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7 de março de 2015

Arqueologia Literária (VIII)

Ninguém saberá ao certo, nem talvez ninguém tenha nunca sabido, da complexidade das relações que ligaram os dois nomes fundadores, e principais, do nosso Romantismo: Garrett e Herculano. De feitios tão distantes como a cigarra e a formiga da fábula (escusado dizer qual deles fosse cada uma delas), um o cúmulo da diletância e o outro o cúmulo da profundidade, sabe-se só que combateram juntos, embora em distintos batalhões, enquanto voluntários do exército liberal durante o Cerco, que depois alinharam por partidos diferentes, e que viriam até a protagonizar um tremendo despique sobre a questão da propriedade literária. Sabe-se também que sempre se admiraram reciprocamente q.b.: Garrett respeitou Herculano, apesar de ter nascido dez anos antes, porque o Lobo do Vale impunha respeito a quem quer que fosse; e Herculano também respeitou Garrett, não por ser mais velho mas por o entender o maior poeta de Portugal, só comparável a Camões (quando lhe deram a ler os textos de Folhas Caídas, na Bertrand do Chiado, adivinhou-lhes o autor por em terra lusa "mais ninguém poder compor versos assim"). No meio disto tudo, sabe-se menos do episódio que aí vai, contado pelo autor do Eurico a Gomes de Amorim, pau-de-cabeleira, confidente e biógrafo de Garrett, em carta que ele lhe pedira para as Memórias que escreveu deste último. Passa-se em 1849. Garrett, após uma das zangas amorosas com a Viscondessa da Luz, Rosa Montufar, requer asilo a Herculano no seu semi-eremitério da Ajuda, onde então preparava a Historia de Portugal. Pelo menos algumas das Folhas Cahidas, as mais róseas,  também hão-de ter estado aos pés  daquelas árvores, que por isso duplamente merecem geográfico destaque na bibliografia portuguesa.
 
"Queria vir preparar-se aqui para a solidão; queria ir viver no campo, dizer vale a Lisboa; mas sobretudo desabafar comigo. Veio. Fui tão asno que andei com ele a procurar uma vivenda rústica. E o desabafo? Nunca me disse uma palavra sobre as causas daquele excesso. Começou a sair à tarde e a vir alta noite, a ficar em Lisboa e a reaparecer inesperadamente; depois, a obrigar-me a ir com ele passear, o que me incomodava soberanamente, porque eu trabalhava então muito (prova real de que era um chapado asno, como acima disse). Nos nossos passeios (por via de regra sobre a estrada de Pedrouços) tínhamos sempre a fortuna de encontrarmos [a dita cuja]. O carrinho parava, o nosso eremita em projecto punha o pé no estribo do carro, e eu fartava-me de passear sozinho, até que o meu Santo Antão futuro acabasse o colóquio. No fim de três ou quatro meses, voltou para Lisboa sem me dizer nunca nem porque tinha vindo nem porque se ia".
 
Garrett tinha cinquenta e Herculano quarenta anos quando faziam estas figuras. Para o primeiro, seriam a coisa mais natural do mundo. Para o segundo, deviam ser pesada pena, que dificilmente imaginaremos. Naquela austeridade toda, o homem era quase um santo.