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Eurico de Andrade Alves — Visita ao Seringal «Paraíso»

[S.L.N.D. – 1986?]. In-4º de 116 págs. Br.

Edição publicada «In Memoriam» de Ferreira de Castro, de tipo policopiado e portanto tiragem presumivelmente restrita, agrupando documentação variada – fotografias, crónicas na imprensa, reportagens, excertos críticos, etc. – mas sempre relativa ao escritor de A Selva e Os Emigrantes e/ou ao cenário amazónico em que se moveu quando adolescente, também ele, emigrante (sobretudo, Manaus, o rio Madeira e a cidade de Humaitá, defronte do seringal). Muito redundante/enredada, terá ainda assim, além do interesse propriamente documental, alguns apontamentos (mais biográficos do que bibliográficos) de relevo acerca do romancista; estando este exemplar valorizado por uma dedicatória de oferta manuscrita pelo autor em folha individual colada sobre a de rosto.
 
15€

De-Coração das Casas

[Aquilino Ribeiro, (primeira) mulher, filho e biblioteca; Ferreira de Castro, mulher, filha e biblioteca]

31 de Janeiro

A República republicana teve aqui a sua universidade. Os mestres davam lição como no liceu, peripatetizando. Quem do meu tempo e do Norte não ouviu e viu Guerra Junqueiro, altas horas, com as pontas do seu cache-call a flutuar, e a dizer ao vento da inspiração?
Já tive ensejo de declarar que foram eles os meus mestres de verdade, e me varreram do espírito os miasmas da política ancestral e das ideias fuliginosas professadas através de três dinastias.
Uma fatalidade bio-educacional levou-me para o Sul, mas a doutrina que me aquecia a alma partiu daqui, desses que vingaram a batalha perdida em 31 de Janeiro.

(Aquilino Ribeiro)

Aquilino Ribeiro — Jardim das Tormentas

Livrarias Aillaud e Bertrand. 1923. In-8º de 326, [2]. Enc.

Edição revista do primeiro livro de Aquilino, por ele “corrigido em S.to Amaro de Oeiras, Dezembro de 1922”. Reproduz, da primeira edição (1913), o longo prefácio de Carlos Malheiro Dias – que, nas palavras do próprio, teria como melhor mérito “o facto de demonstrarmos ser possível a dois adversários políticos o darem-se cordialmente as mãos” – e a dedicatória impressa à mulher, a alemã Grete.

Exemplar da série encadernada pelos editores em percalina com relevos e gravações a ouro. Em muito bom estado, com as folhas bastante limpas e sem qualquer defeito de monta.
 
20€  

Aquilino Ribeiro — Estrada de Santiago

Estrada de Santiago (contos)

Livraria Bertrand * Lisboa (6.ª ed.). In-8º de 398, [2] págs. Br.

Exemplar bem conservado, com o papel quase impoluto; apenas na capa apresentando algumas manchas de acidez.
 
10€

Aquilino Ribeiro — Terras do Demo

Lisboa – Livrarias Aillaud e Bertrand (73, Rua Garrett, 75), 1919. In-8º de 316, [2] págs. Br.

Foi a edição original, hoje já consideravelmente invulgar, de um dos mais célebres romances de Aquilino (terceiro livro que publicou) e de dois séculos de ficção portuguesa, no qual, segundo as palavras do próprio autor, “os campónios, vítimas do anátema divino ou da injustiça social, cândidos ou apenas dionisíacos nas horas vagas, a estalar de felícia e lirismo, entraram na história consagrados como quem são: escravos da terra ou dos terra-tenentes, minados de preconceitos e taras, mais propensos ao mal que ao bem”.
O exemplar, do primeiro milhar impresso, está parcialmente desconjuntado, tendo por isso sobre o encaixe um reforço e parecendo aconselhável mais tarde ou mais cedo encaderná-lo.
 
