catálogo on-line

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Oscar Wilde ― Salomé

Salomé (Drama num Acto * Tradução de Armindo Rodrigues)

Portugália Editora, Lisboa. [S/d]. In-8º de 82, [6] págs. Br.

De acordo com a nota prévia dos editores, terá sido esta a segunda versão portuguesa da peça (a partir do original que Wilde compusera em francês, com dedicatória a Pierre Louys), antecedida só pela de António Alves nos anos 20. A edição incluiu bons desenhos de Paulo Guilherme (na capa e em folhas não numeradas ao longo do volume), habitual ilustrador à época em publicações da Portugália, e de Bernardo Marques (em frontão de abertura).
 
Exemplar ainda bem conservado, ressalvando ligeiras marcas na capa, pequena assinatura de anterior proprietário e uma mancha antiga de humidade à cabeça das folhas.
 
10€

Arthur Miller ― Os Inadaptados

Os Inadaptados (Tradução de Sousa Victorino)

Edição «Livros do Brasil» Lisboa. [S/d – 1961?]. In-8º de 202, [6] págs. + [8] ff. ilust. Br.

Deverá ter sido a primeira edição portuguesa, com tradução por Sousa Vitorino, de The Misfits, livro que John Huston depressa adaptaria ao cinema para um filme que reuniu no elenco Marilyn, Clark Gable e Montgomery Clift (a meio do volume estão várias folhas couché ilustradas justamente por imagens da película, como a capa, preparada por Infante do Carmo).

O exemplar pertenceu a Alberto da Cunha Leão, que o assinou no rosto mas não parece tê-lo lido, dado o aspecto por estrear e só prejudicado por vestígios de acidez nas folhas preliminares.
 
10€

William Faulkner ― Sartoris

Sartoris (Tradução de Carlos Vieira / Prefácio de Robert Cantwell)

Editora Ulisseia, Lisboa. (1958). In-8º de 422, [2] págs. Enc.

Volume publicado na  «Série Literatura» da Ulisseia, sendo a composição da empresa tipográfica Casa Portuguesa. O prefácio de Cantwell – não especialmente para a edição, ao contrário do que o título poderá indiciar – começava logo por garantir este (o terceiro da bibliografia do autor de Soldier’s Pay e Mosquitoes, precedentes) como o livro-chave de Faulkner.

Exemplar revestido de boa encadernação com ornamentos dourados aplicados sobre a lombada e em filetes de cercadura na pasta superior; não conservando a capa primitiva.
 
10€

Boris Vian ― O Outono em Pequim

O Outono em Pequim (Tradução de Luísa Neto Jorge)

Editora Ulisseia, Lisboa. (1965). In-8º de 320 págs. Enc.

Título publicado na mesma série, este composto pela Tip. do «Jornal do Fundão» e com a particularidade de ter sido uma das (muitas) traduções para o pão nosso de cada dia que esta tão interessante poeta portuguesa teve de fazer (de Vian, faria pelo menos uma outra, para a Estampa). Foi a primeira edição desta versão de Luiza, mais tarde recuperada por outras editoras.

Exemplar revestido de encadernação idêntica à anterior, só que em verde; também sem a capa de brochura, da mão de José Cândido.
 
10€

Intertexto (I)

(Sobre ombros, por ordem decrescente de cronologia e de altura)

                                                                               
Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
                         É uma onda            
Seus ombros beijarei, a pedra pequena                                  que quer estender-se
do sorriso de um momento.                                                   sobre a página
Mulher quase incriada, mas com a gravidade                         e quer durar  

de dois seios, com o peso lúbrico e triste                              como um ombro 
da boca. Seus ombros beijarei.                                             amante
(Herberto Helder)                                                                 que descalço 
                                                                                            vai abrindo a sombra
                                                                                            e as pupilas
                                                                                           que atónitas se esquecem
                                                                                           ao ver a folha ou face                                                                                            em que o centro se demora                                                                                             (António Ramos Rosa)

Gosto daquela mulher alta e esbelta que passa vestida com um fato de verão que lhe mostra a quase nudez de uns ombros que apetece beijar lentamente, até a pele dos nossos lábios não nos pertencer e ser a pele dos ombros da mulher
(Armando Ventura Ferreira)
                                                                                             

(Sobre e tão antes de isto destacado, muito evidentemente, Camões: Transforma-se o amador na cousa amada, por virtude do muito imaginar. E sobre isto, por sua e outra vez, Herberto, Transforma-se  o amador na coisa amada com seu feroz sorriso, os dentes, as mãos que relampejam no escuro etc.)

