catálogo on-line

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Cesariny ― Um Auto para Jerusalém

Lisboa, Editorial Minotauro. S/d [1964]. In-8º de 74, [2] págs. Br.
 
Primeira edição do livro (adaptado de «Os Doutores a Salvação e o Menino», de Luís Pacheco), proibida pouco depois da publicação e hoje já bastante invulgar, tendo boa parte dos exemplares sido apreendida; integrada na colecção «Teatro» da Minotauro.
 
Exemplar por estrear, com as folhas ainda por abrir e em condição praticamente impecável, descontando uma pequena marca na capa, sem grande importância.
 
30€

Rudolf von Jhering ― A Lucta pelo Direito

A Lucta pelo Direito (“Biblia da humanidade civilisada”. Laveleye./Traducção e prefacio de João de Vasconcellos, advogado)//3.ª edição

Aillaud, Alves & C.ª/Francisco Alves & C.ª. [S/d – 1909?]. In-8º de 155, [5] págs. Enc.

Afora o – divagante q.b. – do tradutor, reproduz o prefácio da 6ª edição alemã, em que Jhering explicava ter o livro resultado de um primeiro «esboço» composto para conferência na Sociedade Jurídica de Viena, em 1782, e salientava no seu propósito menos a “pura theoria juridica” e mais a “these de moral pratica”, dizendo: “Porque tive menos em vista generalisar o conhecimento scientifico do direito do que despertar nos espiritos essa disposição moral que deve constituir a força suprema do direito: a manifestação corajosa e firme do sentimento juridico”.

Exemplar de uma série encadernada pelo editor com gravações a ouro na lombada e em ambas as pastas, sendo a da inferior o emblema da Aillaud e Bertrand.
 
8€

Miguel Torga ― Rua

Rua (Novelas e Contos)

Coimbra ― 1942. (nas oficinas da «Atlântida»). In-8º de 197, [3] págs. Br.

Foi a edição original deste volume de textos – a partir da segunda, Torga chamar-lhes-ia só «Contos» – em prosa, um dos quais, o pró-noctívago Pensão Central, viria a ter publicação independente.

Exemplar em boa condição geral, mas prejudicado por defeitos exteriores (pequenos rasgão e falha de papel na capa) e uma assinatura de propriedade na folha de guarda preliminar.  
 
35€

História do Futuro (II)

Durante a tirania de Dionísio em Siracusa, correria a certa altura que uma velha orava e ofertava diariamente pela saúde do odiado soberano e pela prosperidade do seu governo – que lhe fossem longos os anos. Intrigado, mandou-a ele chamar. Ao recebê-la, perguntou-lhe o porquê do estranho hábito, pois não soubera nunca de semelhante coisa. Respondeu-lhe a velha que  era já o terceiro governante que por aquelas bandas conhecia; como cada um que se seguia conseguia ser ainda pior do que o antecessor, rezava para não ter de conhecer um quarto.
 
[A história é contada por Tomás de Aquino, baseado decerto em Diodoro. Respirando fundo, evitaremos piadas e comparações fáceis com a situação política, «democrática», portuguesa destes últimos anos. Só por serem fáceis...]

Henrique Galvão ― Irreverência

Irreverência? (Notas à margem da política e dos costumes)

1946/Livraria Popular de Francisco Franco, Lisboa. In-8º de 245, [3] págs. Br.

Primeira edição conjunta de uma série de textos antes publicados na imprensa e aqui coligidos nas duas secções «Aquem...» e «...e Além-Mar».

Exemplar por estrear, com as folhas ainda por abrir, apesar de prejudicadas no topo, ao longo do volume, por um certo engelhamento devido a humidade.
 
23€

Camena d'Almeida ― L'Europe

L’Europe par P. Camena d’Almeida (Agrégé de l’Université/Chargé d’un cours de géographie à la Faculté des lettres de Caen)

Paris: Armand Colin et Cie, Éditeurs. 1894. In-8º de VI, 526, [4] págs. Enc.

