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Ramalho Ortigão ― Quatro grandes figuras literárias

Quatro grandes figuras literarias: Camões – Garrett – Camilo e Eça (2.ª Edição)

Emprêsa Literária Fluminense, L,da (125, Rua dos Retroseiros, 125) / Lisboa. In-8º de 185, [3] págs. Br.

Ocupa praticamente dois terços do volume o texto sobre Camões, nem mais nem menos o conhecido prefácio à edição do tri-centenário promovida pelo Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro; também ainda extenso o dedicado a Camilo, esse como prefácio da edição monumental do Amor de Perdição; sendo os outros dois meros discursos circunstanciais (pedido de transladação dos ossos de Garrett para o Panteão e leitura feita na inauguração do monumento a Eça em Lisboa), mais retórica que outra coisa.
Edição inaugural da série «Obras completas de Ramalho Ortigão».
 
12€

Ramalho Ortigão ― Em Paris

Emprêsa Literária Fluminense, L.da (125, Rua dos Retroseiros, 125) / Lisboa. In-8º de 263, [1] págs. Br.
 
“Hoje em dia um viajante que se não apeie d’um balão com notícias da lua, precisa de nos ser muito simpatico para o não termos por um semsaborão quando vier contar o que viu. Este mundo está visto e revisto.”, avisava Ramalho ainda a bordo, tendo depois já em terra firme composto os capítulos «No asfalto parisiense», «Uma visita a Ferdinand Denis», «O doutor Véron – O necrologio – Os cabeças de turco», «Jantares e jantantes», «A parisiense», «Ponson du Terrail», «O «petit crevé»» e «A mocidade».
 
10€

Hemetério Arantes ― Ramalho Ortigão

1915 – Livraria Ferreira, Ferreira L.da – Editores / Lisboa. In-8º gr. de 36, [2] págs. Enc.

Dedicado a Sabugosa e a António Cândido – ainda dois «Vencidos da Vida» –, o ensaio, palavrosamente monótono e bastante escusado, parece pretender uma qualquer coroa de glória na hipótese que alega de mesmo os que toma, em disparate, como mais encarniçados iconoclastas de uma época (o próprio Ramalho, Eça, Junqueiro, Oliveira Martins, Antero, Fialho, etc.; ficando por perceber como caberiam o terceiro e o quinto na tese...) se converterem, com a maturidade e a senescência, ao princípio conservador, quando não mesmo monárquico e católico; parecendo também ter sido escrito e publicado mais para fazer «currículo» do que outra coisa, qualquer que fosse. Posto tudo o dito, invulgar.

Exemplar encadernado em percalina gravada a ouro sobre a lombada, com a frente da capa original.
 
 
15€

Júlio de Sousa e Costa — Ramalho Ortigão: Memórias do seu Tempo

Edição Romano Torres ―― Lisboa. [S/d]. In-8º de 220, [4] págs. Br. 
  
 
Destas memórias, redigidas por alguém que dizia ter convivido de perto com o escritor entre 1895 e 1915, ano em que morreu, foram os capítulos «Os políticos do seu tempo», «Ramalho duelista», «O crítico», «Ramalho e o seu amigo Eça de Queiroz», «Ramalho e Camilo», O Conselheiro Pacheco», «O Rei, seu amigo», «Ramalho e João Franco», «Os «Vencidos da Vida»», «Guerra Junqueiro», «Após o «Cinco de Outubro»», «Os detractores», «A Juliana do «Primo Basílio»», «O «Padre Amaro» e as opiniões de Ramalho», «As «Farpas»» e «Nos últimos anos». Extra-texto, reproduz-se uma fotografia dos Vencidos da Vida (dada como completa, com os onze cavalheiros, menos conhecida do que aquela em que aparecem dez; uma e outra, sem Antero, que aparece na mais famosa de todas, com os cinco elementos mais célebres: ele mesmo, Eça, Oliveira Martins, Junqueiro e o próprio Ramalho).

Bom exemplar, sem defeitos significativos, só a capa estando ligeiramente marcada por acidez. 


15€

História do Futuro (VI)

A doença da escrita, o mal d'écrire, como lhe chamam em França, ataca indistintamente toda a gente, sem diferença de idade, nem de sexo, nem de caligrafia, nem de coisa nenhuma, - pessoas vacinadas e por vacinar, livres do recrutamento ou ainda sujeitas ao tributo de sangue, com folha corrida ou sem haverem corrido essa folha, sãos como sãos, doentes como doentes, em maca, ou pelo seu pé. É a grande epidemia cerebral do nosso fim de século, caracterizada pelas hemoptises da tinta, pelo vómito negro da prosa. E o grande horror deste contágio, é que o contaminado engorda na mesma peçonha que destila, e, maçando em tão prodigiosa maneira os outros, nem morre, como tanto seria para desejar, nem sequer sofre nada ele mesmo; antes se tem notado, com estupefacção, que quem pior escreve melhor passa!
 