24€ 

Aquilino Ribeiro — Terras do Demo

Terras do Demo: Romance por Aquilino Ribeiro (quarta edição)

Livraria Bertrand ― Livraria Francisco Alves. [S/d]. In-8º de 318, [2] págs. Br.

Na dedicatória a Carlos Malheiro Dias, apresentava-lhe Aquilino o livro dizendo pretender com ele “pintar dessas aldeias montesinhas que moram nos pícotos da Beira, olham a Estrêla, o Caramulo, a cernelha do Douro e, a norte, lhes parece gamela emborcada o Monte-Marão. O vale, que as explora, trata-as despicientemente por Terras do Demo.” 
Exemplar com marcas de acidez na capa e nas folhas preliminares e uma assinatura de propriedade na folha de rosto; de resto, sem defeitos significativos a salientar.

12€

Aquilino Ribeiro — Terras do Demo (romance)

Livraria Bertrand, Amadora. (1963). In-8º de 352, [4] págs. Br.

Edição publicada nas «Obras Completas».
O exemplar conserva a sobrecapa e mantém-se em boa condição, mas prejudicado por uma assinatura na folha de guarda.
 
7€

Aquilino Ribeiro — Andam Faunos pelos Bosques

Andam Faunos pelos Bosques: romance por (...)

Livrarias Aillaud e Bertrand (Paris, Lisboa). (1926). In-8º de XV, [I], 329, [3] págs. Br.

Primeira edição de um dos mais apreciados títulos do autor, com capa de João Abel Manta.
Vale a pena transcrever algumas passagens do prefácio no qual Aquilino dedicava o romance ao igualmente republicano e escritor Brito Camacho (de quem escreveria, recorde-se, uma biografia):
“Ao refundir a minha obra, sinto a tenacidade teimosa, um pouco absurda, talvez indefensàvelmente idealista, dos camponeses da Beira, meus avós, que viviam e morriam no sonho de converter chavascais em floridos vergéis. Êsse meu empenho – seja questão de probidade, seja atavismo da rija e obsessa alma beiroa – é superior ao meu raciocínio, aos raciocínios mais robustos dêste mundo”
[Dizendo aqui terminar o seu primeiro ciclo literário] “Vou descer à urbs, depondo a pena que a crítica suficiente qualificou de regionalista. Em verdade, se regionalista é ter descrito outra coisa que não Lisboa, não reclamo melhor diploma (...)
Quero ainda dizer ao pio leitor – só a êsse – que, melhor que romance, êste livro é uma fábula. Fábula em onze jornadas, tragicómica, sorte de rapsódia pagã em bemol. Sinto que passa nela um sôpro da loucura que vai dobrando a canavial secular das ideas e dos bons costumes. Por aí perde, ou por aí ganha.”
 
O exemplar (do quinto milhar impresso) pertenceu ao tenente Pina Cabral, de quem tem a assinatura carimbada na folha de guarda; em boa condição no miolo, mas exteriormente pouco cuidado, com alguns defeitos.
 
15€

Aquilino Ribeiro — Andam Faunos pelos Bosques

Andam Faunos pelos Bosques: romance por (...)

Livraria Bertrand / (3.ª Ed.) Lisboa. (MCMXXI). In-8º de XV, [I], 339, [1] págs. Br.

Foi a terceira edição (sendo este, no total, o décimo milhar que se imprimiu do livro, já com alterações tipográficas em relação às tiragens iniciais). 
O exemplar ostenta o ex-libris de Adalberto Simões de Carvalho – que não lhe deixou quaisquer outros sinais de uso.
 
15€

Aquilino Ribeiro — Filhas de Babilónia

Livrarias Aillaud e Bertrand. (MCMXXV). In-8º de 299, [5] págs. Enc.

Exemplar do sétimo milhar impresso (corresponde à 3.ª edição), na série especial encadernada pelos editores em percalina conservando a frente da bela capa de publicação – composta por Stuart Carvalhais. Ou por defeito da própria tiragem, ou por ter sido entretanto suprimida (mas não há sinais nítidos disso), não apresenta folha de rosto. 

