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Irmandade de Nossa Senhora da Lapa

Venerável Irmandade de Nossa Senhora da Lapa: Factos da sua História (coligidos por Cesário Coelho) / (2.ª edição)

Porto, 1973. (Imprensa Social, Secção da Coop. Povo Portuense). In-8º de 45, [3] págs. Br.

Ilustrado em três folhas inteiras à parte (vistas de interior e exterior da Igreja, Hospital). As folhas finais apresentam uma lista de «Efemérides» relacionadas com a instituição.
 
Bom exemplar, decerto por inaugurar.

10€

John Delaforce ― The Factory House at Oporto

Christie’s Wine Publications: 1979. (London). In-8º de XII, 108 págs. Br.
 
O estudo de Delaforce, bastante sóbrio e competente, interessará genericamente sobretudo pelos capítulos iniciais, em que deixa várias achegas relativas aos primeiros tempos do comércio e da exploração vinícola dos ingleses cá; de início, conforme se sabe, entre o Alto Minho, o Porto e o Douro.
Saída em Inglaterra, a edição é por cá invulgar, estando este exemplar especialmente valorizado por um dedicatória de oferta do próprio Delaforce “To Bishop Daniel, with my complements”.
 
22€  

Anda(va)m Faunos pelos Jardins

Se o leitor está no Porto, e vai apaixonado ao Jardim de S. Lázaro, e conhece a família da menina casadoira, por quem anda em brasa, faz a sua primeira cortesia, e foge de encontrá-la segunda vez, porque repetir a cortesia é, além de provincianismo puro minhoto, cousa que cheira a inconveniência, e pode ser até escândalo. Resta-lhe o expediente comum, e salva assim a honra das famílias: é amoutar-se como fauno por entre as murtas e bosques de acácias, lobrigando aqui, e além, a caça estranha.
No Jardim de S. Lázaro os dois sexos dão ao passeio o que as sovinas municipalidades não têm querido dar-lhe; isto é, uma luxuosa superabundância de estátuas, as quais, tirante a alma, nem sempre se avantajam às do mármore nacional. 

(Camilo Castelo Branco)

Eugénio de Andrade ― A Domingos Peres das Eiras, com umas Violetas

A Domingos Peres das Eiras, com umas Violetas (To Domingos Peres das Eiras, with a few Violettes / A Domingos Peres das Eiras, avec quelques Violettes)

Fundação Engenheiro António de Almeida. (1986). In-8º de 32, [4] págs. Br.

Edição trilingue, fora do mercado, preparada pela Inova sob o cuidado de Cruz dos Santos e Armando Alves e destinada à Fundação boavisteira. Alexis Livitin assegurou a tradução para inglês e Christian Auscher para francês. O volume foi ilustrado por gravuras antigas, fotografias de Ricardo Fonseca e uma aguarela de António Cruz.

Exemplar por estrear.

8€

Eugénio de Andrade ― Daqui Houve Nome Portugal

Daqui Houve Nome Portugal: Antologia de verso e prosa sobre o Porto (3.ªedição, aumentada)

o oiro do dia (1983). In-8º de 288, [6] págs. Br.

“Uma antologia ilustrada de textos literários sobre o Porto onde os seus mil e cem anos de baptismo cristão ganham corpo visível e palpitante. Lê-se ou folheia-se com uma adesão estranhamente saudosa a tanta vida, não se sabe até que ponto vivida por nós ou por outrem – como quem percorre um álbum fotográfico de família, com notas confidentes de várias mãos.” (Óscar Lopes)

Bom exemplar, parecendo por inaugurar e sem defeitos de monta.
 
15€

Mário Cláudio ― Noites de Anto: Alegoria em Sete Quadros

rolim (1988). In-8º de 92, [4] págs. Br.

Primeira peça de teatro do autor, representada na estreia (Casa da Comédia), entre outros, por António Feio (como Anto), Felipe Ferrer e Fernando Luís.

Exemplar por estrear.
 
8€

Mário Cláudio ― Um Verão Assim (com um estudo de Arnaldo Saraiva)

Livraria Paisagem. 1974. In-8º de 148 (aliás, 142), [2] págs. Br.