Arqueologia

(1980-1981). 4 vols in-4º de 52; 80; 140; e 160 págs. Br.
 
Foram estes os quatro números iniciais da revista, empreendimento do Grupo de Estudos Arqueológicos do Porto que continuaria ainda, salvo erro, a ter publicação até ao 25º. Com direcção - pelo menos, de início - de Vítor Oliveira Jorge, que também colaborava, recolhem contribuições de, por exemplo, Jorge Alarcão (só e a par de Robert Étienne, como num importante trabalho sobre Conimbriga, entre outros dedicados ao «Portugal Romano»), Carlos Alberto Ferreira de Almeida, António Maria Mourinho e Veiga Ferreira, além de especialistas estrangeiros como Jean Roche e Elizabeth Shee Towhig.
 
Todos em bom estado, sem defeitos a destacar.

20€  

Encyclopédie des Arts

Encyclopédie des Arts (architecture/peinture/sculpture/arts mineurs), par Luce Botté et Antoinette Zundel

Éditions Sequoia, Paris-Bruxelles. (1965). In-8º de 348, [4] págs. + [16] ff. de estampa. Br.

Primeira das várias edições dadas a lume deste breviário, demasiado auto-centrado no francesismo e com ligeirezas e incorrecções escusadas, mas nem por isso desinteressante para o efeito a que se propunha, e ilustrado com bom critério ao longo de todo o volume; publicada na colecção «Références».

Exemplar talvez a estrear, pontuado só nas folhas preliminares por leves vestígios de acidez.
 
10€

L'Argus de la Peinture

Balland. (1975). In-8º de 332, [2] págs. Enc.

Bem encadernado pelo editor em tecido sintético com gravações douradas, o volume reproduz a p/b, por cada artista considerado, pelo menos um dos quadros que recenseia, dos quais indica a cotação aproximada à época. A todos os artistas são dedicadas breves notas biográficas e/ou críticas (Vieira da Silva foi a única criatura portuguesa a merecer consideração).

Exemplar em muito bom estado, sem defeitos significativos, mas falho da sobrecapa - redundante, é certo - em papel, como amiúde acontece.
 
15€

O Livro na Arte (VIII)

É o 39.º dos Caprichos do genial Francisco Goya de Lucientes, e tem por legenda Hasta su abuelo (até ao seu avô/antepassado). Evidentemente, uma sátira às brenhas genealógicas, isto por alguém que tinha vários ramos aristocratas na família. Das três inscrições manuscritas conhecidas em três exemplares da gravura (que teve  esboços preliminares algo diversos) atribuídas ao próprio Goya, uma diz "A este pobre animal le volvieran loco los genealogistas y reyes de armas" (mimo); outra, só "A este pobre animal le han vuelto loco las genealogías"; e a terceira, brilhante e mesmo à época ousadíssima, "Los borricos preciados de nobles descienden de otros tales hasta el último abuelo". Nenhuma alma propriamente republicana, plebeia ou não, consegue deixar de se deliciar com isto.

Há variantes interpretativas, que porém não convencem. Uma, apenas poética, sugere quase como Camões transformar-se o leitor na cousa lida. Outra, de razão mais estática e inversa, que a cousa lida é que reflecte aquele que lê. Outra ainda, afim desta última, e com ela aliás lembrando um aforismo de Lichtenberg já aqui recenseado, garante, criteriosa, que por mais que leia não há volta a dar, continuará burro. Mas não parece esse o ponto.

Garrett ― Lírica Completa

Arcádia. (1971). In-8º de 433, [3] págs. Br.

A recolha, mantendo a ortografia antiga, abarca «Lyrica de João Mínimo», «Fabulas e Contos», «Sonetos», «Odes Anacreonticas», «Flores sem Fructo» e «Folhas Cahidas».

Exemplar ainda em relativo bom estado, mesmo apesar de sinais regulares de acidez ao longo do volume.
 
15€

Garrett ― Poesia e Teatro

Poesia e Teatro (Ensaio Preambular, Selecção e Notas por Mário Gonçalves Viana)

1944, Livraria Figueirinhas – Pôrto. In-8º de 207, [1] págs. Br.