10€

Aquilino Ribeiro — Maria Benigna/Antecipação

Livraria Bertrand. Lisboa. (1958). In-8º gr. de 349, [3] págs. Br.

O romance «Maria Benigna» foi aqui publicado em segunda edição, sendo a novela «Antecipação» inédita; de ambos falando Aquilino no texto de apresentação ao “Leitor Pio ou Ímpio” que se reproduz nas abas do volume.

Exemplar manchado na capa mas em aceitável estado no miolo, que só acusa alguns vestígios de acidez e o habitual – nesta série – escurecimento das folhas nas margens.
 
8€

Aquilino Ribeiro — Maria Benigna/Antecipação

Livraria Bertrand. Lisboa. (1958). In-8º gr. de 349, [3] págs. + [7] ff. de estampa. Br.
 
Exemplar n.º 16 da série especial de 300 assinados por Aquilino e impressos em melhor papel (incluindo a capa); especialmente valorizados pelas sete estampas  sobre folhas destacadas reproduzindo trabalhos compostos para o efeito pelo pintor e ilustrador setubalense Lima de Freitas. 

38€

Aquilino Ribeiro — Maria Benigna

Lisboa, Livraria Bertrand. (MCMXXXIII). In-8º de 285, [3] págs. Br.

Pimeira edição, com dedicatória impressa a Joaquim Manso, de um livro composto quando o escritor começava o exílio galego.
Exemplar do 5º milhar impresso, na série encadernada pela editora em percalina conservando a face superior da capa de brochura. Dedicatória espúria no anterrosto.
 
20€

Aquilino Ribeiro — S. Banaboião anacoreta e mártir

S. Banaboião anacoreta e mártir. Romance por . Aquilino Ribeiro . / Capa de Clementina C. de Moura.

Livraria Bertrand * Lisboa. (1.ª Edição). [S/d – 1937?]. In-8º de 330 págs. Enc.

No pórtico de dedicatória, escrevia Aquilino “A minha preocupação foi dar o conflito do espiritual e do humano de modo concreto, qual dêles por baixo, qual dêles por cima. (...) S. Banaboião é imaginária pura, velha de oitocentos anos para melhor abstracção, sem menoscabo do factor divino, respeitável por excelência, mas também sem esquecer que os viventes, seja a sua vida real ou pedida à arte, têm raízes na terra”.

Exemplar da série encadernada pelos editores em percalina gravada a dourado na pasta superior e na lombada (aqui, já esbatido, com algum desgaste); conservando a frente da capa de brochura.
 
25€

Aquilino Ribeiro — Oeiras

Oeiras (Coligiu estas notas para ser agradável aos seus amigos de Oeiras, Tenente Coentro, Dr. Sílvio Pélico, Leonino Simões, e seu vizinho Agostinho de Macedo, em Homenagem ainda à terra em que viveu de 1918 a 1927 – Aquilino Ribeiro. Cruz Quebrada, Novembro de 1940.)

(1980. Edição da Câmara Municipal de Oeiras – Assistência Técnica de Alfredo Theodoro / Impressão de Heska Portuguesa – Venda Nova – Amadora). In-8º de 99, [9] págs. Br.

“Com a presente edição da monografia «Oeiras» pretendeu a Câmara Municipal responder às muitas solicitações que lhe vinham sendo feitas e preencher a lacuna deixada pelo esgotamento da 1.ª edição. / Se a intenção imediata foi a de pôr à disposição das crianças e adultos do concelho material para melhor o conhecerem, à decisão da Câmara não foi estranha a excelente qualidade e a notável beleza do texto, que se deve à mão insigne de Aquilino Ribeiro, constituindo certamente a sua obra até hoje menos conhecida e menos divulgada”, rezava a nota preliminar da vereação, bem-intencionada mas equivocada quanto a este último ponto; e que fez tirar do volume 10.000 exemplares, mesmo assim já hoje com mais procura do que oferta; conservando-se este em muito boa condição, salvo uma pequena marca de desgaste na capa, ao alto do encaixe.
Capítulos: «De Lisboa até ao mar», «Oeiras e o seu têrmo», «S. Julião da Barra, Bugio e a Breve História», «A acção progressiva do Marquês», «A quinta e palácio do Marquês de Pombal e outras propriedades do Concelho», «Efemérides e homens notáveis», «Foral da Vila de Oeiras» e «A obra notável duma vereação», que muito se estranhará a um feroz opositor do Estado Novo, mas que talvez se compreenda por este perído em que o município o acolheu durante a II Guerra.
 