Primeira edição, já invulgar. O longo prefácio de Arnaldo Saraiva, «Um Texto Assim», estende-se até págs. 58.

Exemplar novo, ainda por estrear e sem defeitos de monta, salvo uma marca na frente da capa.
 
15€

Luís de Oliveira Guimarães ― O Espírito e a Graça de Camilo

Edição Romano Torres. Lisboa. 1952. In-8º de 158, [2] págs. Br.

Primeira edição de um trabalho que colige centos de pequenas anedotas da vida de Camilo Castelo Branco, recolhidas a partir dos seus livros e das várias biografias suas escritas por Alberto Pimentel, António Cabral e Silva Pinto, entre outros – além das que, mais ou menos verídicas, foram ficando na tradição oral (sobretudo no Porto). Inclui uma introdução do autor e, a terminar, uma recensão de textos humorísticos em verso que, nalguns casos, estavam ainda inéditos em volume, tendo-os Camilo publicado apenas na imprensa da época.

Bom exemplar, sem defeitos demasiado significativos.
 
10€

Camilo Castelo Branco ― Esboços de Apreciações Litterarias

Esboços de Apreciações Litterarias (Primeira Serie)

Lisboa: Empreza da Historia de Portugal Sociedade editora. 1902. In-8º de 245, [3] págs. Enc.

Segunda edição, publicada na «Bibliotheca Portugueza Illustrada» e graficamente decorada por letras capitais e pelos retratos da maior parte dos autores referidos no volume, salvo quatro que, no prefácio, os próprios editores referiam não ter conseguido obter. Capítulos dedicados a, entre outros, Martins Sarmento, Soares de Passos, Marquesa d’Alorna (uma mini-biografia), Faustino Xavier de Novais (este, um mimo), Júlio Cesar Machado, Bulhão Pato, Rebelo da Silva e Teófilo Braga.

Exemplar da série encadernada pela editora com a capa ilustrada em estilo Arte Nova; da variante a cinza nas pastas e a vermelho na lombada (houve pelo menos uma outra, com as mesmas cores invertidas).
 
25€

As meninas de Vel...Herculano

O Pôrto passou sempre por produzir bem só quatro coisas: dinheiro, morangos, nevoeiros e patriotas. Eu protestei constantemente que produzia, além disso, uma quinta: lindas meninas.

[Alexandre Herculano, que passou cá uns bons aninhos como bibliotecário e que costumava saber o que dizia. NB: não estaria a referir-se às meninas de (Praça) Velasquez, mas às que frequentavam então o Jardim de São Lázaro. Que podem não corresponder exactamente às que o frequentam agora...]

Magalhães Basto ― O Pôrto do Romantismo

Coimbra: Imprensa da Universidade, 1932. In-8º gr. de VII, [I], 234, [6] págs. Br.

Edição primitiva e já relativamente rara de um dos títulos fundamentais da bibliografia portuense, cheio de apontamentos de interesse relativos à época de ouro da cidade, debruçando-se em particular sobre o meio do século. Alguns dos capítulos: «1820 e a Burguesia Portuense», «O Pôrto de 1850», «Poesia e... Matéria», «A Família Burguesa», «O Pôrto Culto», «Sua Majestade-o-Amor», «Êles e Elas», «O Jardim de S. Lázaro», «Vida Boémia», «O último acto de um grande drama», «O Amor e os Poetas», «Bailes e Banquetes», «Folguedos Populares».

Exemplar na maior parte por estrear, conservando muitos dos cadernos por abrir.
 
55€ 

Magalhães Basto ― Homens e Casos duma Geração notável

Homens e Casos duma Geração notável (D. António Alves Martins, Augusto Soromenho, Antero do Quental, Ramalho Ortigão, Eça de Queiroz, Vieira de Castro, Alexandre da Conceição, Júlio Denis, Teófilo Braga, Germano Vieira de Meireles, Jaime Batalha Reis, Oliveira Martins, Guerra Junqueiro, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, D. Pedro V, etc.)