Ramalho Ortigão, «Carta a D. Guiomar Torrezão», 1892 (Almanach das Senhoras para 1893). A prosa é de há 123 anos. Não viu o homem da missa a metade. A bem dizer, não viu nem um décimo.

António Cruz ― Vélho Burgo

Vélho Burgo (alguns aspectos, figuras e casos do Porto Antigo)
 
Livraria Simões Lopes, Porto. (1953). In-8º gr. de XXIII, [I], 143, [3] págs. Br.
 
“Um roteiro do vélho Porto há-de ser um desfiar continuado e vivo dos muitos feitos da gente da terra, qual deles o mais nobre e cada um evocado no sítio próprio. De modo que um roteiro assim não será mais que uma evocação constante, ungida toda ela de graça e beleza. Há-de ser o palco animado e alacre da vida de muitos séculos, – daquela vida singular que se desenrolou e foi vivida para lá da cerca das muralhas construídas em épocas diversas”. Alguns dos capítulos: «Quando o Porto socorreu Lisboa (1384)», «O Infante da Ribeira», «Pero Vaz de Caminha, cidadão do Porto», «Evocação do Poeta Dirceu», «Touradas no Porto em 1793», «Das barcas-de-passagem à ponte pênsil», «Memórias do Porto setecentista»; sendo os quatro finais dedicados a Roquemont, Ramalho, Junqueiro e Agostinho de Campos.
 
Embora de resto bem conservado, prejudica o exemplar uma praticamente omnipresente marca de humidade à cabeça das folhas.
 
15€

António Cruz — Tomás António Gonzaga

Tomás António Gonzaga: algumas notas biográficas e outras páginas, por António Cruz

MCMXLIV - Livraria Fernando Machado. In-8º de 71, [1] págs. Br.

Edição original de um dos poucos estudos que em Portugal se votaram ao autor de «Marília», aqui dedicado a António Ferro e inaugurando a série «Figuras Literárias do Pôrto». Ilustrado em folhas extra-texto de papel couché por gravuras com a reprodução de estampas várias (um retrato de Gonzaga e duas vistas de Miragaia nos sécs. XVIII e XIX), do assento de baptismo e da casa de nascimento do biografado, o livro, à parte o lado mais propriamente biográfico, interessa muito pela evocação histórica do Porto dessa época - explicava António Cruz no prefácio que as notas aqui deixadas resultaram justamente de apontamentos avulsos tomados nas suas investigações acerca da história da cidade.
 
Exemplar valorizado por uma dedicatória manuscrita de oferta de Cruz "Ao António Brochado, com um abraço de bôa amizade e com a mta. admiração pelo seu belo espírito".
 
23€

Artur de Magalhães Basto — Silva de Historia e Arte (Notícias Portucalenses)

Silva de Historia e Arte (Notícias Portucalenses) / Mestres de pedraria, carpintaria, escultura e ensamblagem. Pintores. A Sé do Pôrto e seus anexos. Mosteiros. Igrejas e Capelas. A Tôrre de Pero Sem. Calmels e o monumento a D. Pedro IV. O Pôrto como meio musical.

Editora – Livraria Progredior de Manuel Pereira & C.ª. Pôrto. In-8º gr. de VI, [II], 359, [1] págs. Br.

Primeira edição, já consideravelmente invulgar, de um livro fundamental para a bibliografia do Porto. Além de todos os muitos capítulos incluídos nas secções indicadas no complemento de título, apresenta ainda mais três num apêndice final: I – Documentos quatrocentistas a respeito da Capela de João Gordo; II – A Foz do Douro, couto do Mosteiro de Santo Tirso; III – A «Tôrre de Pero Sem». Numerosas estampas alusivas foram gravadas em folhas destacadas de papel couché.
 
Bom exemplar, sem defeitos dignos de realce.
 
30€

Bernardo Xavier Coutinho — Sousa Viterbo

F. M. de Sousa Viterbo: O Homem - A Obra - A sua Lição

Círculo Dr. José de Figueiredo (Palácio dos Carrancas - Rua de D. Manuel II), Porto. (1947). In-4º peq. de 34, [2] págs. Br.

O opúsculo reproduz o texto da conferência em homenagem ao polígrafo portuense, tendo na capa colada uma gravura com o retrato que dele foi composto por Agostinho Salgado. Tiragem de 500 exemplares numerados - coube a este o nº 87 - e, se assim todos, assinados pelo autor, com indicação de oferta sem o nome do destinatário.