10€

Aquilino Ribeiro — Romance da Raposa (ilustrações de Benjamim Rabier)

Livraria Bertrand « Lisboa. (1961). In-8º de 175, [V] págs. Br.

Dedicadas por Aquilino ao primogénito Aníbal, “As aventuras maravilhosas da Salta-Pocinhas — raposeta pintalegreta, senhora de muita treta — contei-tas, sentado tu nos meus joelhos. Contando-tas, veio-me idéia de as escrever. Além de inspirador, colaboraste com teus silêncios, perguntas e interrupções na frágil meada. Que mais não fosse, só por este título o livrinho teria de levar o teu nome. (...) Aí fica, meu homem, no teu sapatinho de Natal esta pequena prenda. Aceita-a com os meus beijos de pai, que ao Menino Jesus vou pedir perdão do pecado, pois que a raposa é matreira, embusteira, ratoneira, e ele apenas costumava brincar com pombas brancas e um branco e inocente cordeirinho.”
Em «Marginália», «Teorias do autor acerca de literatura infantil e dos seus dois livros neste género», reproduzem-se duas curtas entrevistas. Edição publicada na série das «Obras Completas».
 
8€

Aquilino Ribeiro — História do macaco trocista

História do macaco trocista e do elefante que não era para graças (Ilustrações de Luís Filipe de Abreu)

Livraria Bertrand (1962). In-8º de págs. nums. de 27 a 50 + [8] págs. inums. Cart.

Deste livro, da série «Arca de Noé», fôra a edição original publicada pela Sá da Costa ainda na década de 30, com ilustrações de Matos Chaves; sendo esta a segunda, e tendo já várias mais saído entretanto. Ao contrário do que muitas vezes se indica, não é portanto a primeira edição – é apenas a primeira da Bertrand.
Capa cartonada, sofrendo já de algum desgaste. 

10€

Aquilino Ribeiro — Portugueses das Sete Partidas

Portugueses das Sete Partidas (viajantes, aventureiros, trocatintas)

Livraria Bertrand * Lisboa (2.ª edição). [S/d]. In-8º de 362, [2] págs. Br.

O livro compõe-se dos textos – todos naquele típico registo de recriação histórica tomando-se todas as liberdades... – «João Bermudes, mestre-barbeiro e patriarca de Alexandria», «Um príncipe português da pele do Diabo» [o infante Fernando, filho de Sancho I], «Pyrrhus Lusitanus, judeu errante e pinga-amor», «A máscara de pirata de Fernão Mendes Pinto», «António de Andrade, escalador do Himalaia e descobridor do Tibete» e «Jeremelo, expedicionário daquém e dalém-África». Dedicado a João Abel Manta, que com Aquilino coincidira em Paris, o prefácio é dos mais extensos que alguma vez o escritor apresentou.
 
7€

Cavaleiro de Oliveira — O Galante Século XVIII

O Galante Século XVIII (compilou e verteu Aquilino Ribeiro)

Livraria Bertrand * Lisboa (3.ª edição). [S/d]. In-8º de XXIV, 302, [2] págs. Br.

Os textos foram agrupados em secções intituladas por Aquilino «Amor e Amores», «Fidalgos e Fidalguias», «Tradições, Crenças, Fanatismo», «A Mulher do Século XVIII. Belezas e Beldades» e «Médicos, Charlatãis, Mezinheiros».