Livraria Progredior – Editora (Pôrto – 158, Rua de Passos Manuel, 162). In-8º de 238, [6] págs. Br.

Um dos mais interessantes (e menos conhecidos) livros da bibliografia passiva camiliana, tendo em conta que a grande parte do volume recolhe capítulos acerca do novelista, figura maior que perpassa pelo Porto de oitocentos. Esses como os outros capítulos recolheu-os o autor da secção «Falam velhos manuscritos» em que publicava n’O Primeiro de Janeiro.
Primeira edição, pouco frequente. 

Exemplar em condição muito aceitável, mas prejudicado por alguma folga da frente da capa e do encaixe em relação ao volume; mais tarde ou mais cedo, devendo precisar de reforço.  
 
20€

Anna Candiago — António Carneiro Ilustrador de Dante

Livraria Civilização – Editora. (1965). In-4º de 80, LXII [aliás, XLII], [II] págs. Br.

O estudo da autora ensaia o cruzamento das ilustrações do pintor com as passagens do texto do «Inferno» a que correspondem, sendo apresentado em português, inglês e francês e, no final, acompanhado de uma útil e extensa (ainda que aqui evidentemente extemporânea) bibliografia; seguindo-se em folhas de papel couché  a reprodução dos belíssimos desenhos de Carneiro (até então, inéditos, e assim dados a conhecer pela primeira vez ao grande público), de traço solto e quase «espontâneo» e porém com óptimo efeito.

Exemplar um quanto marcado na capa. Miolo em muito boa condição, descontando apenas ligeiros vestígios de acidez nas folhas iniciais.

18€

Augusto Gil ― Gente de palmo e meio

1913 / Guimarães & C.ª – Editores (68, Rua do Mundo, 70), Lisboa. In-8º de 133, [3] págs. Br.

Edição original de um dos mais celebrados títulos do autor, que até hoje as conheceu em profusão.

Exemplar relativamente bem cuidado, mas afectado por uma mancha marginal de humidade que marcou a capa (sobretudo) e as folhas preliminares e por algumas pontuais de acidez ao largo do volume.
 
24€ 

Augusto Gil ― Alba Plena

Atlantida (mensario artistico, literario e social para Portugal e Brazil). [S/d – 1916?]. In-8º de 123, [7] págs. Br.

Primeira edição, ilustrada por Raul Lino no texto e fora dele por uma folha couché onde foi estampado o retrato de Augusto Gil composto por Columbano.

Exemplar globalmente bem conservado no miolo, mas desvaliado por um pequeno corte do papel à cabeça do anterrosto e uma assinatura de propriedade na guarda; além de manchado na capa.
 
18€  

Raul Brandão ― Memórias (1.º Volume)

Edição da «Renascença Portuguesa», Porto. (1919). In-8º de 326, [2] págs. Enc.

Edição original do primeiro volume de um conjunto que é documento fundamental do penúltimo entresséculo e do primeiro quartel do séc.XX, talvez, em panorama, o melhor para a compreensão dos tempos finais da monarquia e do advento da República.

Exemplar coberto de encadernação modesta que não conserva, de resto, a capa de brochura; e maculado por assinatura de propriedade no rosto.
 
22€

Raul Brandão ― Memórias (Volume II / 2.ª edição)

Livrarias Aillaud & Bertrand / Paris-Lisboa. (MCMXXV). In-8º de 296, [2] págs. Enc.

Este segundo volume foi dedicado ao já então maior amigo Pascoaes e conta com os capítulos «O Silêncio e o Lume» (para a mulher Maria Angelina, tremendo de belo), «O meu Diário», «Ainda o Regicídio», «Vivos e Mortos» e «Os Ultimos Anos de Junqueiro».

Exemplar revestido da mesma encadernação, também sem a capa primitiva.
 