17€
Se o suicídio de Camilo, de que há pouco se tratava, foi o grande trauma activo, o homicídio de Inês de Castro foi o passivo, com consequências literárias propriamente ditas, e como nenhumas outras nas nossas letras. Nenhum outro motivo terá dado ensejo a tanta folha de papel impresso por bandas lusas. Garcia de Resende, Camões, António Ferreira e Francisco Manuel de Melo, já se sabe, entre muita mais gente quinhentista e seiscentista. Bocage, depois. Os principais românticos, estranhamente, passaram-lhe bastante ao lado, o que é tanto mais estranho quanto Garrett (chegou a esboçar um drama, depois de assegurar que "Inês de Castro, o mais belo e poético episódio do riquíssimo romance da história portuguesa, está por tratar ainda") e Camilo teriam feito do tema o que entendessem; também a Geração de 70, já sem estranheza nenhuma. Mas, de aí em diante, a coisa é quase omnipresente, sobretudo falando de indivíduos com alguma ligação, natural, afectiva ou académica, a Coimbra: Eugénio de Castro, António Patrício, Antero de Figueiredo, Lopes Vieira, Rocha Martins, etc. Até nos contemporâneos: Natália, Fiama e Agustina, pelas senhoras, e pelos senhores nem vale a pena começar uma lista que teria início alfabético e apropriado em Alegre, Manuel. Saliente-se só o original tratamento dado por Herberto (que poderia porém ter feito ainda muito melhor) no texto incluso n'Os Passos em Volta.
Desde já se pede desculpa aos nomes úteis, quase todos, pela mistura com inúteis porém famosos, flagrantemente dois.
 
Pouco menos (em certa época, mais) que as lusas, as castelhanas, depois espanholas: aqui ao lado así mismo se fartou de perorar, sobretudo em teatro, como por cá, acerca do drama desta galega criada em Castela com a castelhana Constança. O próprio Quevedo pegou no assunto, e ainda hoje se lhe pega.
Pasmai: até na China e no Japão continua a levar-se à boca de cena versões à moda do extremo oriente.
 
E tal as letras, as artes. De modo mais obsessivo, como costumam. Talvez falhe a memória, que se recorda de dois casos evidentes: o recente defunto Espiga Pinto, com milhentas variações à volta de Inês-loura-cósmica, e Lima de Freitas, com outras numerosas do Rei-Saudade e da Rainha-Morta, um fantasma vivo enlouquecendo do esqueleto do não-fantasma morto.
 
Tudo isto pode parecer um tanto doentio, mas entende-se lindamente. Quem entre desprevenido nesta história nunca mais dela sai.

Eugénio de Castro — Constança

Constança (poema)

Coimbra, na Livraria França Amado. M DCCCC. In-8º peq. de 80, [2] págs. Enc.

Primeira edição, impressa em bom papel de linho; uma das mais valorizadas peças inesianas.

O exemplar foi sobriamente encadernado, apenas com singelas gravações a ouro pontuando a lombada, preservando-se a capa primitiva. Em condição quase impecável, ostenta no rosto uma discreta assinatura de Artur de Almeida Ribeiro, a quem terá pertencido.

40€

Eugénio de Castro — Constança

Constança ∙ Depois da Ceifa ∙ A Sombra do Quadrante

Lumen. (1929). In-8º de 184, [8] págs. Enc.


Edição publicada na série das «Obras Poéticas de Eugénio de Castro» levada a cabo pela editora coimbrã; a segunda, salvo erro, de Constança. Transcreve, à laia de prefácio, o texto crítico que ao poeta dedicara Miguel de Unamuno (saído em La Nación e depois compilado no volume Por Tierras de Portugal y España).

Exemplar revestido de uma boa encadernação com cantos e lombada em pele gravada a ouro e as pastas em marmoreado de tons verdes, preservando ambas as faces da capa primitiva.


20€

Eugénio de Castro — Constança

 Constança / com um desenho de Giovannino de’ Grassi

(Janeiro / 1981, executado na Inova / Artes Gráficas – Porto). In-4º de 38, [2] págs. Br.

Volume publicado no figurino habitual desta série «o oiro do dia», com a capa em cartolina dobrada com rebordo lateral e a «plaquette» em folha solta de papel couché. Tiragem limitada de 250 exemplares, tendo a este – em muito bom estado global, mas ligeiramente esfolado sobre a base da capa inferior – cabido o n.º133.

15€

Excursões no Centro de Portugal

Excursões no Centro de Portugal / por / Dr. Vergílio Correia, Dr. A. de Amorim Girão, Dr. Torquato de Souza Soares, Professores da Faculdade de Letras

Publicação subsidiada pelo Instituto para a Alta Cultura. Coímbra / 1939. (Composição e impressão: Companhia Editora do Minho, Barcelos). In-8º de 160, [2] págs. + [1] desd. Br. 

Vão já rareando os exemplares desta interessantíssima publicação da Faculdade de Letras da UC, preparada como espécie de roteiro para os seus cursos de férias, impressa em papel couché com abundantes gravuras das oficinas de Marques Abreu a partir de fotografias do acervo do próprio e das casas também portuenses Alvão e Beleza. Os textos são sobretudo de Vergílio Correia (notas de arte, história da arte e arqueologia, na maior parte) e de Amorim Girão (notas geográficas), aparecendo mais esporádica a contribuição de Torquato de Sousa Soares, que quase só alinhou breves capítulos de apontamentos históricos. No final do volume, apresenta-se em folha desdobrável um mapa com o «itinerário das excursões», que este exemplar – em muito bom estado no miolo, porém já relativamente frágil em relação ao encaixe – conserva.