Exemplar com defeitos vários na capa.
 
7€

Aquilino Ribeiro — Abóboras no Telhado (polémica e crítica)

Livraria Bertrand * Lisboa (3.ª edição). [S/d]. In-8º de 359, [1] págs. Br.

Um dos livros propriamente autobiográficos de Aquilino – certamente o mais auto-bibliográfico, sendo todos os capítulos consagrados às estórias, circunstâncias de publicação e celeumas dos seus trabalhos anteriores, a que ele mesmo faz crítica. Com uma dedicatória impressa a Jaime Cortesão que assim começa: “Dê-me licença, querido amigo, que lhe ofereça esta carrada de abóboras. Dou o que tenho. Faça de conta que lhe trago…os pomos de oiro das Hespérides”.
Inteiramente decalcada da primeira, não é em bom rigor uma nova edição e sim uma nova tiragem, pouco depois publicada.
 
Exemplar por estrear, conservando os cadernos por abrir.
 
10€

Gonçalves Rodrigues — O Cavaleiro de Oliveira, o sr. Aquilino Ribeiro e Eu

Coimbra, 1956. (Composição e impressão das oficinas da «Coimbra Editora, Limitada»). In-8º de 121, [3], CXXX, [IV] págs. Br.

Publicado em edição de autor, este livro foi a defesa do mesmo ao ataque que Aquilino lhe desferira in Abóboras no Telhado (Cap.IV), acusando-o de plágio na sua tese de doutoramento sobre o Cavaleiro de Oliveira – e a que Rodrigues responderia aqui acusando-o a ele do plágio arguido. Metade do volume é ocupado com essa longa e palavrosa (mas às vezes engraçada) resposta; e a outra com um trabalho de Jordão de Freitas e o artigo, do próprio autor, também sobre Xavier de Oliveira, saído na década de 30 na Biblos.
 
Belo exemplar.
 
15€

Raul Brandão, por Aquilino

Estou a vê-lo a subir o Chiado a passos lentos, dobrado e ficando ainda um homem alto, os olhos a azulejar em torno, um bom sorriso nos lábios, pronto a dar-se. Ia reunir-se à sua roda, na Livraria Bertrand ou no Café. Raul Brandão prezava o convívio dos amigos, por quem gostava de ser acarinhado, mas não provocava a blandícia. Com uma bonomia de velho capitão de porto, gozando os ócios e a reforma, sentava-se na Brasileira, geralmente ao fundo se havia lugar. O seu cristianismo era uma espécie de cancela franca, por onde passava cordialmente gente de toda a moral e condição, o rapaz de valor e o patarata, o patife e o honesto,o grego e o troiano. No âmago da consciência diferenciava como ninguém, e ia registando.
À sua mesa quem pagava era invariavelmente ele, como se fosse não uma devoção, mas uma prerrogativa. Era o troco em miúdos à admiração e vénia que lhe tributavam. Não figurava também de senhor da Nespereira?
De modo geral prestava orelha deferente a cortesãos e estafadores. Era homem que sabia ouvir. Quando intervinha, fazia-o com pausa, entrecortadamente. Dir-se-ia que andava longe. Talvez andasse, sim, pelos cemitérios, pela noite escura a arrebanhar fantasmas que haviam de representar no seu guinhol, prodigiosamente evocador. (...)
 