O longo estudo preliminar de Gonçalves Viana espraia-se por quase oitenta páginas, constando das secções «Notícia histórica», «O lirismo Garrettiano», «Almeida Garrett e o Romantismo» e «O teatro de Almeida Garrett», e interessando qualquer coisa mais pelos apontamentos biográficos e sobre a época do que propriamente pela monótona e básica exegese literária; estando o livro depois dividido em «Poesias Líricas», «Romanceiro», «Poemas», «Teatro» e «Vária». Volume publicado na série Clássicos Antigos e Modernos.
 

15€

Ex-Libris (I): Pedro Veiga


Difícil seria não inaugurar esta série com o ex-libris que mais vezes vi e me passou pelas mãos: o de Petrus, advogado (mas pouco) e publicista portuense, figura lembrada como extravagante nos meios da cidade, reconhecido ainda hoje por alguma - heterodoxa - actividade política de oposição ao Estado Novo (foi um dos fundadores do MUD) e sobretudo pelas edições que patrocinou e, em alguns casos, promoveu ele mesmo na sua Arte e Cultura, de que destacaria a colectânea Documentos Literários, editora e reeditora de trabalhos de Fernando Pessoa; foi dele, por exemplo, o estudo (não muito brilhante, mas sempre procurado) sobre Os Modernistas Portugueses.
Era o homem  senhor de  biblioteca notável, das melhores por cá reunidas no séc.XX, agregadora de umas boas dezenas de milhar de espécimes - apontaria para 50/60 mil, só um alvitre, não  podendo haver  números seguros, até por dela ter sido entretanto perdida  incerta parte. Criteriosa, com relativamente baixa percentagem de «monos», se não falha a memória, tinha a literatura lá a parte de leão, e nessa é preciso sublinhar tudo, ou quase tudo, o que houve  de  mais  relevantes  títulos dos nossos  sécs.XIX e XX: destacando-se em  edições  originais uma importante camiliana e bastante completas bibliografias de Antero, Pascoaes e Pessoa (Mensagem incluída). 
Ora, foi essa mesma colecção que começou por caber em sorte a quem isto aponta (também a Raquel Patriarca, rapariga de talentos vários que se pode ler aqui e em muita folha impressa, e de quem já por aqui se falou) quando novel estagiário na Faculdade de Letras do burgo, à qual coube a parte mais significativa do acervo; para a de Direito, pouco antes constituída, foi a jurídica, cerca de cinco mil volumes (de novo  vem a memória pedir piedade,  passada que  é mais de uma década). Muitas atribulações depois, permanecerá elementar justiça reconhecer a estoutro bibliómano, apesar de nunca conhecido, morto havia muito tempo, uma fase bem significativa do desenvolvimento de um qualquer gene doentio que já por cá andaria mas só mais tarde se veio a notar, vicioso e viciado em livros antigos. Homenagem ou recriminação, se não ambas, aqui fica, pois. Suum cuique tribure.

História de Portugal

História de Portugal (I – Da Lusitânia a D.Fernando I. II – De D.João I aos Filipes. III – De D.João IV a D.Maria I. IV – De D.João VI aos nossos dias.)

Porto, Livraria Lello & Irmão – editores, 1946. 4 vols. in-8º de 123, [3]; 108, [4]; 130, [2]; e 132, [4] págs. Br.

Primeira edição de uma das mais conseguidas sínteses da história nacional alguma vez publicadas, dada a lume pela Lello na sua famosa «Colecção Ontem e Hoje» (e recentemente reeditada em 20 volumes pela QuidNovi, ainda sob a supervisão de José Hermano Saraiva); com uma panorâmica, dentro do possível, resumida, mas competentíssima, dos acontecimentos no nosso território desde o tempo dos lusitanos até à implantação da República. Inclui, em dezenas de folhas destacadas, não numeradas, uma série de gravuras com a reprodução de retratos e de trabalhos artísticos sobre temas e personagens. Ângelo Ribeiro assinou o 1º e o 3º volumes, sendo o 2º de Newton de Macedo (o piorzinho) e o 4º de Hernâni Cidade.

Exemplares em razoável estado geral, mas com alguns defeitos: falhas de papel nas capas, vincos (sobretudo no volume IV) e, no volume III, pequenos vestígios de traça ao alto das primeiras folhas (sem qualquer afectação do texto, não chegando a tocar a mancha tipográfica). 
 
40€

António Sérgio ― Historia de Portugal

Historia de Portugal (Traducido del original portugués por Juan Moneva y Puyol, Catedrático de la Universidad de Zaragoza)

Editorial Labor, S. A. : Barcelona - Buenos Aires. (1929). In-8º de 190, [2], XVI, [2] págs. Enc.