14€
 
 

Amplas almas

Suponho que ninguém se atreva a discutir a Angelina e Raul Brandão o estatuto de mais enternecedor casal de toda a literatura portuguesa.
Conheceram-se por 1896, em Guimarães, onde o portuense começava a breve carreira militar de que muito cedo se reformaria. Casaram. E a partir daí, segundo consta, nunca mais se largaram um ao outro. Narra a irmã de Pascoaes que, visitando este com ela pela primeira vez a Casa do Alto, convidou à saída Brandão (como já várias vezes fizera por carta) para a retribuição da visita, acompanhando-o ao Marão. Esqueceu-se de estender o convite a Maria Angelina. Ela e o homem entreolhavam-se, olhavam para Pascoaes, tornavam a olhar um para o outro, e andou-se nisto algum tempo - até Maria da Glória perceber e chamar a atenção do irmão. Brandão explode: "Apre... Do que me livrou... É que eu nunca me separei de minha mulher!" Chegando, aliás, a levá-la para «A Brasileira do Chiado» lisboeta, numa época em que senhoras num café roçava o escândalo.
Por menos simpatizante que se seja do instituto do casamento, ninguém pode deixar de se deliciar com este.

Além da carta aqui transcrita há dias, é também de Maio de 1930 a publicação do livro que assinaram em conjunto, último saído em vida do escritor: esse igualmente delicioso Portugal Pequenino (aqui). Evidentemente, foi Raul a escrevê-lo. Mas nota-se aqui e ali a mão da mulher, entremeando na prosa alguma graça de humor e jovialidade apropriadas a um livro do género, só que de todo estranha ao espírito do marido. Quem nunca leu, mexa-se.

Voltando aos fulgurantes prefácios das Memórias, segue agora o final do segundo, «O Silêncio e o Lume» - longo texto que é das mais belas declarações de amor alguma vez feitas por um homem a uma mulher. Normalmente, fazem-se no início. Esta, foi feita no fim, os dois já de cabelos brancos, apesar da diferença de idade. "Enternecedor" é capaz de ser pouco.

[Não deixaram descendência. Esgotaram-se um no outro.
Um Coração e uma Vontade seria o título do livro de memórias de Angelina já viúva.] 

Raul Brandão ― Humus

Edição da «Renascença Portuguesa», Porto. (1917). In-8º de 334, [2] págs. Enc.

Primeira edição do livro magno do autor, por muita (e boa) gente considerado também a peça magna da prosa portuguesa de todo o séc.XX – cujo magno poeta, Herberto Helder, a viria a transladar a verso na década de 60.

Exemplar revestido de encadernação modesta e sem conservar a capa de brochura. Pertenceu ao tenente Leopoldo Carmona (oficial do Corpo Expedicionário Português à Flandres durante a Grande Guerra), de quem tem o carimbo, a assinatura a tinta e sublinhados a lápis de cor.
 
50€

Raul Brandão ― Humus

Editores: Renascença Portuguesa – Porto / Annuario do Brasil – Rio de Janeiro. (1921). In-8º de 236, [4] págs. Enc.

Segunda edição, impressa no Brasil e, como se sabe, com alterações significativas: desde logo, a pura e simples supressão do bastante significativo capítulo final «Vêm ahi os desgraçados», porventura com algumas raízes mais ou menos conscientes no conturbadíssimo contexto político da época.

Exemplar revestido de muito boa encadernação com cantos e lombada em pele gravada a ouro e as pastas em efeito tábua. Conserva por inteiro a capa primitiva, que nesta série para a Renascença (menos frequente do que a do Anuário do Brasil, de capa lisa) foi ilustrada na frente por José Tagarro. 
 
(40€)    

Raul Brandão ― A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore


A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore de Raul Brandão / (Ilustrações de Martinho da Fonseca)

Edição da «Seara Nova» (Praça Luís de Camões, 46, 2.º) – Lisboa. MCMXXVI. In-8º de 287, [5] págs. Enc.
 
Primeira edição deste livro que respiga o anterior História de um Palhaço. Com os capítulos: «K. Maurício», «A casa de hóspedes», «Halwain», «Camélia», «Sonho e realidade», «A última farsa», «Diário de K. Maurício», «Os seus papeis», «A luz não se extingue», «O mistério da árvore», «Primavera abortada» e «Santa Eponina».
 
Exemplar em brochura, sem defeitos significativos.
 