Não era rancoroso, e eu permitia-me nos meus verdores ser impertinente com ele. Por vezes, e era injustiça, punha-lhe na cabeça o carapuço do seu próprio Gabiru. Ele ria, tolerantíssimo, duma tolerância filosófica sem despeitos nem reservas. Era integralmente um santo homem, convencido da fatuidade do bem e do mal, de quanto o esforço humano é vão, e de que tudo à superfície da terra, a começar pela ciência e a arte, é uma espuma falaz. No entanto, a sua posição, sob o ponto de vista de cidadania, era a de combatente duma barricada. Desde que o conheci, e foi durante uma década de anos, não dei conta que se arredasse do parapeito. Batia-se pelos desgraçados, pelos humildes, pelos tristes, pelos que tinham fome e sede de sol, de simpatia ou de pão, simbolizados na mulher da esfrega, na Candidinha malfadada; batia-se e sofria pelos próprios maus, vítimas de uma sociedade iníqua e duma nefasta sina sem remissão. A sua gesta, no livro, na palestra, era a dum revoltado.
A obra de Raul Brandão é altivamente eloquente no que tem de social, por conseguinte de humano. A dor foi sempre o centro planetário da sua arte. Mas não a dor metafísica, pela qual se é fácil cavaleiro, mas a dor individuada, que nos torna solidários e responsáveis com o próximo. A par com esta feição toda evangélica, em literatura era um artista do impressionismo.
Os Pescadores e Portugal Pequenino são duas obras, irroradas de todas as tintas da Primavera e da candura da neve, do melhor que pode ostentar a língua.



[«Camões, Camilo, Eça e Alguns Mais». Percebe-se bem esta de "artista do impressionismo" se Aquilino nunca tiver passado os olhos pelo Humus...]

"Il faut être absolument moderne"

No ano em que se comemoraram 150 do nascimento de Raul Brandão, muito se falou da sua literatura como um modernismo alternativo ao canónico que cá teve epicentro em Lisboa - e que fatalmente ficaria na sombra devido a Fernando Pessoa. Este ponto de vista é curioso pelo que tem de curioso no que está certo, no que está errado e no assim-assim.

Primeiro, note-se que esta «sombra» é a do grande público e da Academia (mas já não da crítica). Porque, de resto, até se pode traçar um evidente paralelo entre a influência mais ou menos assumida que estes dois senhores exerceram respectivamente sobre a prosa e a poesia portuguesas ao longo do século passado.
Se não houve quase nenhum dos nossos grandes poetas que lhe foram posteriores a negar o estro de Pessoa, também não houve um só dos principais prosadores que não afirmasse de forma explícita a dívida a Brandão - Aquilino (que com ele fundou a Seara Nova e lhe terá facilitado a edição na Bertrand frequentada por ambos), Ferreira de Castro, Torga (veja-se o que Os Bichos herdam do Portugal Pequenino...), Vergílio Ferreira e Saramago, já para nem falar nos devotos Nemésio, Gomes Ferreira e Cardoso Pires, nem em senhoras como Agustina (que apesar de tudo deve ainda mais a Camilo e a Pascoaes, de quem parece um sobre-valorizado sub-produto) e a tão outra e inclassificável Gabriela Llansol, segunda grande aventura nas bordas da prosa portuguesa desde... Raul Brandão, pois. Ninguém, ninguém escapa.
E nisso, goste-se mais ou menos, não há discussão: Pessoa (não gosto muito) e Brandão (gosto de um modo imenso) são incomparavelmente os dois nomes de maior influência na literatura portuguesa do séc.XX e ainda talvez no que se leva até agora do XXI, apesar do Super-Herberto e de Saramago.


Segundo, este par serve de exemplo para demonstrar que, mais do que a Academia, o que mormente concorre para firmar o canône e estabelecer a fortuna da opera é apenas o investimento, desde o estadual (público) ao privado (editorial etc.). Sabe-se, embora pouco se fale, como Pessoa deve a fama ao «lobbying» que começou com António Ferro, em pleno Estado Novo, e continuou e continua com milhões de contos e euros - desde logo do erário público - após o 25 de Abril; promoção no Brasil cedo apoiada desde Casais Monteiro e Cecília Meireles. Isto quando o poeta era pouco mais do que desconhecido e Pascoaes, por exemplo, traduzido em várias línguas no estrangeiro e lá apontado para o Nobel - mas cá proscrito pelo Estado Novo e pela ortodoxia católica e vigiado pela PIDE por outras razões.
Claro: Pessoa vingou porque, além do mérito versejador, se presta ao gosto quase sempre fácil, popular, às vezes quase kitsch, parecendo nesse domínio imbatível e universal. Vingou principalmente onde não é moderno. Mas se também parece difícil pôr o leitor comum a mergulhar maravilhado no Húmus, parece facílimo pô-lo a gostar do nada moderno mas espantoso lado «solar» brandoniano, sobretudo esse tríptico extraordinário formado por Os Pescadores, As Ilhas Desconhecidas e Portugal Pequenino. Basta que os leia.