Depois de uma tábua introdutória de «Généralités sur l’Europe», desenvolvem-se os capítulos «L’Europe du Nord-Ouest», «Les États Scandinaves», «Europe Centrale», «Europe Méridionale» e «Europe Orientale»; sendo o volume ilustrado por uma série de mapas e de cartas. Parece ter sido esta a primeira das dezenas de edições já impressas até hoje.

Encadernação do editor em percalina.

Exemplar em condição ainda muito razoável, descontando só marcas de acidez e alguma folga da lombada face ao volume.

20€

Carlos de Oliveira ― Alcateia

Coimbra Editora, Limitada/1945. In-8º de 252 págs. Br.
 
Segunda edição, publicada pouco após a original com uma nova capa – também de Victor Palla – e, no fim do volume, excertos de recensões críticas assinadas por, entre outros, Gaspar Simões e António Ramos de Almeida.
 
Exemplar ainda em razoável/boa condição, apesar das marcas de acidez na capa inferior e do escurecimento de algumas folhas no miolo.
 
20€

Carlos de Oliveira ― Alcateia

Coimbra Editora, Limitada – 1944. In-8º de 254, [2] págs. Br.

Primeira edição do segundo romance do autor, integrada na colecção «Novos Prosadores» e ilustrada na capa por Victor Palla.
 
Exemplar em razoável condição geral, com algum gasto da capa.
 
40€

Feira do Livro de Coimbra


Começa na próxima sexta-feira a Feira Cultural de Coimbra, que integra, em programação mais ampla, a tradicional Feira do Livro e estará no Parque Manuel Braga (margem do Mondego, face a Santa Clara) até 1 de Junho. O período de abertura ao público será das 14 às 24h durante a semana, alargado de manhã aos sábados e domingos. Haverá expositor de bibliographias
 

Camilo e Vieira de Castro ― Correspondencia Epistolar

Correspondencia Epistolar entre José Cardoso Vieira de Castro e Camillo Castello Branco (escripta durante os dous ultimos annos da vida do illustre orador)

Lisboa: Parceria Antonio Maria Pereira – Livraria Editora, 1903. 2 vols. in-8º de 231, [1] e  232, [2] págs. Enc.

Anunciada como a segunda, trata-se já, salvo erro, da terceira edição publicada, na série popular inaugural (mais apurada do que as seguintes, a maioria a partir da década de 1920) editada pela Parceria, que frequentemente se esquecia (ou não...) de contabilizar, por exemplo, as edições de Pedro Correia durante a década de 1890. O longo texto de apresentação pelo próprio Camilo, espraiando-se por essa funesta história conjugal que culminou, como se saberá, no uxoricídio executado pelo amigo  durante o sono da mulher, por a suspeitar infiel (com um sobrinho de Garrett), e na sequente condenação ao degredo africano, em que, como era corrente, morreria de doença pouco tempo depois, vem reproduzido até págs.114. 

Ambos os volumes revestidos de uma boa encadernação em estilo meio-amador com a lombada em pele (apesar de um tanto puída em toda a extensão central) e as pastas em marmoreado, não conservando as capas primitivas; no miolo, em estado praticamente impoluto, salvo o ligeiro e habitual escurecimento das margens do papel.

20€

Eckermann ― Conversações com Goethe

Conversações de Goethe com Eckermann (Traduzidas do alemão, prefaciadas e escolhidas por Luís Silveira)

1947 / Livraria Tavares Martins – Porto. In-8º de XVI, 330, [6] págs. Br.

Primeira, posto que tardia, edição portuguesa, com capa de Manuel Lapa, de quem são ainda os dois desenhos em retrato de Goethe (aos 25 e 40 anos, a partir de representações da própria época bastante conhecidas) impressos sobre uma folha preliminar. Outras folhas também extra-texto de papel couché  foram destinadas à reprodução de gravuras antigas, com, por exemplo, retratos de Goethe e gente relacionada, alguns desenhos dele e várias figurações artísticas de personagens da sua literatura compostas para edições ilustradas. O prefácio de Luís Silveira concluía sublinhando o entusiasmo do director (António Ferro) desta colecção «Contemporâneos» no sentido de “dar a conhecer ao público português as páginas que Nietzsche considerava como as do melhor livro escrito em língua alemã”.