30€

(Auto-«biografia» literária)

Morreu em Dezembro. Em Maio, escrevia isto numa carta.
 
"Meu amigo:
 
...A propósito do seu pedido, devo confessar-lhe que muitas vezes digo a mim mesmo: - que me importa que um homem seja um grande escritor! A primeira coisa seria definir o que é um grande escritor. Pode escrever-se muito mal e ser-se um grande escritor - Dostoiewsky, por exemplo, que passou a vida a lamentar-se de não ter tempo nem dinheiro para escrever como o senhor Tolstoi. E pode escrever-se muito bem sem que isso baste para se ser um grande escritor. Escrever bem é às vezes horrível.
Quanto a mim não só me não considero um grande escritor (...) mas nem sequer me tenho como escritor. Considero-me um homem em luta com um fantasma. Quando é o fantasma que fala e me arrasta, às vezes aturdido, para onde não quero ir - apesar dos meus protestos - escrevo talvez com certo interesse, com dor e grotesco, com piedade pelos humildes; mas quando sou eu que intervenho, não sei fazer uma coisa de jeito. Tenho horror às palavras postas umas ao lado das outras, em préstito e escorrendo um líquido mole e pegajoso. O que eu procuro encontrar nos livros é humanidade e outra coisa viva que se pega para todo o sempre ao papel e à tinta.

Raul Brandão ― Os Pescadores

Livrarias Aillaud e Bertrand, Paris-Lisboa / 1923. In-8º de 326, [2] págs. Enc.

Primeira edição desta magna peça de contraponto solar ao magno lunar Húmus, explosão cromática de um pintor de palavras descendente, ele mesmo, de pescadores da Foz do Douro. A estes Pescadores tencionava Brandão fazer seguir numa imaginada série sobre a vida humilde, um entre milhentos propósitos literários nunca concretizados, Os Lavradores, Os Pastores, Os Operários (ainda chegou a avançar bastante), etc.  
Exemplar revestido de boa encadernação com lombada (profusamente gravada a ouro) e cantos em pele; mas que apenas conserva, má-sorte, a face inferior da capa primitiva.
 
45€

Raul Brandão ― Os Pescadores

Os Pescadores (2.ª Edição)

Livrarias Aillaud e Bertrand, 1924. In-8º de 326 págs. Enc.

Segunda das várias edições saídas no mesmo ano de um dos livros principais do escritor portuense, com capítulos dedicados a vários pontos da nossa costa marítima, de Norte a Sul, e aos hábitos, costumes e tipos das respectivas comunidades de pescadores – de que constitui o mais belo monumento literário conhecido.

Exemplar revestido de uma boa encadernação em material sintético da casa (também portuense) de António de Sousa Oliveira; que porém apenas conserva a face inferior da capa original.
 
17€

Raul Brandão ― Os Pobres

Os Pobres (carta-prefácio de Guerra Junqueiro) / (4.ª edição)

Livrarias Aillaud e Bertrand, 1925. In-8º de 327, [5] págs. Enc.

Quarta edição, terceira de também várias tiragens sucessivas de um livro entretanto já reaproveitado pelo autor para a confusa e genial amálgama de Húmus. No seu longo prefácio, começava Junqueiro por dizer dele ser uma “Autobiografia espiritual, dilacerada e furiosa, demoníaca e santa, blasfemadora e divina”.

Exemplar com encadernação semelhante, mas não guardando esta nenhuma das faces da capa de origem.
 
10€

Foi "bom", foi.

"Cá vim encontrar o Raul Brandão morto, com a esposa desolada, a beijá-lo e a afagar-lhe uns restos de cabelos brancos que lhe fugiam do alto da testa mais ampla e cor de cera. Parecia dormir, emagrecido, o nariz mais saliente e fino, a boca desaparecida quase, como o bigode e as sobrancelhas dando-lhe ao rosto o aspecto duma verdadeira máscara de cera ou de marfim: a máscara ascética dum Santo.
Numa salinha contígua, um cunhado, três sobrinhos e duas sobrinhas (uma delas cho...rava constantemente) e o Mário Beirão. Lá fora, a rua deserta, num deserto que abrangia toda a cidade.
Demorei-me, com a Miquelina, até às 8 horas da manhã. Descansámos até à uma hora e voltámos para junto do querido morto que foi o melhor amigo que tive em Portugal e um dos maiores intérpretes da Dor humana.
Às três horas, saiu o enterro, com meia dúzia de pessoas, debaixo duma chuva constante. No cemitério, um cavalheiro de exótica figura, pede a palavra para dizer só três palavras: foi um bom!
E aqui tens o elogio fúnebre do maior escritor de Portugal!"