Terceiro, e quanto ao modernismo: "a angústia da influência". Fernando Pessoa, que de tudo lia e de tudo falava, nunca se referiu a Raul Brandão. Como não parece possível que o não lesse, tratando-se de alguém que publicava na Renascença e na Bertrand, fácil será perceber-lhe o silêncio. O Húmus é o livro mais influente de toda a prosa portuguesa do séc.XX - e, conforme já muita gente notou (por exemplo: os pessoanos Prado Coelho), influenciou desde logo o Livro do Desassossego.
Se na poesia, de um pré-moderno Cesário a um finissecular Pessanha, as influências de Pessoa são óbvias e assumidas, na prosa não. O que não significa que não estejam lá. Sobretudo neste caso, pode e deve falar-se de algo mais do que simples «influência»...
Mais: o Livro do Desassossego é escrito já bastante depois de Os Cadernos de Malte Laurids Brigge e pouco antes (na melhor das hipóteses) de As Ondas. O Humus sai pouco depois do primeiro e muito antes do segundo. Sublinhe-se este ponto, imaginando como seria se a Europa e o Mundo também o conhecessem...
 
       

Natal

Natal.
 
Está um dia fosco de neblina incerta e tristeza. Para lá as árvores despidas não bolem. A vida parou. As nuvens andam a esta hora a rastro pelas encostas pedregosas dos montes. Não se ouve um grito. Tudo na natureza se concentra e sonha. Há no entanto um grande rio envolto que nunca cessa de correr…
Longe pelos caminhos, através de pinheirais cismáticos e calados, vão velhinhas tristes, de saia pelos ombros, para consoar nessa noite com os filhos. Andam trôpegas léguas e léguas. As suas mãos calosas, as caras enrugadas, onde as lágrimas abriram sulcos, os olhos tristes, contam o que elas têm passado na vida, dias sem pão, suor de aflições, desamparos, maus tratos…
 
Os cavadores deixaram os arados mortos nos campos, que a chuva alaga. Que tudo repouse. O vinho de hoje conforta, como as lágrimas choradas pelas nossas desgraças, o lume de hoje aquece como o amor de nossas mães.
Nos soutos, sob a chuva que cai mansa e continua, andam pobres que não têm lenha, a arrancar uma raiz esquecida, para se aquecerem. Deus os tenha na sua mão de pai. Partem, chegam, vêm muito longe, para verem os seus meninos, matando saudades. Quase não comem e sustentam filhos, sustentam netos. Os velhos, que tem atrás de si uma vida de martírio e fomes, dizem:
– É hoje o maior dia do ano…



[Raul Brandão, Natal dos Pobres]

Raul Brandão — Os Pescadores

Livrarias Aillaud e Bertrand, 1924. In-8º de 326 págs. Br.
 
Um dos livros principais do escritor portuense, com capítulos dedicados a vários pontos da nossa costa marítima, de Norte (sobretudo) a Sul, e aos hábitos, costumes e tipos das respectivas comunidades de pescadores – de que constitui o mais belo monumento literário conhecido.
Terceira de várias edições saídas num mesmo ano, prova de leitura inusual para um livro português desse tempo.
 
Exemplar em brochura, bem conservado, apesar de algumas marcas (uma delas de perfuração) na capa.
 
15€

Raul Brandão ― Memórias I

Memórias (1.º Volume) (2.ª edição – 2º milhar)

Edição da «Renascença Portuguesa», Pôrto. (1919). In-8º de 332, [4] págs. Br.
 