Exemplar com pequenos rasgões e falhas marginais de papel na capa. De resto, em boa condição, sem defeitos a relevar.
 
15€ 

Ricordo di Pompei

(Na capa: Ricordo di Pompei: 32 Vedute). [S.l.n.d.].
Depois de ontem aqui trazido Raul Brandão, em quem a visita às ruínas deixara funda impressão (fala delas, pelo menos, noutro dos prefácios às Memórias e de passagem nesse estonteante período inicial do Húmus: "Na verdade, isto é como Pompeia um vasto sepulcro", cito de cor), não virá totalmente a despropósito este pequeno álbum de belas fotogravuras em formato postal, apresentando  panoramas de Pompeia e aspectos das suas edificações, com destaque para conhecidas Villas como a dos Mistérios. Cada uma das «vistas» tem no verso um breve texto descritivo em italiano, francês, inglês e alemão. A capa, cartonada e ilustrada a cores pela reprodução de frescos, foi aproveitada no reverso para a aposição de uma planta da cidade, destruída, como várias outras próximas, em pleno apogeu do Império Romano durante uma erupção do Vesúvio e descoberta só no séc.XVIII.
10€   




Scriptorium (VII)

Nas caladas noites de inverno, quando despego o olhar dos papéis, encontro sempre os teus olhos que me envolvem de ternura. Isto é quási nada - e revolve o mundo. 
 
(in O Silêncio e o Lume - Memórias, Vol. II)

Barroco Brasileiro

Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian. 1973. In-4º quadrado de [104] págs. Br.

Catálogo da exposição organizada pela Secretaria da Cultura, Esportes e Turismo e pelo Museu de Arte Sacra de S. Paulo, apresentada na Gulbenkian, sob o patrocínio da Embaixada do Brasil. Com um prefácio escrito pelo director do museu paulista e um extenso e muito interessante artigo («Arte religiosa colonial no Brasil»), cheio de notas e apontamentos históricos de relevo sobre a presença e a colonização portuguesa no país, da autoria de Ribeiro Neto. Edição impressa em papel couché, ilustrada por dezenas de boas reproduções, a cores e p/b, das peças expostas, e dividida nas secções «ourivesaria», «escultura», «mobiliário» e «vária».

Exemplar em bom estado (salvo ligeiríssimo desgaste da capa). Tem, em anexo, o folheto – aparentemente, da mesma série – «Aspectos da arte barroca brasileira: Exposição de documentação fotográfica».
 
10€

Aquilino Ribeiro ― Quando os Lobos Uivam

Lisboa, Livraria Bertrand. 1958. In-8º gr. de 411, [1] págs. Br.

Primeira edição do decerto mais célebre romance de Aquilino, proibido pelo lápis azul do Estado Novo pouco após a publicação, iniciando o processo que haveria mesmo de levar o escritor à barra dos tribunais; parecendo hoje relativamente invulgar (mais do que seria de esperar, até pelo confronto com os outros volumes desta série, «Obras de Aquilino Ribeiro»), supõe-se que boa parte dos exemplares tenham sido logo retirados do mercado. Com uma extensa dedicatória ao médico – opositor também da ditadura – Francisco Pulido Valente, em que se lia, a propósito da vida de escritor exilado, “Numa fauna exaustiva tive de desatender à vida de relações, não cultivar como devia a amizade, remeter os meus à vis própria quando poderia com um pouco de arte, salamaleque, e o quantum satis da desvergonha cívica nacional, consagrada e triunfante, guindá-los a ministros ou banqueiros.” (uma nota curiosa, a respeito disto, é que o filho mais velho viria a ser eleito o primeiro presidente da Câmara de Lisboa sobrevindo o 25 de Abril, mais de uma década depois da morte do pai). Transcreve, nas abas, um conjunto de apreciações feitas por personalidades várias – o próprio Salazar (como ele beirão, e que nele reconhecia o grande escritor), Cecília Meireles, Cortesão, Régio, Nemésio, Júlio Dantas, Raul Rego, etc. – acerca do romancista.

