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11 de novembro de 2015

Do Prefácio

Sampaio Bruno, que morreu faz hoje cem anos, apresentava assim um livro: «Advertencia preambular, prefacio, prolegomeno, introito, ou como queiram chamar-lhe, manda a technica que aqui o escrevunhe» (Notas do Exilio, 1893). Da técnica sabia ele, bibliógrafo aturado que era - e que mais foi quando director da nossa cara Biblioteca Municipal do Porto, em São Lázaro, da qual quase só saía para recolher à Rua do Bonjardim. Aliás, por aqueles finais de dezanove, iniciar um livro com um prefácio, próprio ou alheio, parecia quase inevitável, muito mais ainda do que agora. O que nos leva a pensar. Por que razão, afinal, decide um autor (palavra incerta, mas "manda a technica que aqui a escrevunhe") dar as próprias palavras a público envoltas num embrulho em vez de nuas.

A primeira hipótese, aventada por Lichtenberg num qualquer dos seus aforismos, será invulgar. Dizia o alemão que com bom critério se poderia chamar a um prefácio «pára-raios». Como quem diz, por antífrase ou não, para a perspectiva do leitor: afastem-se deste livro os que dele nunca poderão ser próximos; afastem-se ou abriguem-se. Em regra, isto é conversa fiada. Quem publica, quer é leitores, mais ou menos pertinentes. Não anda à procura da alma gémea. Aparecer uma Pilar a Saramago, digamos: é bonito, é até comovente, é interessantíssimo para ambos, mas não foi o que fez o escritor pegar numa prospectiva caneta e muito menos imprimir o produto. E nem retrospectiva: um homem pode perfeitamente escrever por e/ou para uma mulher (ele há tantos...), mas quando publica procura a glória; não a Maria da Glória. Ninguém é obrigado a publicar.
 
A segunda, específica da anterior mas decididamente antifrástica, é a do autor que finge dessa maneira assustar leitores, quando o que quer é atraí-los. E aí aportam logo à memória dois casos inevitáveis, embora nenhum deles em declarado prefácio. Isidore Ducasse, vulgo Lautréamont, assim soberbamente avisando no início dos seus ferocíssimos Cantos de Maldoror, que tentaremos traduzir: "Queira o céu que o leitor, temerário e tornado momentaneamente feroz como aquilo que lê, encontre, sem se desorientar, o seu caminho abrupto e selvagem, através dos desolados pântanos destas páginas sombrias e cheias de veneno; porque, a menos que empregue na sua leitura uma lógica rigorosa e uma tensão de espírito pelo menos igual à sua desconfiança, as emanações mortais deste livro embeberão a sua alma como a água o açúcar. Não convém que toda a gente leia as páginas que seguem; só alguns saborearão sem perigo este fruto amargo. Por conseguinte, alma tímida, antes de penetrar mais longe em semelhantes bandas inexploradas, dirige os teus passos para trás e não para diante. Ouve bem isto que te digo: dirige os teus passos para trás e não para diante, como..." (começava aqui toda a profusão imagética bem conhecida e de facto até aí inexplorada, delícia dos surrealistas meio século depois). E o nosso António Nobre (não é provável, mas até lhe podem ter dado a ler o francês em Paris... onde, provadíssimo, recebeu Bruno no dito exílio), desta sorte avisando no início do seu nada maldoso (roubaram-nos a rara segunda edição na Feira do Livro do Porto, onde o pavilhão se descuidou «algumas» vezes por razões não propriamente solitárias e ainda muito mais ferozes do que a prosa do Conde) para os versos que se seguiam: "Ouvi-os todos vós, meus bons portugueses / Pelo cair das folhas, o melhor dos meses // Mas, tende cautela, não vos faça mal / Que é o livro mais triste que há em Portugal!".
Está-se bem a ver a resposta do leitor avisado (figurada e literalmente), mesmo se agradado, aos dois cavalheiros. "O que tu queres sei eu".

A terceira, tão prosaica e tão demasiado humana, a do autor que precisa: de desabafar; de exibir; de encher mais papel para compor o volume; infindável etc.

A quarta que ocorre, também tão prosaica e tão demasiado humana, a do autor que sente o peso da própria menoridade e precisa de padrinho avalizador. Hetero-prefácio.

Aqui chegados, é altura de dar a palavra e toda a razão a outro morador no Bonjardim, Camilo Castelo Branco, e a Gabriela Llansol, mais dois casos que afluem rápido à memória. O primeiro, numa breve carta-prefácio que Alberto Pimentel lhe pedira para Idilios dos Reis (também o temos disponível, dedicado e assinado pelo homem), terminava aconselhando-lhe que não a publicasse, recomendando “o legitimo e licito orgulho de se appresentar sósinho”. (Mas note-se que os prefácios de Camilo, sobretudo para livros alheios, eram quase sempre um regalo. Quase apetece abrir uma excepção no que se está a defender). Quanto à extraordinária senhora menos justamente valorizada de toda a literatura portuguesa, dizia tão-só que «O começo de um livro é precioso». Pois claro que é. O começo, não o prefácio. Pela primeira página é que um livro ganha ou perde. Exemplo radical, o do próprio (ir)responsável destas linhas: se rarissimamente passa a primeira página, é quase certo que o acaba; se a não passa, é quase certo que não mais lhe pega. (Mesmo aqui há excepções. A primeira vez que tocou em Hölderlin, ainda muito verde, pô-lo mesmo de parte. Crime de lesa-divindade, resumindo.)

Não tanto como na vida, mas também vale para a literatura. Com mais ou menos maldade, com mais ou menos bondade, nada do que importa é exactamente anunciado.