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12 de janeiro de 2015

Uma velha disputa

 
Começou  ainda no séc.XIX, pela consagração do segundo, desenvolveu-se sobretudo durante as primeiras décadas do XX, e, mais ou menos atenuada, com mais ou menos concessões a uma pouco plausível neutralidade, dura até hoje. Os nomes de  Camilo e Eça são, em sentido quase político, dois partidos, a que correspondem duas «ideologias» que parecem fáceis de precisar, mesmo se tantos os campos em que se manifestam.
Desde logo, o literário: posto que o romantismo do primeiro fosse mais de feitio do que de literatura, sempre se lhe opôs com afinco doutrinal o realismo de José Maria, descontando a fronteira, chamemos-lhe, «naturalista» que ambos frequentavam. Também o ambiental: A Cidade e as Serras e A Ilustre Casa de Ramires não mitigam o fundo mais urbano da bibliografia do seu autor (que mal conheceu outra coisa), bem distinta da daquele que quando não escrevia sobre o Porto, estava, por regra, a compor cenários campestres, numa apologia da ruralidade que, em franca (e não irónica; também dessa houve muita...), raramente quis disfarçar a motivação reaccionária. O pessoal: vida fácil e convencional do cônsul, vida difícil, desregrada e "atormentada de um profissional das letras" pioneiro por cá, com os naturais ressentimentos acumulados; disse-se já, e bem, haver a impressão permanente, ao ler Eça, de alguém que escreve recostado numa poltrona, e ao ler Camilo a de alguém inclinado sobre a banca em que, é verdade, trabalhava. E até, se quisermos, o político: legendária (o mais crível) ou não a história do ajudante de campo de Mac Donnell, oficial de D. Miguel, faria decerto menos espécie aquele ultramontanismo absolutista e religioso à criatura da Samardã do que ao diplomata, sem grandes dúvidas do lado constitucional e com movimentação fluente pelos meandros da Corte. 

Não serão tão  evidentes as motivações da filiação. Aqui, talvez  uma só se descortine, apesar de limitada: a geográfica. Soa de bastante linear compreensão a preferência que alguns círculos lisboetas nutrem, ou dizem nutrir (sempre de desconfiar aquela velha fórmula, muito lida em inquéritos de Verão, quando as  personagens asseguram estar "a reler o Camilo", coisa manifestamente notável tratando-se de escritor cuja bibliografia activa ascende a quase três centenas de títulos; fazendo quem isto escreve notar que, não lendo pouco, não deverá mesmo assim ter ainda passado dos vinte), pelo autor d'Os Maias, o qual, além do maior fervor olisiponense, tem até essa vantagem: a de a leitura dar menos trabalho. Não ser ele natural da cidade e, pelo contrário, sê-lo  o outro é  neste ponto insignificante minudência.
Bem mais complexo - o tema daria, há-de dar, um tratado inteiro - querer entender o quase invariável voto que o Visconde de Correia Botelho recolhe e sempre recolheu entre as gentes da Invicta, que tanto maltratou com a temível pena; e que, por isso, não compareceram ao funeral na Lapa, quase às moscas (conta-o, entre outros, Fialho, de Lisboa vindo de propósito à pobre cerimónia); dizendo até da morte do romancista alguns dos comerciantes da tão satirizada burguesia portuense já não ser ela "sem tempo". Mas nada de admirar: era essa pequena burguesia que lhe esgotava as edições originais - quando saíam em fascículos publicados por jornais como O Commercio do Porto - de muitos milhares de exemplares. Nunca em todo o país se há-de ter lido tanto (literatura, entenda-se) como por isso, meados do séc.XIX, na cidade que lhe deu o nome. E que alimentava pelo seu mais importante cidadão - mesmo se só adoptivo - um sentimento pelo menos tão ambivalente como o que ele, reciprocamente, lhe ia dedicando. «Amor-Ódio», usa dizer-se.
Nota: Camilo Castelo Branco é há largas décadas o patrono da mais majestosa (e airosa, só lá passar dá gosto) artéria do Porto Oriental. Na Lisboa natal, não tem senão um largo, meio esconso, para as bandas do Marquês. Quod erat demonstrandum.  

Como bom portuense, agora se declara também por Camilo o blogger, ainda que  não sendo  dele indefectível: admitindo a quase impossibilidade de largar antes do final qualquer simples novela que se lhe comece a ler (já nada pequena virtude), parece claro o pouco conseguimento (não vamos usar, por duas razões, o termo inconseguimento) da produção quanto a alguma espécie de inovação ou sequer profundidade literária. Isto sem desprimor do inconfundível tom camiliano e do trabalho, esse sim, notável, de restauro de vocábulos arcaicos, sem par nas letras lusas - Aquilino, devoto seguidor e único nome nisso comparável, fazia-o com estridência demasiada e artifício evidente. E da superioridade face a Eça, que de inovação e de profundidade tinha menos ainda, e talvez desdenhasse desse pathos que lhe falta. 
E não resiste a aduzir um argumento que é golpe tão baixo quão eficaz: todos os principais prosadores seguintes - Brandão, Pascoaes, o citado Aquilino - o preferirem. Por algo teria sido. Não valendo aqui chamar só um difuso «regionalismo» nortenho e alto-beirão, que também de Aquilino mereceria boa resposta, "como se houvesse região nesta fita de terra e tudo não fôsse a mesma parvalheira, Chiado e Freixo de Espada à Cinta, a rua dos Clérigos no Porto e a rua das Fangas em Braga". Até porque todos três, como se sabe, andavam pelo dito Chiado, Brandão quase sempre lá morou perto (nos invernos, mais não fosse), Pascoaes, dizendo não gostar do Porto (onde por obrigação advogou uns anos, o que explicará o desgosto), fazia o mesmo amiúde,  e o das Terras do Demo teve também permanentes residências, entrecortadas pelos exílios, na capital administrativa. A coisa haveria de ser literária, de facto.