Foi mesmo esta espanhola a primeira edição, hoje valorizada q.b., de um livro que, apenas previsto, não chegou por cá a sair (só mais de dez anos  corridos  se publicaria  «História de Portugal - Interpretação Geográfica», primeiro, e depois «Breve Interpretação da História de Portugal», ambas já outra coisa). Pouco passando de um esboço de síntese, tem ainda assim, hábito nos escritos de Sérgio, muito que se lhe diga: bastará de exemplo o breve capítulo final, que plana sobre três supostas gerações românticas da literatura portuguesa (a terceira seria a de 70, Eça, pasme-se, incluído, perfeito disparate forçado só para encarreirar entre os pares um «romantismo» que se quer atribuir a Antero de Quental...) ignorando, olimpicamente, o nome de Camilo Castelo Branco, apenas um de vários escritores reunidos “em torno de Castilho”, para logo a seguir conferir destaque individual, entre muitos mais, a... Moniz Barreto. Criteriosíssimo, portanto.
O volume integra dois mapas desdobráveis a cores, um apontando «Viajes y Descubrimientos de los Portugueses» por terra e mar e o outro representando «El Imperio Portugués hacia Mediados del Siglo XVI»; e está ilustrado por um mapa mais, em folha destacada, do país na Idade Média e por um conjunto de ilustrações, ainda sobre folhas à parte, por gravura e fotogravura, além das que vão pontuando o texto de fio a pavio.

Exemplar, em especial, duplamente valorizado: por conservar a sobrecapa em papel (que tem, contudo, pequenas falhas) normalmente em falta, aqui como em Espanha, nos volumes desta Colección Labor; e pela dedicatória – embora pareça tardia – que Sérgio nele depois manuscreveu “A José Neves Águas [polígrafo mais conhecido como biógrafo de Cortesão, ligado também à Seara Nova], com apreço”. De Neves Águas sendo ainda o ex-libris que lhe foi aposto ao lado.

40€

Tempo de Falar (Diário da invasão de Goa)

Edição do Autor. [S/d – 1961?]. In-8º de 94, [2] págs. Br.

Com várias dedicatórias e um prefácio ao «leitor», em que escrevia o autor, Arnaldo Bastos Martins, “Disse e repito que nada sei de política e que este meu diário não passa dum depoimento pessoal. Quero contar o que vi. Pretendo dizer a verdade, essa verdade sem disfarces nem enfeites que não consta dos discursos com que, em Goa, fomos bombardeados todos os dias, durante três anos, pela rádio, pelos jornais, pelos livros e pelas sessões públicas”; e, a propósito do abandono final da praça, “Que os meus juízes se lembrem de que é fácil ser-se patriota nos bairros chiques da Lapa ou do Restelo, nos cafés da Baixa e nas praias da linha do Estoril. É simples ser-se herói quando são os outros que enfrentam o perigo”.
 
Exemplar com marcas pronunciadas de acidez na capa e nas folhas preliminares; melhor ao longo do volume, apenas com um escurecimento marginal do papel.

10€

Vida Devota (II)

A nem sempre inocente mania dos bibliófilos interessa-me ao mesmo tempo que me repugna um pouco; para quem procura saber quais as tendências duma época que começam a tomar consistência, há vantagem em consultar as flutuações das suas preferências. No meio da tagarelice literária que escorre por toda a parte, absolutamente desprovida de garantias, essas pessoas ao menos arriscam dinheiro nos seus gostos - que não incidem sobre quase nenhuma das novas estrelas.


Carlos Malheiro Dias ― A Verdade Nua

Lisboa: Portugal-Brasil Limitada, sociedade editora (58, Rua Garrett, 60) ― Rio de Janeiro: Companhia Editora Americana / Livraria Francisco Alves. [S/d]. In-8º de 273, [3] págs. Br.

Primeira edição, com a capa ilustrada por Roque Gameiro, deste livro de pequenas prosas, entre as quais se contam a titular, «No enterro do General Buonaparte», «O lar de um vice-rei do Brasil», «A opinião de Machiavel», «Constança e Ignez» e «À margem do ultimo livro de Anatole France», num total de 24.

Exemplar em razoável/boa condição no miolo, só marcado por alguma acidez, mas a ameaçar desconjunção única a meio do volume e na capa – pelo que o melhor será, tarde ou cedo, encaderná-lo.
 