Exemplar em bom estado geral, salvo ligeiras marcas de acidez. 
 
25€ 

Aquilino Ribeiro ― Jardim das Tormentas

Jardim das Tormentas: Contos, por Aquilino Ribeiro
 
Livraria Bertrand * Lisboa. [S/d]. In-8º de 327, [1] págs. Br.
 
Não a datando, indicava a editora tratar-se da quarta edição - talvez publicada entre a década de 30 e a de 40 -, que reproduz o longo e conhecido prefácio de Carlos Malheiro Dias para a primitiva (começava por louvar que um empedernido republicano se tivesse lembrado de um empedernido monárquico, adversário político, para a coisa, e terminava dizendo não duvidar, após a leitura deste livro de estreia de Aquilino, que "As letras portuguesas possuem hoje mais um admirável artista, que se incorpora na dinastia dos grandes escritores").
 
O exemplar, bem conservado no miolo, acusa porém  desvalor por algum desgaste da capa, ligeiramente manchada e com marcas de corrosão que chegam a prejudicar nela a parte impressa.
 
10€

Afonso Ribeiro e o Neo-Realismo em Portugal


Parece discutível, e vai aqui tentar-se brevemente demonstrá-lo, um velho apontamento que confere a Afonso Ribeiro lugar destacado, ainda que de rodapé, na história da literatura portuguesa, enquanto precursor do nosso neo-realismo (do qual o autor destas linhas está, em todo o caso, longe de ser especialista).
Do ponto de vista geracional, nem há debate: o escritor nasceu em 1911, ano de nascimento de Redol e Manuel da Fonseca; Soeiro Pereira Gomes, antes, em 1909; para não chamar agora José Gomes Ferreira. E a actividade de editor e colaborador da revista portuense Sol Nascente, durante os anos das polémicas com os presencistas que serviram de incubação ao movimento, não se pode dizer antecessora (nessa, n'O Diabo e em Altitude, como em muitas outras revistas literárias não tão vinculadas, escreviam pela mesma altura Álvaro Cunhal, Álvaro Salema, Alves Redol, Joaquim Namorado, José Rodrigues Miguéis, Mário Dionísio, exemplos). Pelo que o mote só poderia ser a data de edição - 1938 - de Ilusão na Morte, seu primeiro livro, de pequenas novelas e contos, publicado.

Afonso Ribeiro ― Plano Inclinado (romance)

Depositária: Livraria Progredior (158, Rua de Passos Manuel, 162) - Pôrto. (1941). In-8º de 235, [1] págs. Br.

Foi o romance de estreia de Afonso Ribeiro, por ele publicado ainda em restrita edição de autor; até então, apenas dera a lume o livro de pequenas novelas e contos Ilusão na Morte, que será hoje o mais raro de toda a sua bibliografia (pelo menos, a saída cá).  

Exemplar em muito bom estado, sem qualquer falha a salientar, tendo só leve desgaste da capa.
 
20€

Afonso Ribeiro ― (Maria I) Escada de Serviço

Editorial Ibérica Porto. (1946). In-8º gr. de 479, [1] págs. Br.
 
Primeira edição do livro, mais do que simples "nova versão", tamanhas as alterações e a extensão (em dobro), de Plano Inclinado, o romance de estreia do autor – que apenas assim escrevia na sua nota introdutória "ao público e à crítica - pelo menos àquela parte da crítica que tem por hábito ler os livros sobre que se pronuncia". Como a de Povo, saído no ano seguinte, teve também a capa ilustrada por um então novíssimo Júlio Pomar em início de actividade. E muitos anos passaram até que a série, Maria, "Para todas as que na vida, à semelhança da personagem deste romance, trilham o caminho áspero e negro da servidão", conhecesse sequência, já durante a época moçambicana de Ribeiro.
Precisamente a propósito de Povo, que ontem apresentava no «Público» no que talvez tenha sido, até agora, o melhor dos textos introdutórios (fraquinhos quase sempre, aliás) da colecção «Livros Proibidos», Luís Andrade realçava o facto de a Censura ter permitido esta um ano antes e só interditar a segunda, ainda aumentada, que viria a sair nos anos 60; salientando esse aspecto que, por regra, se deixa passar em claro, camuflado pelas ideias  generalizadas (em grande parte, justíssimas) sobre a indigência intelectual dos censores: o de o Lápis Azul  ter amiúde funcionado com base num juízo  eminentemente político de oportunidade, a que a questão, chamemos-lhe, 'moral' não serviria senão de disfarce.  
 