25€ 

Coimbra e António Nobre: Homenagem ao Poeta

Coimbra: Edição da Biblioteca Municipal. 1940. In-4º de 93, [5] págs. Br.

Álbum publicado por ocasião e para registo da homenagem que em 1939 fôra dedicada a Nobre, sob a iniciativa do escritor Alberto de Oliveira, seu condiscípulo e amigo principal (à época, influente diplomata, de fácil movimento por entre os círculos do poder político do Estado Novo). Impresso em bom papel nas Oficinas Gráficas da Coimbra Editora, com várias folhas à parte, de papel couché, reproduzindo por exemplo um retrato do poeta em traje académico, a sua «Torre de Anto» (num desenho de António Vitorino que ilustra também a capa), o busto no Penedo da Saudade e fotografias das cerimónias em questão, integra os textos – em verso e prosa – que nela foram lidos, escritos na maioria por contemporâneos na cidade, alguns deles então presentes na homenagem: Eugénio de Castro (apesar das primitivas desavenças, mas deixando em entrevista, ainda assim, pequenas «bicadas»), Afonso Lopes Vieira, Alberto Osório de Castro, António Correia de Oliveira, Pedro Homem de Melo e o próprio Alberto de Oliveira; os que saíram, antes e depois, na imprensa, da pena de Augusto de Castro, Júlio Dantas, João de Castro, Agostinho de Campos, Antero de Figueiredo, Júlio Brandão, Sousa Costa (quase todos igualmente conviventes com o poeta durante a estadia coimbrã); fornecendo o conjunto muitos apontamentos de interesse para a biografia do autor do .

Exemplar ainda em bom estado, só prejudicado por vestígios de acidez – mais pronunciados na capa, que apresenta também um pequeno rasgão – e picos ínfimos nas folhas finais. 

25€

Pedro Dias — Coimbra: Arte e História (os monumentos)

Paisagem Editora. Porto. 1983. In-8º gr. de 216, [4] págs. Br. 

Ampla monografia sobre a capital do Mondego, muito ilustrada ao longo do volume pela reprodução de gravuras, litografias e plantas antigas (sécs. XVIII e XIX) e de numerosas fotografias recentes dos monumentos e lugares tratados. Ao texto preliminar sobre «A evolução do espaço urbano» desde a Antiguidade até ao séc.XX sucede o longo «Roteiro de Coimbra», com passagens por todos os principais pontos da cidade (cuja história é sempre contada): Universidade, Sé Nova e Sé Velha, Museu Machado de Castro, Torre do Anto, Almedina, Praça Velha, Santa Cruz, Pátio da Inquisição, Jardim Botânico, Penedo da Saudade, Santa Teresa, Celas, Santa Clara, Portugal dos Pequenitos, etc.
 
Exemplar impoluto.
 
25€

Tomás de Noronha — De Capa e Batina

De Capa e Batina / O Pad-Zé, ditos e partidas do grande boémio / Historietas e tipos daquêles tempos de Coimbra. As mais eminentes figuras da monarquia e da república surpreendidas sob a capa de estudante
 
Lisboa: J. Rodrigues & C.ª (186, Rua do Ouro, 188), 1928. In-8º de 278, [2] págs. Enc.
 
Já dele gracioso q.b., o interesse principal do livro será decerto o vasto repositório de engraçadíssimas situações envolvendo o célebre Pad-Zé, figuraço de estúrdia e de irreverência. Alguns dos capítulos: «No Teatro Circo», «A Princêsa Ratazzi em Coimbra», «A ida ao Porto por ocasião do centenário de Almeida Garrett» (uma delícia), «A polícia de Coimbra e o Pad-Zé», «O Cisne do Mondêgo».
Exemplar encadernado à época com cantos e lombada em percalina e as pastas forradas a papel fantasia. Apresentando ligeiros defeitos superficiais, pertenceu ao tenente Pina Cabral, um dos oficiais do Corpo Expedicionário Português na Flandres, que lhe apôs a assinatura na folha de guarda preliminar.
 
15€

António Macedo — Da Academia do Meu Tempo

Da Academia do Meu Tempo aos Estudantes de Amanhã (Conferência lida em 16 de Maio de 1945, no Salão da Faculdade de Letras, a convite da Associação Académica de Coimbra)

1945 (depositária: Livraria Internacional, Pôrto). In-8º de 64 págs. Br.

Editado pelo próprio autor, foi este o segundo título que fez sair; tendo valorizado o exemplar com uma afectuosa dedicatória de oferta manuscrita a Pina Cabral. Consagrado a Mário Cal Brandão e Eduardo Ralha (ambos portuenses, ambos opositores do Estado Novo), por um lado, e a Salgado Zenha (também opositor, que dispensará apresentações), por outro, teve deste último um extensíssimo posfácio.

10€

António Vasconcelos — O sêlo medieval da Universidade portuguesa

Coimbra: Oficinas da Coimbra Editora, Limitada. M·DCCCC·XXXVIII. In-4º de 121, [3], XXXIV, [VIII] págs. Br.