14€ 

SNBA: um Século de História e de Arte

(1901 – 2001:) Sociedade Nacional de Belas-Artes: um Século de História e de Arte
 
(Edição: Projecto, Núcleo de Desenvolvimento Cultural de Vila Nova de Cerveira / Fundação da Bienal de Vila Nova de Cerveira. 2006). In-4º gr. de 271, [3] págs. Br.
 
Trata esta monografia, com tiragem de 1000 exemplares, “do percurso da SNBA fundada a 16 de Março de 1901, resultante da fusão da Sociedade Promotora das Belas-Artes e do Grémio Artístico”, cujo contributo, conforme se assegura, é indispensável “para o conhecimento da arte em Portugal no séc.XX”. Abundante em ilustrações, integra os capítulos «A Pintura Naturalista e os seus Antecedentes», «Divulgação e Permanência dos Valores Naturalistas nos Salões da Sociedade Nacional de Belas Artes de 1901 a 1945», «O Naturalismo Modernizado nos Salões do Secretariado da Propaganda Nacional», «O Naturalismo Tradicional e o Naturalismo Modernizado», «As Exposições Gerais de Artes Plásticas (1946/1956)», «A Decadência dos Valores Naturalistas e a Resistência ao Modernismo na Sociedade Nacional de Belas Artes», «Uma Política de Mudança para a Sociedade Nacional de Belas-Artes» e «Resistência do Naturalismo Académico», acrescidos de bibliografia final. A capa reproduz o cartaz de Constantino Fernandes para a II Exposição da SNBA, em 1902, e os textos de apresentação são de José-Augusto França e Emília Nadal.
 
Exemplar por estrear.
 
25€ 

Dostoievski ― A Voz Subterrânea

A voz subterrânea (Zapiski iz podpolia) — Tradução de Aurora Jardim Aranha
Porto – 1926 – Livraria e Imprensa Civilização / Américo Fraga Lamares & C.ª, L.da – Editores (75, Rua das Oliveiras, 77). In-8º de 223, [1] págs. Br.
Edição portuguesa saída na colecção «Biblioteca do Lar», com a capa bem ilustrada por um trabalho de Raul que será hoje a sua única mais-valia; e um tanto manchada, no exemplar, principalmente sobre a face inferior. De resto, um só defeito a destacar, assinatura de propriedade no rosto.

10€

Feira do Livro do Porto

Começou hoje e durará até dia 21, na Avenida das Tílias do Palácio de Cristal, a primeira feira do livro directamente organizada pela autarquia portuense (já aqui se falara disso há alguns meses: http://bibliographias.blogspot.pt/2014/03/feira-do-livro-do-porto-restauracao-da.html).
Do pavilhão - o 32 - de bibliographias destacam-se as relativas à cidade e aos seus principais escritores: Garrett, Camilo, Júlio Dinis, Ramalho, Alberto Pimentel, Junqueiro, Raul Brandão e António Nobre, só por exemplo e ordem cronológica; além, claro, do justamente homenageado Vasco Graça Moura.

Pedidos e encomendas, como costume, para bibliographias@gmail.com.

Sobre «livros digitais»


i - A facilidade e a velocidade com que por estas bandas se ensaia e consegue estabelecer, em  plenos senhorio e domínio, fórmulas absurdas, para não dizer parvas, chegam a exasperar um santo. Há meia dúzia de anos que a tão parolinha, tão portuga, tão logo deslumbrada vertigem tecnológica nos martela olhos e ouvidos da peregrina expressão «livros digitais», embebida na conversa do costume: que os «livros em papel» vão acabar, que o futuro é radioso mas da radiação de um ecran de computador (ou de outro qualquer aparelho assim mesmo digital), bla bla bla. Alguma caridosa alma bem poderia explicar -  pelo menos, à luminária que para cá tenha importado da americana o discurso - que dizer «livros digitais» faz o tanto sentido de «livros telefónicos», ou «livros gira-discos», ou «livros televisivos», ou «livros rádio», ou «livros filme», ou o diabo-a-quatro. Nenhum, isso.
 
ii - Mais do que qualquer outra palavra que agora lembre, se comparável existe, «livro» designa em simultâneo ideia e matéria, substância e forma, conteúdo e continente. Chamamos livro à criação mental como ao suporte em que se vem a plasmar, sempre o mesmo, mais que sejam as variantes: conjunto de folhas de papel agrupadas em cadernos que se reúnem num corpo único, hoje em dia (até ao séc.XIX, inclusivé, não necessariamente) quase sempre coberto, por uma folha ou por cartão, recoberto ou não de material acrescido - tecido, pele, etc. É, em grande parte, esse monismo mais do que linguístico, essa duplicidade unificada em linguagem e em cosa mentale que o tornam objecto de devoção sem par. Não como a arte, que por inteiro consubstancia a ideia na matéria; ou a música, que pelo contrário nem chega a depender de qualquer das formas reprodutoras que a manifestam em diferido, quase até à indiferença.

