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Raul Brandão ― Humus

Editores: Renascença Portuguesa – Porto / Annuario do Brasil – Rio de Janeiro. (1921). In-8º de 236, [4] págs. Enc.

Segunda edição, impressa no Brasil e, como se sabe, com alterações significativas: desde logo, a pura e simples supressão do bastante significativo capítulo final «Vêm ahi os desgraçados», porventura com algumas raízes mais ou menos conscientes no conturbadíssimo contexto político da época.

Exemplar revestido de muito boa encadernação com cantos e lombada em pele gravada a ouro e as pastas em efeito tábua. Conserva por inteiro a capa primitiva, que nesta série para a Renascença (menos frequente do que a do Anuário do Brasil, de capa lisa) foi ilustrada na frente por José Tagarro. 
 
(40€)    

Raul Brandão - Portugal Pequenino

Lisboa, 1930. (Composto na Tipografia da «Seara Nova»/Impresso na «Gráfica, L.ª» –   Rua da Assunção, 18 a 24). In-8º de 258, [6] págs. Br.

Tomando como mote a reedição em fac-simile que o Público hoje faz sair, aqui se apresenta a edição dos autores (qualquer leitor  efémero de Raul Brandão reconhecerá pelo estilo o autor primário, mesmo se com algumas demãos de sua mulher, Maria Angelina, que lhe entremeou talvez algum inédito humor e o registo infantil; algo a mais neste caso d'“aquela porção que em tudo o que era dêle lhe cabia” falada por Nemésio à senhora a outro propósito) primitiva do livro, último original publicado em vida do escritor, apreciada também, afora o propriamente literário e principal, pelas ilustrações que o enriqueceram: desenhos a tinta de Carlos Carneiro (ao longo do volume, nas folhas mesmas de texto) e Alberto de Sousa (o da capa) e duas aguarelas, reproduzidas nas suas cores sobre folhas destacadas, ainda de Carneiro (vista do rio e da ponte de D. Luís, da Sé, do Barredo e dos Guindais portuenses a partir da margem de Gaia, lado nascente) e de José Tagarro (vista lisboeta do que parece outrossim a Sé da cidade, pertíssimo dela tendo o casal morado, na rua da Madalena, em casa várias vezes referida na correspondência com Pascoaes e noutros contextos), colaborador frequente da Seara Nova que, de vida fugaz, viria a morrer no ano seguinte (Brandão logo nesse, por Dezembro; a edição imprimira-se em Fevereiro). São os capítulos – ou, em rigor, quadros autónomos de personagens comuns - «Março», «A bruxa das Portelas», «As andorinhas», «O Marão», «Duas gotas de água», «O mar», «O reino encantado», «Do Algarve ao Ribatejo», «O Ribatejo», «Os pardais de Lisboa», «A Serra – Coimbra», «Memórias dum grilo» e «Uma estrêla no céu».

Deste livro, dir-se-ia não haver razão significativa para o relativo esquecimento a que sempre foi votado, devendo até, com Os Pescadores (expoente mor) e As Ilhas Desconhecidas, formar uma plausível trilogia da melhor composição mais solar que Brandão conseguiu (demasiado taciturno, sempre a desvalorizava em injustificado rigor). Será, de resto, erro tê-lo por «literatura infantil», ideia que não serviu senão de pretexto: é o mais rematado adulto quem facilmente sucumbirá a esse tão peculiar tom  - enfumado e enfeitiçador, hipnótico, ele mesmo quase sonâmbulo - que termina, por exemplo, o trecho sobre o Porto  final de «Duas gotas de água», e que  pairara já por um desses encantadores prefácios e passagens esparsas dos vários volumes de Memórias, descrevendo a Foz natal. Do Porto e da Foz, como aliás de muita coisa, nunca mais ninguém, antes ou depois, assim escreveu neste país.   

Exemplar em condição ainda simpática, mas ligeiramente desvalorizado por alguns defeitos: vincos e ínfimos rasgões na capa, pequena assinatura de propriedade na folha inicial de guarda e vestígios (mesmo se com aparecimento irregular) de acidez pelo volume fora.

35€