A 5 de Dezembro de 1930 morria Raul Brandão. O outro grande gigante da prosa portuguesa escrevia no dia seguinte esta carta à irmã Maria da Glória, que a reproduziu em Olhando para Trás Vejo Pascoaes.

Scriptorium (X)

Só escrevo, às horas mortas, quando o grande silêncio nasce do último ruído que se extingue...
O silêncio é o Verbo divino, o sopro de Deus que desperta o nosso espírito -, e beija-nos também na face.

Teixeira de Pascoaes ― Senhora da Noite

Porto: Magalhães & Moniz, L.da – Editores. 1909. In-8º de 54, [2] págs. Br.

Edição original, já consideravelmente rara.

Bom exemplar, sem defeitos significativos.

35€

Teixeira de Pascoaes ― Regresso ao Paraiso

Edição de A Renascença Portuguesa / Pôrto-1912. In-8º de [4], 218, [2] págs. Br.

Primeira edição de um dos mais procurados – e por isso relativamente raro – livros do poeta, o décimo da sua bibliografia.

Exemplar com alguma fragilidade exterior e esparsos vestígios de acidez ao longo do volume. Deverá ter pertencido a Augusto Cortês, de quem parece ter a assinatura no rosto.
 
60€ (reservado) 

Teixeira de Pascoaes ― Cantos Indecisos

Cantos Indecisos (Cantos Indecisos / A Elegia da Solidão / Elegia do Amor / Senhora da Noite / Doido e a Morte / Elegias)

1921 — Lumen, Empreza Internacional Editora. In-8º peq. de 184, [4] págs. Br.

Primeira edição, invulgar; acoplando a Cantos Indecisos títulos que conheciam já edição independente e outros que viriam a tê-la poucos anos depois.

Exemplar muito bem conservado no miolo, mas com algumas falhas na capa – onde Guilherme Allen apôs, à cabeça, a própria assinatura.
 
36€

Pascoaes, «the man of the eyes»


A senhora que não está na fotografia, porque dela nem  se conhece nenhuma, é Leonor Dagge, a inglesa que foi a musa de Pascoaes. Pouco dado a estas coisas, mais habituado às almas do outro mundo do que propriamente às deste, viu-a o poeta num mundaníssimo eléctrico (o famoso «americano») que saía da Foz para o Porto, então ainda povoações distintas. Viu-a e não teve senão ficar fulminado. "Foi numa tarde de outubro, numa dessas tardes de sobrenatural melancolia (...) Era Ela, em presença humana, aquele sonho que enevoou de luz a minha infância, e paira ainda nos longes do meu ser (...) É certo que o meu espanto a impressionou; e mal conteve, nos lábios, um sorriso. Tornou-se visível, para ela, como num súbito espelho idealizado, a sua imagem projectada nos meus olhos. A si mesma se viu como eu a via, e ficou naturalmente lisonjeada. Assim é que eu devia interpretar o seu sorriso, se o bom senso reinasse na cabeça de um poeta, como um rei de gelo num país tropical".
Não reina, e muito menos nestas alturas. O pouco que se sabe é que ainda se viram várias vezes nesse mesmo eléctrico, ela "branca e fina, de olhos pretos pousados num romance", ele fascinado e depois alheado "dos clientes, do meu sócio, de todas as coisas deste mundo. Quebrara-se-me o ritmo monótono em que vivia". Sabe-se também que, descoberta a morada da moça em Inglaterra, começou uma correspondência que chegou a meter a mãe dela e a irmã dele (!) e em que já se falava de casamentos (!), sem grandes modas. E sabe-se ainda que o lobo do Marão deixou as serranias e o Porto, onde por esse tempo advogava, para se meter num navio e ir a Londres atrás da criatura: "eu, que fugia dela para os pinhais de Nevogilde, resolvi persegui-la através do mar".
Do que lá se tenha passado ao certo, ninguém tem nem ideia, a não ser do desenlace: o regresso solteiríssimo de "the man of the eyes" (palavras da filha, segundo a mãe). Durante muitos anos deixou o dr.Joaquim o assunto na penumbra, «limitando-se» a escrever-lhe logo um livro, o Marânus, em que Leonor, sob a forma acrescentada Eleonor (melhor, ó poeta, teria sido Eleanor(e), nessas exactas 7/8 letras o mais belo nome jamais inventado), assume o demasiado ideal protagonismo: "Quem é não é a Leonor: é o Amor" (O Pobre Tolo). Só várias décadas passadas o abordaria ao de leve, embora sempre com muita (e boa) literatura, no livro O advogado e o poeta, livro de memórias mais tardio, (ainda) mais interessante e em todo o caso mais sinceramente memorial do que o literal Livro de Memórias. São dele as passagens citadas. O capítulo em questão, dedicado a Leonor, é o sexto e último, pormenor nada despiciendo.