Herberto Helder ― Os Passos em Volta

Editorial Estampa (1970). In-8º de 165, [3] págs. Br.

Terceira das tantas edições que o livro continua a contar até hoje, impressa sobre bom papel levemente avergoado, com arranjo gráfico de Alda Rosa e a capa ilustrada em trabalho conjunto por José Brandão e Keith Trickett; publicada na série «Novas Direcções», de que foi o segundo título a sair. Em relação às predecessoras, de 1963 e 1964, acrescenta mais alguns textos (esta prosa contínua tem sido, como se sabe, work in progress): o famoso «Poeta Obscuro», por exemplo.

Pertenceu o exemplar ao bibliófilo José Sá de Frias, dele tendo aposta ligeiríssima assinatura sobre a primeira folha de texto.
 
18€  

Júlio Dantas ― Le Réveillon des Cardinaux

Le Réveillon des Cardinaux (traduction française de Celestino Soares)

Lisbonne: J. A. Rodrigues & C.ie, éditeurs. 1926. In-4º de 31, [1] págs. + [2] ff. ilust. Br.

Edição especial d'A Ceia com o texto em francês, dedicada pelos editores à memória dos actores Eduardo Brazão, João e Augusto Rosa. O volume inclui duas folhas destacadas de papel couché, uma delas reproduzindo um retrato do autor.

Exemplar sem defeitos de nota.

15€
“Por fim, encontrara o inimigo – o heroísmo hipócrita que envia os outros para a morte e para o sofrimento, o optimismo barato dos palradores políticos ou militares, que com o espantalho da vitória prolongam a catástrofe, aplaudidos pelo coro dos vendilhões que Werfel muito justamente, nas suas belas estrofes, apodou de Wortemacher des Krieges. Eram esses indignos vendilhões que logo acoimavam de pessimista quem tivesse a coragem de perturbar a sua digestão patrioteira, e acusavam de ignominiosa traição o estigmatizar a guerra, à qual de resto nunca iam.”

(Stefan Zweig, O Mundo de Ontem: Memórias de um Europeu) 

Silva Tavares ― Trincheiras de Portugal

Lisboa, Domingos & Franco – Editores / Livraria Lisbonense. MCMXIX. In-8º de 82, [4] págs. Br. 

Livro escrito para cantar “os rasgos do nosso Povo e, nomeadamente, a sua expressão de alto sacrifício e heroicidade, na grande guerra, que assolou o mundo”, do escritor que mais tarde muito se celebraria pelas canções compostas para Amália e para Alfredo Marceneiro, entre outros. Primeira das várias edições, esmerada e de extraordinário apuro gráfico, impressa a duas cores sobre bom papel de linho; com tiragem limitada a 1000 exemplares, todos numerados e assinados pelo autor (se não se tratou, como julgo que não, de uma série especial por declarar).
 
Exemplar em muitíssimo bom estado, quase impecável.
 
23€
"A loucura tomava proporções cada vez mais assustadoras. Aqui era uma cozinheira, atarefada à volta do fogão, e que, apesar de nunca haver saído da sua terra e desde os tempos da escola nunca mais ter pegado numa geografia, acreditava que a Áustria não podia existir sem Sandschak - pequena região perdida em qualquer parte da fronteira da Bósnia. Mais além, apareciam cocheiros disputando acaloradamente em plena rua acerca da indemnização que se deveria impor à França,  Uns optavam por cinquenta biliões; outros exigiam cem; mas nenhum tinha uma ideia bastante clara acerca do que fosse realmente um bilião. Não havia excepções porque o histerismo do ódio penetrara em toda a parte. Chegara ao altar e até os próprios socialistas, que um mês antes declaravam o militarismo a maior de todas as monstruosidades, vozeavam mais que os outros para não se verem classificados de «homens sem Pátria»"

(Stefan Zweig, O Mundo de Ontem: Memórias de um Europeu)

Aires de Ornelas ― O Ultramar Portuguez

O Ultramar Portuguez (O que foi e o que é perante o conflicto actual)

Porto: Companhia Portugueza Editora. 1918. In-4º de 117, [3] págs. Br.