Exemplar em bom estado, descontando alguns vestígios de acidez ao longo do volume e de traça no pé das folhas finais. Conserva todo o corte das folhas por aparar e foi valorizado por um autógrafo do próprio Afonso Ribeiro na folha de guarda.
 
28€ 

Ferdinand Alquié ― Philosophie du Surréalisme

Flammarion, Editeur / 26, rue Racine, Paris (VIe). (1955). In-8º de 234, [4] págs. Br.

Primeira edição do livro, partido nos capítulos «Le Projet Surréaliste», «La Révolte et la Révolution», «L’Attente et l’Interpretation des Signes» e «L’Imagination».

O exemplar pertenceu a um conhecido escritor português, nada surrealista, de quem tem manuscrita a assinatura sobre a folha de guarda.
 
25€

Vieira da Silva / Arpad Szenes

Vieira da Silva (1908-1992) / Arpad Szenes (1897-1985) // «Pinturas - Desenhos - Serigrafias»  

Galeria Alvarez, arte contemporânea. Porto. (2004). In-4º gr. de [48] págs. Enc.
 
Bom catálogo da exposição comemorativa do meio século da galeria, encadernado, impresso sobre papel couché, com tiragem limitada a 300 exemplares. O texto de apresentação («Evocação de Vieira da Silva e Arpad Szenes») é de Jaime Isidoro, que fôra o fundador da Alvarez, seguindo-se-lhe, em repescagem, um outro de Agustina Bessa-Luís, originalmente publicado em 1972.

Exemplar por estrear.
 
15€

Retratos de Vieira por Arpad Szenes

Centro de Arte Moderna – Fundação Calouste Gulbenkian. 1985. In-4º gr. de [30] págs. Br.

O pequeno catálogo inclui textos introdutórios de Sommer Ribeiro, Guy Weelen e Agustina Bessa Luís, uma tábua biográfica de Arpad e duas fotografias suas, uma delas com Maria Helena; a que se seguem a reprodução de alguns dos trabalhos seleccionados (da mão, que se diria mágica, do húngaro) e a ficha técnica de todos. Tiragem de 1500 exemplares, estando este por estrear, em óptima condição.
 
8€

Vasco Graça Moura (1942-2014)

Também a morte espera paciente
e já cresceu connosco e perde tempo,
mas só enquanto nós esbracejarmos.

A Poesia está na Rua (e no Cartaz)


Sob proposta de Sofia de Melo Breiner, que já para o 1.º de Maio de 74 escrevera o verso em composição dedicada aos militantes do P.S. (partido pelo qual integraria as listas à Assembleia Constituinte, vindo nela a ser deputada após essas primeiras eleições livres, a 25 de Abril de 1975), Maria Helena Vieira da Silva concebeu, pelo menos - quem isto assinala estava capaz de garantir já ter visto terceira versão -, dois cartazes ilustradores de «A Poesia está na Rua», saídos a público nesse primeiro aniversário e agora aproveitados para a exposição homónima que hoje, comemorando os exactos 40 anos da Revolução, vai a inaugurar na Galeria do Palácio de Cristal, no Porto. Dos dois, um, não menos genial, apresenta o típico traço que celebrou a pintora, a que certa escolástica artística chama abstracto. O outro, de belo efeito, que aqui se mostra, foi na sua figuração mais fácil e apropriado ao propósito que lhe deu azo, permanecendo por isso até aos nossos dias o propriamente icónico e em regra reproduzido. Dessa figuração terá um olhar atento, ou apenas insistente, muito a dizer.

