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Jean-Jacques Rousseau ― Confissões

Confissões
(traduzidas do francês por Fernando Lopes Graça)

Portugália Editora, Lisboa. 2 vols. in-8º gr. de 412, [2] e 377, [7] págs. Br.

Na sua «Breve Introdução», argumentava João Gaspar Simões depois de o contextualizar que este livro “Não é uma justificação em têrmos sociais, morais ou jurídicos: é uma verdadeira confissão em sentido religioso. Implacável e feroz, Rousseau escalpeliza-se, não vacilando descer [sic] às mais íntimas particularidades da sua vida moral e sexual. / Seria preciso esperar pela obra de um Dostoievski ou de um André Gide para se voltar a repetir [sic] na história de qualquer literatura um facto tão extraordinário. / Um homem que se desvenda perante os seus semelhantes sem mesmo lhes ocultar aquilo que o humilhará diante dêles é exemplo excepcional de sinceridade e de grandeza humanas. Nem por outra razão é esta obra um dos mais sérios «documentos humanos» que existem no mundo”, sendo esta edição em dois grossos volumes impressos sobre papel encorpado o terceiro título da colecção entre aspas, inaugurada com Manuel Laranjeira e Oscar Wilde.

Ambos os volumes com a mesma assinatura datada de 1944; o primeiro tem além disso um rasgão marginal, com falha de papel, à cabeça da capa.

20€

Vida Devota (I)

Não sei como aprendi a ler; não recordo senão as minhas primeiras leituras e o efeito que tiveram sobre mim: é o tempo de que dato sem interrupção a consciência de mim próprio. Minha mãe havia deixado romances. Pusemo-nos a lê-los após o jantar, meu pai e eu. Não se tratava primeiro de outra coisa que não fosse exercitar-me na leitura por livros curiosos; mas depressa o interesse deveio tão vivo, que líamos à vez sem descanso, e passávamos a noite nesta ocupação. Não podíamos nunca abandonar o volume que não no fim. Às vezes, meu pai, percebendo de manhã as andorinhas, dizia todo envergonhado: "Vamos deitar-nos. Sou mais criança do que tu"