Primeira edição, invulgar. Integra uma extensa nota introdutória (em que defendia o autor ser o ultramar a “razão de ser da nossa existencia como nação independente e razão de ser da nossa historica alliança” e, do mesmo passo, a própria justificação da entrada portuguesa no conflito mundial) e os capítulos «A Expansão», «Alcacer Kibir e a perda do poder naval», «A Restauração e o Brazil» e «A Africa e o problema actual».

Exemplar em muito bom estado no miolo – descontando pontuais e ligeiras marcas de acidez – mas prejudicado pelos rasgões (com uma significativa falha de papel à frente) na capa. A encadernação será, mais tarde ou mais cedo, aconselhável.

16€
"Analisando com serenidade quais as razões que lançaram a Europa de 1914 na voragem da guerra, verifica-se que não havia nenhuma suficientemente forte. Não existiam ideias em luta e quase nem sequer havia problemas de fronteiras a solucionar. Não encontro outra justificação para esse drama senão a de ter sido a própria força acumulada por aquele extraordinário dinamismo de quarenta anos de paz que teve necessidade de uma válvula de escape. De repente, um determinado país começou a observar que era forte, mas esquecia-se de que os outros também faziam semelhantes reflexões. E esboçou-se uma geral vontade de expansão, à custa dos vizinhos, naturalmente. O mais lamentável é que aquilo que constituía o nosso maior título de glória, o sentimento da nossa solidariedade colectiva, foi precisamente o que mais nos traiu." 

(Stefan Zweig, O Mundo de Ontem: Memórias de um Europeu)

Guerra Junqueiro ― O Monstro Alemão (Atila e Joana d'Arc)

Porto, Edição da Junta Patriótica do Norte, 1918. In-8º de 20, [2] págs. Br.

Opúsculo publicado pela instituição sediada no Porto a assinalar o fim da 1ª Guerra Mundial – e cujo produto de venda se destinou precisamente, como de costume, à assistência aos órfãos de guerra. A pedido da Junta, Junqueiro enviou, desde Barca d’Alva, este seu artigo inédito escrito no ano anterior.
O texto, ao habitual estilo dele – verboso, proclamatório –, é um violento libelo contra a Alemanha de Bismarck (e, de caminho, contra Hegel, contra Nietzsche…) e o ideal de pan-germanismo que desembocou na Grande Guerra. Atacando uma certa psicologia alemã, contrapõe-lhe a cultura francesa que defende e a que dedica o ensaio: a “França heroica e redemptora”, a “mãe sublime de Joana d’Arc”, o “coração do mundo”, etc. 
 
10€ 

João Grave ― Os Sacrificados (Contos da Guerra)

Livraria Chardron, de Lélo & Irmão, editores. R. das Carmelitas, 144. Porto. [S/d – 1917?]. In-8º peq. de [4], 197, [5] págs. Enc.

Saída dos prelos da Imprensa Moderna para integrar a conhecida «Colecção Lusitânia», da Lello, foi esta a primeira edição do livro, escrito (ou, pelo menos, acabado) em Miramar, praia que não terá contribuído assim tantas vezes para a literatura portuguesa: ao contrário, nesse tempo, da experimentadíssima Leça e até da quase já vizinha Espinho. Engloba os contos «Um sonho de epopeia», «Um drama na noite», «A maior dôr», «O amputado», «A morte da catedral», «Do terror ao heroísmo», «O cego», «Carta de longe», «Um drama da invasão», «A cidade assassinada», «Conciliados na morte», «Ressurreição duma alma», «Revelação», «O perdão», «A igualdade na dôr», «A carga de baioneta» e «O diálogo das estátuas».
 
Exemplar bem conservado, mas com leves marcas sobre a frente da capa – como quase sempre nesta série, a sobrecapa perdeu-se.
 
7€

O desenlace previsto da actual Conflagração Europeia

O desenlace previsto da actual Conflagração Europeia: Resposta ao ilustre publicista Bazilio Teles por Mello Freitas (Antigo colaborador de A Voz Publica)

Aveiro: Of. tip. do «Campeão das Provincias». 1916. In-8º peq. de 37, [3] págs. Br.