Boa edição, valorizada em especial pela longa série de gravuras da responsabilidade de Marques Abreu, que as fez imprimir, no fim do volume, sobre folhas resguardadas por papel vegetal. O estudo do autor, além de naturalmente fértil em notas relativas a esfragística (inclusive, comparada, dando nota de usos e tipos de academias estrangeiras pelo tempo adiante), exibe ainda apontamentos de vária sorte acerca da história da Universidade de Coimbra.

Exemplar da série de 450 impressos em papel vergé – outra houve, mais restrita, de 50 em papel de linho. Bem conservado no miolo, mas prejudicado pelas manchas da capa.

25€

Teixeira de Carvalho — Cerâmica Coimbrã

A Cerâmica Coimbrã no século XVI / pelo Dr. J. M. Teixeira de Carvalho (Vogal do Conselho de Arte Nacional, Professor de Estética e História da Arte na Universidade de Coimbra)

Coimbra – Imprensa da Universidade, MCMXXI. In-8º de 247, [5] págs. + [15] ff. de estampa. Enc.


Primeira edição, já bastante invulgar; graficamente cuidada, ornada por elegantes vinhetas de frontão e letras capitais nas páginas capitulares, e enriquecida ainda pela série de gravuras distribuídas por folhas destacadas saídas dos ateliers de Marques Abreu, no Porto.

Aparado à cabeça, o exemplar foi revestido de uma sumptuosa encadernação completa em pele mosqueada, com gravações a ouro aplicadas sobre a lombada e a cercadura inteira sobre ambas as pastas; tendo o encadernador mantido a frente da capa original.  

38€

Portugal, país de suicidas

Foi o grande episódio de choque - quanto a personagens activas, e não a motes, bem entendido - da história da literatura portuguesa. A 1 de Junho de 1890, Camilo Castelo Branco encostava um revólver à própria cabeça e desfechava-lhe um tiro. Antero de Quental faria pouco depois o mesmo, num suicídio até mais «significativo» pelo que representava de posição pessoal, pessimista, não se esgotando, como o de Camilo, na doença (ainda que esta deva também ter sido determinante). Mas o do Torturado de Seide é o grande abalo, o grande tremor de terra, que só minimamente poderá compreender quem haja a vaga ideia da importância da pessoa de Camilo Castelo Branco na sociedade portuguesa - portuense, sobretudo - da época. Já com duas décadas de retiro minhoto (embora continuasse a vir ao Porto, por regra, todas as semanas), nem assim o homem perdera o carisma e o peso de figurão que lhe asseguraram, até hoje, o dificilmente discutível estatuto de mais importante cidadão da Invicta - nascido por engano em Lisboa, "como se Maomé nascesse na Gronelândia", segundo a certeira comparação invertida de Pascoaes. Conheceu a glória ainda em vida, e foi ainda em vida seguramente o mais lido (em Portugal) escritor português de todos os tempos. Espantava-se, por isso, Fialho, vindo de Lisboa de propósito para o funeral, ao dar com um cortejo fúnebre quase às moscas. Não conhecia uma das mais inveteradas características portuenses: o ressentimento. De fachada granítica, como o casario. Camilo, por várias e complexas razões que não vamos agora aqui tratar, teve sempre com o Porto (a cidade que o pôs a ferros, recorde-se) uma encarniçada relação de amor-ódio, típica de certas paixões fatais. E fartou-se de lhe vergastar, com a temível pena, a população, mesmo se logo a seguir, noutro romance ou noutra novela, a louvava e levava aos píncaros. É um portuense que escreve isto, e qualquer outro portuense o perceberá: o povo que o castigou com a ausência e o deixou ir a enterrar sozinho, enquanto repetia pelas ruas "Morreu? Já não era sem tempo", foi o mesmo que se há-de ter fechado em casa a chorá-lo noites a fio.

O que acontecera nesse primeiro de Junho para levar a São Miguel de Seide o draconiano demónio do suicídio foi, conforme se saberá, a aguardada visita de Edmundo Machado, médico aveirense então reputadíssimo e tido por milagreiro na oftalmologia. Perguntando-lhe o romancista pelo diagnóstico, respondeu o clínico que repousasse e fosse tomar uns ares ao Gerês, por exemplo. Camilo, que de parvo não tinha nada, tendo por outro lado os seus rudimentos de medicina, não precisou ouvir mais. Quando Ana Augusta encaminhava o visitante para a saída, ouviu um tiro, dado nesta fotografada sala.

