deste ano no meu último livro «O Pobre de Pedir» - se Deus me der vida e saúde."

 
I - Onde estão Dostoiewski e Tolstoi pode por-se, respectivamente, Camilo e Eça, que a opinião dele era (e não era má...) a mesma.
 
II - Passou a vida com esta história da «obra a sério» e da «obra a brincar», incluindo-se nesta última peças altamente primas como «Os Pescadores», «As Ilhas Desconhecidas» e o «Portugal Pequenino». Não sei de quase ninguém que escrevendo a sério chegasse ou chegue aos calcanhares do que este homem escrevia «a brincar». Nem sei, muito a sério, de prosa tão encantatória à face da terra desde que o género humano inventou a literatura.
 
III - Dar cabo do fantasma até ao fim desse ano. A 5 de Dezembro, morre. "Inesperadamente", queixava-se em Setembro do ano seguinte a mulher, essa lendária vimaranense Maria Angelina, no prefácio com que apresentava o tal «O Pobre de Pedir» - pedindo desculpa ao defunto de lhe publicar o livro sem autorização, num texto comovente e revelador da altíssima admiração em que tinha o marido. Melhor nem pensar muito nestas coisas. Creer o no creer en brujas não costuma fazer diferença.