Teixeira de Pascoaes ― O Empecido

O Empecido (novela)

Edição da «Gazeta do Bibliófilo» / Porto – 1950.

“Este livrinho inicia uma nova fase da minha obra literária. A novela é terreno que eu trilho pela primeira vez.” [Primeira e única...]
Primeira também esta edição, de tiragem limitada a 1000 exemplares com a chancela do autor; conservando-se este  por estrear, tendo os cadernos integralmente por abrir.
 
35€

Eis o poeta.

Eis o poeta. Phantasmas, sombras, vultos do Alem, espectros do Passado, toda a sua alma evoca-nos vividos silencios da sua aldeia, e o que era sombra torna-se realidade, o que era phantasma corporisa-se, e até as vagas chimeras que deambulam nas tristezas outoniças do Tamega, criam formas e são realisações.

(João Paulo Freire, «Terra Prohibida e Regresso ao Paraiso»)

António Nobre ― Primeiros Versos

Primeiros Versos / 1882-1889 (edição posthuma)

comp. e imp. na Tipografia A Tribuna (108, R. Duque de Loulé, 124-Porto), 1921. In-8º de 154, [2] págs. Br.

Edição preparada e organizada por Augusto Nobre, irmão do poeta, que dela fez tirar 1500 exemplares em papel de linho e lhe enfaixou da própria pena as notas que encerram o volume.

Capa com algum desgaste e pequenas falhas de papel no encaixe; miolo marcado por alguma acidez, mais pronunciada em duas das folhas.

35€

António Nobre ― Só

Pôrto, 1931. (Araujo & Sobrinho, Suc.res). In-8º de 235, [5] págs. Enc.

Quinta edição, ainda das mais apreciadas do poema, com boas ilustrações a partir de clichés da época e anteriores ao longo das folhas finais, de notas. Foi a tiragem de 3000 exemplares, estando este encadernado conservando ambas as faces da capa primitiva e aparado por todo.

30€

Do Prefácio

Sampaio Bruno, que morreu faz hoje cem anos, apresentava assim um livro: «Advertencia preambular, prefacio, prolegomeno, introito, ou como queiram chamar-lhe, manda a technica que aqui o escrevunhe» (Notas do Exilio, 1893). Da técnica sabia ele, bibliógrafo aturado que era - e que mais foi quando director da nossa cara Biblioteca Municipal do Porto, em São Lázaro, da qual quase só saía para recolher à Rua do Bonjardim. Aliás, por aqueles finais de dezanove, iniciar um livro com um prefácio, próprio ou alheio, parecia quase inevitável, muito mais ainda do que agora. O que nos leva a pensar. Por que razão, afinal, decide um autor (palavra incerta, mas "manda a technica que aqui a escrevunhe") dar as próprias palavras a público envoltas num embrulho em vez de nuas.