Não sabendo se alguém o notou, nem se a pintora alguma vez o chegou a referir, parece indiscutível ser o primeiro rosto - fileira da frente, à esquerda - o de Pascoaes (que Maria Helena dizia apreciar): é, sem tirar nem pôr, o desenho de um dos seus, assumidamente toscos, auto-retratos. A custo se discutirá que à direita na segunda linha estejam os de Pessoa e Eça. E, em subida progressiva, quase se juraria ainda reparar nos de Régio, Cesariny, Aquilino e Ruben A. (primo da escritora), para não jurar que o (ainda mais) taciturno ao lado de Pascoaes seja o de Camilo, e que a mulher à porta do prédio fosse a própria Sophia, e a mais ao alto a própria Maria Helena - hipóteses, mesmo assim, nada de descurar. Escusado reforçar o ponto com alguns casos já de dúvida, entre gente nacional e estrangeira, sobretudo francesa (Proust e Char, por exemplo). O que temos como certo chega para perceber que o mote, A Poesia está na Rua, foi levado à letra e de maneira radical: não era só a poesia, era a palavra em sentido amplo. Dirão os neo-cépticos / neo-austeros / neo-liberais (paremos por aqui, para o novo parar de estragar o velho...) que a simples ideia disso não passa de literatura.

Tomás da Fonseca ― As Congregações e o Ensino

Lumen: Empresa Internacional Editora, 1924. In-8º de [8], 84, [4] págs. Br.
 
Primeira edição do célebre livro deste depois reincidente autor de Fátima, violento ataque de um ex-seminarista à Igreja e às congregações católicas (em particular, as de inspiração jesuítica, que pretendia extirpar de todo – considerando que a República ainda em relação a elas havia sido branda…), com dedicatória impressa a Teófilo Braga. Reproduz a longa exposição ao Senado e, a finalizar, inclui também a sátira «Deus contra Deus».
 
Exemplar por estrear, conservando os cadernos por abrir.
 
18€

Eça de Queirós ― A Cidade e as Serras

A Cidade e as Serras / quinta edição

Porto – 1917 / Livraria Chardron, de Lello & Irmão, editores / (Rua das Carmelitas, 144). In-8º de 385, [3] págs. Enc.

Vão escasseando os exemplares desta edição, sendo este um dos da série encadernada pelo editor em percalina com gravações a ouro (lombada e pasta frontal) e a seco desenhando ornamentos em relevo: a efígie do romancista à frente e o emblema da Lello atrás destacando-se. Série que, nesse modelo habitual, tem aqui uma apresentação preliminar de Eça, ilustrada por um retrato, que por regra não aparece.
 
15€

Páscoa e escritores «pascoais»

De modos mais ou menos voluntário e crente, devem nome à Páscoa (palavra derivada da hebraica Pessach, passagem: se do Mar Vermelho, êxodo, ou num sentido ainda ultra-metafísico, anterior, é ponto discutido) escritores em número assinalável. Desde logo, por cá, um tão heterodoxo e pouco devoto Teixeira de Pascoaes, que foi buscar pseudónimo à casa paterna onde passara e continuaria a passar a maior parte dos dias: o solar de Pascoaes, em São João de Gatão, Amarante. Mas a principal via é também nisto naturalmente a francesa, profusa em baptizados com o nome Pascal, próprio ou comum. Ainda há poucos dias se mencionava aqui Pascal Quignard, esse grande escritor contemporâneo desta nossa época de que bastante desdenha. Sendo Blaise Pascal - ou Pascal, assim sem mais - o senhor de fama dominante até agora, por entre matemáticas, filosofias e teologias.