Foi como segue, actualizada na ortografia, a célebre carta de Camilo convocando Edmundo Machado: "Sou o cadáver representante de um nome que teve alguma reputação gloriosa neste país durante 40 anos de trabalho. Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego. Ainda há quinze dias podia ver cingir-se a um dedo das minhas mãos uma flâmula escarlate. Depois, sobreveio uma forte oftalmia que me alastrou as córneas de tarjas sanguíneas. Há poucas horas ouvi ler no «Comércio do Porto» o nome de V.Ex.ª. Senti na alma uma extraordinária vibração de esperança. Poderá V.Ex.ª salvar-me? Se eu pudesse, se uma quase paralisia me não tivesse acorrentado a uma cadeira, iria procurá-lo. Não posso. Mas poderá V.Ex.ª dizer-me o que devo esperar desta irrupção sanguínea nuns olhos em que não havia até há pouco uma gota de sangue? Digne-se V.Ex.ª perdoar à infelicidade estas perguntas feitas tão sem cerimónia por um homem que não conhece."

O maior novelista português morreu há 125 anos e ninguém parece ter dado conta. Só a APE, embora discreta e também atrasada. E assinalando, de passagem, no seu comunicado que ele escreveu bastantinho, "ultrapassando, largamente, uma centena de títulos". Oh, senhores, ponham "largamente" nisso. Assim de repente, as centenas foram mais de três...
(Todas à luz da mera flâmula escarlate. Isto explica alguma coisa.)

Feira do Livro de Coimbra

Começa amanhã a «Feira Cultural de Coimbra», com pavilhão de bibliographias - cuja montra apresentará uma selecção de espécimes da bibliografia coimbrã, devidamente recenseada num boletim distribuído durante o certame. Até domingo, 7 de Junho.

Lisbon (Photos and Text: Manfred Hamm • Werner Radasewski)

Nicolaische Verlagsbuchhandlung Berlin. (1989). In-8º gr. quadrado de 136, [4] págs. Enc.

Segunda edição, revista, publicada em língua inglesa a partir da versão original, em língua alemã, dada a lume no ano anterior. Como habitualmente nesta série de monografias da editora berlinense, integra textos explicativos – aqui, demasiado superficiais, genéricos e assentes em lugares-comuns por vezes disparatados, mas cumprindo a função principal de divulgação – de Radasewsky em cada capítulo e, desta vez, as belíssimas e originais fotografias de Manfred Hamm, compreendendo a paisagem, monumentos, interiores e todo o género de elementos decorativos típicos. Do índice («Lisbon and its Surroundings»): «Viewpoints», «In the East and North», «In the West and South», «Outwards to the Atlantic (The Lisboan Coast and Nothern Surroundings)», «Outwards to the Península da Arrábida (Lisbon’s Southern Surroundings)».

Encadernação do editor, com sobrecapa ilustrada.

15€

Júlio Dantas — Lisboa dos Nossos Avós

Lisboa – 1966. (Composto e impresso nas oficinas da Gráfica Santelmo). In-4º de 280, [4] págs. Br.

Dada a lume na série «Publicações Culturais da Câmara Municipal de Lisboa», a edição inclui, de início, um retrato do autor (por Eloi) e a sua bibliografia. Alguns dos capítulos: «Tipos das ruas de Lisboa», «As velhas procissões», «Os cafés lisboetas», «As feiras», «Figuras pombalinas», A vida lisboeta no segundo quartel do século XIX», «Escândalos de bastidores do século XVIII», «Modas», «As meninas».
 
25€

Norberto de Araújo — Legendas de Lisboa

SPN. 1943. In-4º de 215, [7] págs. Br.

Primeira edição de um dos principais «clássicos» olisiponenses, impressa em grande formato, com desenhos de Martins Barata a ilustrar as amplas letras capitais. Capítulos divididos em duas partes: I – Trono de Santo António; II – Alma Cândida das Ruas.
Exemplar um tanto prejudicado na capa, com ligeiras manchas, pequenos rasgões e até, na lombada, algumas falhas de papel; tendo o miolo, pelo contrário, em muito bom estado, apenas com algum desgaste das folhas de guarda e conservando-se as outras, de um modo geral, bastante limpas.
 
25€

Lisboa e os seus encantos

Lisboa e os seus encantos / texto de: Vasconcelos e Sá; Fernanda de Castro; Matos Sequeira; Luiz Teixeira; Leitão de Barros; Durval Pires de Lima; Azinhal Abelho; Julieta Ferrão; Natércia Freire; Eduardo Freitas da Costa, e Ester Lemos / hors-texte de: Bernardo Marques; Carlos Botelho; Carlos Rafael; Costa Pinheiro; D. Tomaz de Mello (Tom); Leonilde Dias; Manuel Lapa; Manuel Rodrigues; Maria Keil, e Sebastião Rodrigues / Vinhetas de: Costa Pinheiro. / Na capa, pintura de Carlos Botelho

Orientação Gráfica de José Espinho / Composto e Impresso nas Oficinas Gráficas da C. M. L. (1959). In-8º de 124, [2] págs. Br.