Mais do que uma resposta aos célebres opúsculos de Basílio Teles sobre o conflito, é este um alardear de citações e informações que, apesar de um tanto gratuito, não deixa de apresentar alguns dados estatísticos com interesse (sobre as nações beligerantes e os seus contingentes); pronunciando-se declaradamente pela vitória da Entente, e criticando as dúvidas que dizia ver no texto do portuense.
Exemplar em bom estado, destacando-se só pequenos vincos e marcas na capa.

10€ 
“Certo dia, ouvi bater à porta da minha casa. Fui abrir e eis que se me deparou um soldado muito pouco marcial. Mas o meu espanto foi enorme quando notei que tinha Rilke na minha frente. Era verdade – Rainer Maria Rilke envergara o uniforme militar !  Adivinhava-se imediatamente que se sentia bem pouco à vontade dentro dele. Parecia que o colarinho lhe apertava o pescoço e estarrecia ante a perspectiva de ter de fazer soar os tacões das botas quando forçado a perfilar-se em frente de qualquer superior. O seu velho desejo de fazer tudo com esmero também então se manifestava, levando-o a cumprir impecavelmente todas as ninharias do regulamento militar. Mas esse desejo infundia-lhe uma constante inquietação. / «Não imagina como desde cadete detesto o uniforme militar. Julgava nunca mais o vestir e eis que, agora, aos quarenta anos, sou obrigado a fazê-lo!». O seu infortúnio durou, porém, pouco tempo, felizmente, pois houve quem o protegesse. Submetido a uma benevolente inspecção médica, foi a breve trecho dispensado”. 

(Stefan Zweig, O Mundo de Ontem: Memórias de um Europeu) 

Scapa Flow, Túmulo da Esquadra Alemã

Scapa Flow, Túmulo da Esquadra Alemã (Traduzido e prefaciado pelo 1.º Tenente de Marinha Américo Cabral)

Depositários: J. Rodrigues & C.ª – Lisboa. (Composto e impresso no Centro Tip. Colonial. 1935). In-8º de XV, [I], 183, [5] págs. Br.

No seu extenso prefácio, que soa a tendencioso (pró-alemão), Américo Cabral resume a história que levou à ordem de afundamento da frota teutónica na baía de Scapa Flow, para que não fosse entregue sem luta ao inimigo. Ordem essa dada precisamente pelo autor, von Reuter, o comandante da esquadra.

Exemplar ainda bastante razoável, posto que prejudicado por ligeiras marcas e pequenos defeitos exteriores.
 
10€

Ernest Johannsen ― Quatro de Infantaria

Quatro de Infantaria: Frente Ocidental - 1918 (Tradução de Nogueira de Brito)

Livraria Renascença / Joaquim Cardoso, Editor – Lisboa. (1930). In-8º de 208, [6], X págs. Br.

Esta versão portuguesa do romance, que teve êxito apreciável, é acompanhada, no final do volume, por um sempre útil catálogo de publicações da época da Livraria Renascença (Ferreira de Castro, Manuel Ribeiro, Blasco Ibañez, etc.).

Belo exemplar, bem conservado e sem qualquer defeito significativo.


10€
“Vivia-se bem, facilmente e sem preocupações nessa Viena de então. Os germanos do norte olhavam para nós, seus vizinhos das margens do Danúbio, mal-humorados e um pouco desdenhosamente. Consideravam que não éramos suficientemente «inteligentes» e que em vez de mantermos rigorosa ordem na nossa maneira de ver, nos permitíamos uma vida de prazer: comíamos bem, divertíamo-nos melhor em festas e teatros e, além disso, tocávamos excelente música. Em vez da «inteligência» alemã, que afinal só tem perturbado e amargurado a existência dos outros povos, em vez da alucinante tendência alemã para suplantar todos os outros e para avançar continuamente, preferíamos nós a conversa agradável e amena e um tanto afável, deixando que, num espírito de bondosa tolerância que talvez tivesse um pouco de negligência, cada qual vivesse à sua maneira (...) Ricos e pobres, checos e alemães, judeus e cristãos todos viviam em paz, apesar de algumas e eventuais divergências. Na Áustria, até os próprios movimentos políticos e sociais estavam isentos daquele ódio brutal que só mais tarde, como resíduo venenoso da primeira grande guerra, haveria de penetrar nos hábitos e nos costumes da época”
 
(Stefan Zweig, O Mundo de Ontem: Memórias de um Europeu)