[William Blake]
Há, de resto, todo um conjunto dos seus Pensamentos dedicado pelo  auvernês  à  angústia (a consagrada agonia  pode ser  ambígua, ninguém sabe) premonitória de Cristo, agregados sob a menção «O Mistério de Jesus». A páginas tantas, lê-se uma máxima feliz, que por isso foi ganhando entretanto o favor da glória: "Jesus estará na Agonia até ao fim do mundo. É preciso não dormir durante esse tempo" (citado de cor).
Fica  evidente a alusão a essa agonia antecipada no  Monte das Oliveiras, anti-Éden frequentado pelo Cristo em consecutivas noites anteriores (di-no-lo Lucas, 21) e na noite/madrugada de quinta para sexta-feira santa. Dos mais inquietantes episódios narrados ou sugeridos no Novo Testamento, cuja estranheza terá sobrenadado narradores e narração (excepção notável: a de João, único dos quatro então presente, referem-no os outros três, e que pura e simplesmente se abstém, chegado aqui, de continuar a narrar), afirmam Mateus, Marcos e Lucas que o Mestre, ao início da madrugada, pedira a Pedro, Tiago e João que velassem, atentos, e não adormecessem, enquanto se afastava "a distância de uma pedrada" para rezar, queixando-se por vez única no texto bíblico - salvo erro, já o apontava o autor - de tristeza, "uma tristeza de morte", ele que foi dela, mas viva, a personificação neste mundo. Estaria Jesus só, e os discípulos, aqui de todo irrelevantes (tal o capítulo seguinte demonstra), seriam «mera» projecção como tudo o resto, humana ilusão de companhia, vago consolo futuro do novo credo vitorioso? Estaria de facto acompanhado e o pedido, simbólico, aconselhava apenas vigília genérica contra o Mal, que há-de durar enquanto Tempo houver (interpretação de Pascal, comummente aceite; e também aqui viria à colação Quignard, que desenvolve algures a ideia de o Tempo ter começado com a consciência da predação: a projecção da morte na presa)? Escusado elaborar hipóteses. Fosse ele Filho do Homem ou de Deus ou ambas, parece ultrapassar o nosso entendimento, mais a mais tão diferido, e não muito ajudado por uma quanta, típica e talvez forçosa confusão evangélica, de resto pobre nas pistas que deixa (o dogma da revelação divina das escrituras será, até para os fiéis, posto que as leiam, difícil, muito difícil de acreditar). Invejável a fé, que não aspira a entender ou se despista.

José Cardoso Pires — O Delfim

O Delfim (romance)

Moraes editores. (1968). In-8º de 362, [8] págs. Enc.

Primeira edição do livro, título princeps da bibliografia do autor, dedicado a Salgado Zenha e logo começado a reeditar nesse mesmo ano; revestido de encadernação editorial em tela com sobrecapa ilustrada de papel, que o exemplar conserva (ainda que com algumas pequenas marcas).
 
35€ (reservado)

O Livro na Arte (VI)

Não é de crer, se não há indicação do pintor em contrário, que Velázquez pretendesse algo mais do que isto: a aparente* desproporção de formas entre homem e livro, cujo efeito grotesco nos parecerá hoje  (mais de um século de modernismo e de figuração «deformadora», tendo esta até por cá  exemplo conhecido, Paula Rego)  relativamente banal, mas que não seria, à época, nada despiciendo.
 
Um habitual leitor, porém, talvez prefira achar que sim e descortine logo a sugestão de pequenez do ser que lê face à leitura em que o ego parece adormecer. Ou, já agora, a ideia da própria leitura enquanto embalo, tão cara a um escritor como Quignard. Paradoxo: a leitura, linguagem, ecoa naquele que lê apelo semelhante ao da vaga música que de longe, de fora, chega ao feto intra-uterino, infante (infans: o que não tem fala, i.e. linguagem) em formação. É dizer, aquele que lê, linguagem, responde sobretudo, notando-o ou não, ao fundo indistinto em que ela se forma. (Também ela, assim tudo, fantasma). Paradoxo eventual: aquele que escreve é em simultâneo o que embala e o que é embalado.
 
* [Don Diego de Acedo, el primo, era um anão. E o volume que segura, um volumoso in-folio. O quadro, óleo de finais de 1630, integra o acervo do Prado] 

Rome: le Guide Complete

Rome: le Guide Complete pour la Visite de la Ville et de ses Environs / Notice Historique et Artistique par Eugenio Pucci / Traduit par Sylvaine Grünberg

Bonechi - Edizioni «Il Turismo» - Firenze. [S/d]. In-8º de 192 págs. Br.