Edição de bastante apuro, impressa sobre bom papel e valorizada pelas ilustrações por gravura, dos trabalhos artísticos originais dos pintores mencionados e de fotografias variadas com panoramas da cidade e dos arredores, que seguem, em proporção praticamente semelhante, os textos: «O carácter de Lisboa», «Jardins de Lisboa», «A velha cidade», «Lisboa moderna», «Festas populares de Lisboa», «Monumentos de Lisboa», «Ronda nocturna de Lisboa», «Os museus de Lisboa», «Lisboa, mirante do Tejo», «As realizações da Lisboa moderna» e «Moldura de Lisboa», cujos autores são, pela ordem apresentada, os referidos no complemento de título. A concluir o volume aparece um «Guia prático de Lisboa» com indicações úteis, ainda que hoje, em parte, forçosamente passadas pelo tempo.

25€

Augusto Vieira da Silva — As Freguesias de Lisboa (estudo historico)

Publicações Culturais da Câmara Municipal de Lisboa – 1943. In-4º gr. de 93, [3] págs. Br.

Primeira edição, impressa em grande formato. O longo estudo do autor divide-se nas duas partes principais «A Evolução Paroquial de Lisboa» (mais genérica, oferecendo de resto apontamentos significativos para a história do culto católico em Portugal) e «Notícias Históricas das Freguesias» (resenha das principais ocorrências em cada uma das 54 freguesias desde a data da fundação, normalmente a da igreja matriz respectiva); e tem, no final, como motivo maior de interesse uma útil selecção de bibliografia que inclui títulos vários, hoje quase desconhecidos, dos sécs. XVIII e XIX.


35€

Fialho de Almeida — Lisboa Monumental

Maio – 1957. Lisboa. (Composto e Impresso nas Oficinas Gráficas da Câmara Municipal). In-4º de 44, [4] págs. Br. 

Edição especial, publicada pela própria C.M.L. (e recentemente reeditada), comemorativa do centenário do nascimento de Fialho; reproduzindo, conforme se lê em nota prévia, o artigo saído inicialmente na Ilustração Portuguesa e mais tarde recolhido no volume Barbear, Pentear. Como ponto de maior interesse, apresenta no texto várias gravuras antigas tendo por motivo aspectos da paisagem e de monumentos lisboetas aludidos na prosa.

Bom exemplar.

20€

Arlindo de Sousa — O Nome Lisboa

Publicações da Camara Municipal de Lisboa, 1948. In-8º gr. de [4], 189, [3] págs. Br.

Capítulos: «O Velho Testamento e o nome Lisboa», «Os Gregos e o nome Lisboa», «Os Fenícios e o nome Lisboa», «De Olisipona a Lisboa», etc.; sendo a maior parte do volume depois ocupada com textos vários e transcrições de alguns antigos («Olisipo» nas literaturas latina e grega, na epigrafia romana e em documentos medievais portugueses, «As éguas das campinas do Tejo na literatura latina», «Ulisses e o nome Lisboa», etc.). Inclui ainda uma longa relação final de bibliografia.

Bom exemplar, sem falhas a referir.

23€

História do Futuro (V)


No fundo de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas de dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? — Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já deve andar orçado o número de almas que é preciso vender ao Diabo, o número de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Robert Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro — seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.
Logo a nação mais feliz não é a mais rica. Logo o princípio utilitário é a
mamona da injustiça e da reprovação. Logo...


There are more things in heaven and earth, Horatio
Than are dreamt of in your philosophy

Joseph Gautier & Louis Chapelle — Traité de Composition Decorative

Traité de Composition Decorative /// 865 figures dans le texte, 53 planches hors texte dont I en couleurs / Joseph Gauthier, diplomé de l’État pour l’enseignement de la composition décorative, professeur a l’École des Beaux-Arts de Nantes | Louis Capelle, architecte diplomé par le Gouvernement, professeur a l’École des Beaux-Arts de Nantes

Librairie Plon. (1950). In-8º gr. de [IV], IV, [II], 397, [3] págs. Br.

 
É ainda a edição de origem deste monumental trabalho (que teve primeira impressão em 1910, com reimpressão de sucessivos milheiros ao longo dos anos, distinguíveis por pequenas variações nas cores e linhas da capa), cujo interesse para artistas de figuração mais decorativa e designers permanecerá, até agora, indiscutível. Por importante que o texto possa parecer, o que no volume bastante impressiona são as centenas de desenhos a tinta com que os próprios autores, mãos de mestre, o ilustraram, tornando-o, ele mesmo, um belo objecto artístico.

Compõe-se o tratado dos livros Les Sources décoratives («La Géométrie», «La Flore», «La Faune», «La Figure humaine», «Le Paysage décoratif», «L’Invention et les objects»), Les Lois de la composition décorative («Systèmes décoratifs», «La Répartition du décor», «Le Relief») e Les Applications décoratives («La Pierre, le Marbre», «Le Fer forgé», «Les Arts du Métal», «La Céramique», «La Verrerie, le Vitrail, la Mosaique», «Le Cuir», «Le Bois», «Le Papier peint et la peinture décorative», «Les Tissus», «Tapisserie, Dentelles, Broderies», «Incrustations, Nielles, Marqueterie», «La Couleur»). 

