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12 de dezembro de 2014

Arqueologia Literária (VI)

A casa fica a meia encosta. Por trás o mar bravo dos pinheiros, em frente os montes solitários: a tarde tinge-os de oiro e à noite o granito compacto esvai-se ao luar como um fantasma. Este cantinho rústico criei-o eu palmo a palmo. Tudo isto foi pedra e uma árvore contemporânea da fundação da monarquia. O carvalho centenário cobria todo o eido. Era enorme, era prodigioso. No tronco, que nem seis homens podiam abranger, tinham os bichos as luras, e a ramada imensa era a moradia de todas as aves. Seu hálito sentia-se ao longe. Logo que o vi fiquei apaixonado. - Vamos viver juntos, vou envelhecer ao pé de ti. - Nós não ouvimos as árvores, mas a sua alma comunica sempre connosco: sua força benigna toca-nos e penetra-nos... Quando voltei de Lisboa o caseiro tinha-o deitado abaixo. Ainda hoje faz parte da minha vida, ainda hoje sonho com ele.
Construí a casa, plantei as árvores, minei as águas. Absorvi-me. Uma pedra basta, basta-me um tronco carcomido... Este tipo esgalgado e seco, já ruço, que dorme nas eiras ou sonha acordado pelos caminhos, sou eu. Sou eu que gesticulo e falo alto sòzinho, envolto na nuvem que me envolve e impregna. Que força me guia e impele até à morte?... Este sonho, reconheço-o, não é só meu - é o de minha mãe realizado, é o dos outros mortos que me rodeiam. E o meu sonho? - pergunto - o meu sonho quem o realizará jamais?...
 
(Não nenhum filho, que Raul Brandão os não teve, nem por isso nenhum consequente descendente, cuja tarefa seria aliás árdua: não fez o homem outra coisa senão sonhar, só nos intervalos escrevendo. A casa era a do Alto, em Nespereira, Guimarães. E o texto - mais tarde publicado no segundo volume das Memórias, com alterações pontuais e de plano - inicia Sombras Humildes: Páginas de Memórias, e saiu no n.º1 da Seara Nova, em 1921)