Belo guia dado a lume na justamente conceituada colecção «Mercurio», de impressão integral sobre papel couché em useira profusão ilustradora: reproduzindo-se pelos vários itinerários propostos centenas de gravuras antigas e fotogravuras variadas que contemplam quase em exclusivo peças artísticas e monumentos e complexos arquitectónicos, seleccionados com critério. O volume, decerto um regalo para qualquer apreciador da Cidade Eterna, apresenta ainda dela, em grande folha desdobrável, uma «nuova pianta di roma con rete autofilotranviaria», mapa composto pela Geographica florentina que sobremaneira o valoriza; e estando o exemplar, aliás em boa condição, valorizado já de si pelo simples facto de o conservar.
Terá esta sido a edição destinada a França (e não apenas, é de crer, aos turistas franceses em Itália).

10€

A Literatura no Desemprego

Já é mais do que uma moda: quem apostar que o vencedor de qualquer chorudo prémio literário luso será apresentado como «desempregado» deve ter, no mínimo, 50% de probabilidades de acertar. Este sinal dos nossos tristonhos tempos mereceria talvez só um conformado encolher de ombros não fôra o irritante tom latente, entre a condescendência e o paternalismo, com que os patronos (palavra da mesma família de patrões) parecem louvar a coisa e lavar o que de consciência possa restar como veste de capital. No meio de todos os outros de um geral empobrecimento da população que se quer lento e insinuante (não anda a dormir, quem o promove), será este só mais um sinal, mas bem elucidativo do anunciado regresso ao tempo da caridade e da esmola cujo cheiro, não especialmente agradável, vai começando a pairar pelos ares.
(O que menos se entende é o aparente pouco incómodo com que muitos dos ditos vencedores se prestam ao papel. Ainda que haja nos concursos alguma cláusula que obrigue à indicação da profissão - informação de relevância literária quase tão funda quanto a de saber se a pessoa prefere peixe ou bife, praia ou campo, despir-se ou vestir-se -, não haverá decerto a proibição de dar resposta torta a quem no assunto insista.)
 
De Julien Gracq [1910-2007], escritor francês de fugaz ligação durante a juventude ao círculo surrealista, a que nunca se vinculou e de que nunca se desvinculou, ficou sobretudo famoso fora de França o breve ensaio A Literatura no Estômago, murro no estômago, precisamente, à instituição, ao sentido e à legitimidade dos prémios literários. (E às «carreiras» literárias, e aos cortejos, pompas e feiras de vaidades, longo etc.). Falava o do Loire, a páginas tantas, nos escritores recém-chegados com o "ar de sair de uma estufa", que "querem estar à altura do que deles se espera". "A «saída» dum novo escritor oferece-nos frequentemente o espectáculo penoso duma pileca esgalgada tentando lugubremente levantar a garupa no meio dum estralejar teatral de chicotes de circo - nada a fazer; uma volta à pista e basta, fareja o estábulo imediatamente e logo corre para a manjedoura". Palavras não muito mansas, mas talvez ainda mais actuais sessenta e tal anos depois.

Uma das várias perversões intrínsecas e inevitáveis dos prémios literários é o reforço dessa velha falácia: a de que a literatura, como tudo no mundo, se compra e se vende, e o escritor, se não quiser ser «maldito», será mais ou menos domável pelo «meio». Estando desempregado, torna-se evidentemente mais fácil domá-lo. Eis o ponto.

Armando Coelho & Agostinho Santos ― e os meus mitos

vila nova de gaia 1988. (Rocha/Artes Gráficas). In-8º gr. quadrado de [48] págs. Br.    

Edição do(s) autor(es), que não deverá sequer ter entrado no mercado, constante de apenas 500 exemplares; e de previsível valorização futura, maxime pelas ilustrações de Agostinho Santos que acompanham esta incursão literária, versos em modo humorado, do arqueólogo.

O exemplar tem aposta – no caso, não o valoriza especialmente, porque a deverão ter muitos outros – uma dedicatória de oferta manuscrita pelo próprio Armando Coelho.

15€