25€

José Gomes Ferreira — Intervenção Sonâmbula

Diabril. 1977. In-8º de 167, [1] págs. Br.

Primeira edição desta recolha de textos publicados por Gomes Ferreira na imprensa da época («O Primeiro de Janeiro», «Diário de Notícias», «Vida Mundial», «O Jornal» e alguma outra), com um prefácio da sua pena em que, depois de fazer o elogio de Vasco Gonçalves (a quem dedica a colectânea), termina pretendendo a revolução “uma Aljubarrota fabulosa em que o povo português ganhasse o Futuro com armas de cristal – as únicas dignas das batalhas límpidas do Socialismo e da Democracia”; do maior interesse para a recriação dos primeiros tempos da vida e da sociedade portuguesa após o 25 de Abril. Inclui, logo a abrir, o curiosíssimo «Decálogo do Verdadeiro Revolucionário (ou que finge que o é)» - “(…) 4º Não contribuas para o saneamento de quem entrou para a Legião, etc., só para arranjar emprego. 5º Perdoa aos baladistas o grande pecado de te impedirem de ouvir boa música (…)”.
 
18€

José Gomes Ferreira — Gaveta de Nuvens

diabril. (1975). In-8º de 238, [2] págs. Br.

Reuniu o autor neste volume textos diversíssimos que foram de 1949 a 1974, e dos quais se poderá destacar alguns prefácios e considerações preliminares hoje mais conhecidos: como os de Folhas Caídas e A Filha do Arcediago e a de Lisboa na Moderna Pintura Portuguesa (intitulada «Lisboa: Talvez o Último Tema dos Figurativos Portugueses»).

Exemplar duplamente valorizado: pela dedicatória “esta gaveta de que espero não ter perdido a chave” manuscrita de oferta a Neves Águas, que lhe apôs o ex-libris, e por conservar o boletim editorial, de Abril de 75, em que o livro era, entre outros mas com destaque, apresentado.

25€

José Gomes Ferreira — Lisboa na moderna pintura portuguesa

artis. (1971). In-8º gr. de 15, [1], V, [III] págs. + [42] ff. de estampa. Enc.

O texto de apresentação de Gomes Ferreira é (mais) uma bela declaração de amor à cidade adoptiva, oferecendo de passagem apontamentos acerca da convivência que teve, na primeira metade do séc. XX, com vários dos principais artistas do tempo. Das estampas, impressas em heliogravura pela Neogravura lisboeta, destacam-se em quantidade trabalhos de Francisco Smith, Abel Manta e sobretudo Carlos Botelho (dito aqui o “pintor oficial de Lisboa”), sendo reproduzidos dois de António Soares, Bernardo Marques e Vieira da Silva e apenas um de gente para o efeito também bastante recomendável: Almada, Barradas, Dourdil, Pomar, Lima de Freitas e Skapinakis, por exemplo. O álbum foi encadernado pela editora em pele e apresenta em cliché, colado na pasta superior, uma reprodução do conhecido óleo de Botelho «Costa do Castelo».

35€

(A ilimitada edição da estupidez)



Ser português e querer evitar ruído, circo e geral histeria: semelhante conjunção parecerá talvez a quadratura do círculo, mas foi o que Herberto Helder (HH) passou a vida a tentar. Em vão. Chegado a velho, quando já quase o conseguira, viu a multidão ocupar-lhe à porta a tenda das “edições limitadas” montada pela imprensa e explorada pelas redes sociais. Depois de morto, antes mesmo do funeral, voltaram a montar-lha, um pouco mais discreta, agora no cemitério. “Mas isto não era dispensável, em nome do bom gosto?”, pergunta aqui o pio leitor. Com certeza que era. A falta de gosto, porém, é o menos nesta história. Comparada à estupidez, mal se nota. Tudo é nisto tão fundamentalmente estúpido que até se torna difícil escolher por onde começar. Experimentemos pelo início.
 

Em 2008, catorze anos passados de naturalíssima retirada, que se chegou a supor definitiva, após Do Mundo, etapa final da obra fixada, HH publica A Faca não Corta o Fogo, ainda sob chancela da Assírio & Alvim – que, no entanto, fôra já apanhada nas malhas da Porto Editora. A tiragem, como era hábito, constou de 3000 exemplares, depressa esgotados. Regressado, este nada pródigo mas prodigioso poeta chegava enfim a uma tão tardia quão duvidosa consagração geral, e estava de repente na moda, mesmo entre quem nunca lhe lera até então um único livro. Começavam aqui os equívocos. E, depois, os protestos, mas ainda muito vagos: a Assírio era uma vaca justissimamente sagrada, a ninguém tão logo ocorrendo arguir-lhe “edições limitadas” em “estratégia comercial”. Pelo que a neófita lamentação se limitou à não reedição do volume, desconhecendo, porque neófita, que o poeta nunca reeditara nenhum de poesia própria (só os da traduzida, e os de prosa). Nada de novo debaixo do céu. São costume estes mal-entendidos entre os convertidos súbitos e a normal cronologia do mundo.