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2 de janeiro de 2015

(Corte livros e cabelos, 2 em 1)

Começando um livro tão pouco conhecido quão interessante para a bibliografia portuense - O Passado: história leve e fantasia -, aliás já aqui recenseado, lamentava-se João Grave por, ao descer em passeio a Rua da Restauração alguma tarde de domingo de há um século, ter percebido a transformação do Convento de Monchique, notabilizado pelo Amor de Perdição camiliano, numa fábrica de rolhas de cortiça. Senti, suponho, mais ou menos o mesmo quando, mal passado o ano, cruzei a Rua de Ceuta e percebi o corpo principal, primitivo, da livraria Leitura devindo cabeleireiro. Durante muitos anos, chegaram lá, pela mão de Fernando Fernandes, os livros que não chegavam a mais lado nenhum, censurados de antemão ou simplesmente estrangeiros. Herdeira da Divulgação, era, reconhecida até por lisboetas, a mais importante livraria do país, quer pelos fundos, quer pela frequência. Agora, caem-lhe cabelos como outros quaisquer. Quem ainda, ingénuo, acreditasse nas virtudes da concentração capitalista editorial e livreira ou no Pai Natal, pode talvez começar a desenganar-se. A Latina já não é a Latina, a Leitura já não é a Leitura. Sobra, por enquanto, a Lello, e é ir rezando para que Chardron, lá do alto, vá movendo cordelinhos contra o destino previsível das 3 L's.

O Porto está muito lindo, muito arranjado, muito espevitado, muito turístico, muito na moda e tudo o mais. Seja. Mas uma cidade que perde as melhores livrarias é uma cidade pior. Além do cabelo, perde alma.