O exemplar pertenceu a Abel Brandão, de quem tem repetida a assinatura no anterrosto e no rosto.
 
15€

Raul Brandão ― Memórias II

Memórias (Volume II / 1.ª edição)

Livrarias Aillaud & Bertrand / Paris-Lisboa. (MCMXXV). In-8º de 296, [2] págs. Br.
 
Exemplar com ligeiros rasgões e falhas de papel na capa; de resto, sem qualquer defeito significativo a assinalar.
Pertenceu também a Abel Brandão, de quem ostenta a assinatura, como de costume, ao alto da folha de rosto.
 
17€

Raul Brandão ― Vale de Josafat (III Volume de Memórias)

Seara Nova, 1933. In-8º de 286, [2] págs. Br.

Terceiro e último volume das Memorias, este de publicação já póstuma, e geralmente apontado como o melhor dos três; mesmo que Raul Brandão não tenha chegado a retocá-lo.

Exemplar francamente bom, salvo ligeiro desgaste da capa e um discreto carimbo de assinatura na folha de guarda.
 
28€

Vida Devota (V)

Valeu-me a pena viver? Fui feliz, fui feliz no meu canto, longe da papelada ignóbil. Muitas vezes desejei, confesso-o, a agitação dos traficantes e os seus automóveis, dos políticos e a sua balbúrdia - mas logo me refugiava no meu buraco a sonhar. Agora vou morrer - e eles vão morrer.
 A diferença é que eles levam um caixão mais rico, mas eu talvez me aproxime mais de Deus. O que invejei - o que invejo profundamente são os que podem ainda trabalhar por muitos anos; são os que começam agora uma longa obra e têm diante de si muito tempo para a concluir. Invejo os que se deitam cismando nos seus livros e se levantam pensando com obstinação nos seus livros.


[Raul Brandão, Memorias - Vale de Josafat]

Otto Kaus — Dostoïevski et son Destin

Dostoïevski et son Destin (traduit de l’allemand par Georges Cazenave)

Les Éditions Rieder / L’Églantine, MCMXXXI. In-8º de 282, [2] págs. Cart.

Primeira edição francesa.

Exemplar com cartonagem aparentemente «livre» que recuperou tiras da capa original.
 
8€

Dostoievski ― Obras Completas

Editora Arcádia Limitada (1964). 10 vols. in-8º gr. Enc.

Edição monumental abrangendo toda a produção conhecida do autor até à época; sendo os dois últimos volumes dedicados aos raramente traduzidos, e em Portugal então ainda inéditos, «Cadernos de um Escritor».
Todos os volumes encadernados pelo editor e revestidos invariavelmente da mesma sobrecapa em papel.
 
100€

Dostoievski ― Crime e Castigo

Crime e Castigo (Versão de Maria Franco e Cabral do Nascimento / 3.ª edição)

Portugália Editora, Lisboa. (1966). In-8º gr. de 513, [5] págs. Br.

Edição portuguesa publicada na colecção «Os Romances Universais».

Exemplar desvalorizado por um rasgão na capa.

10€

Dostoievski ― Les Frères Karamazov

Les Frères Karamazov (traduit et adapté par E. Halpérine-Kaminsky et Ch. Morice/Avec un portrait de Th. Dostoievsky)

Paris: Librairie Plon/E. Plon, Nourrit et Cie, Imprimeurs-Éditeurs. [S/d - 1888]. 2 tomos in-8º de [8], 291, [3] e [4], 332, [2] págs. Enc.

Primeira edição francesa, publicada sete anos após a original russa.

Ambos os volumes revestidos de encadernação relativamente modesta em percalina granulada feita pela Livraria Moraes para o Gabinete Francês, falha, como era então habitual, da capa primitiva de cada um.
 
40€

Dostoievski ― Os Irmãos Karamazov

Os Irmãos Karamazov (Tradução de Maria Franco / Introdução de Eliseo Vivas)

Estúdios Cor. 2 vols. in-8º de XXXI, [I], 385, [7] e 426, [10] págs. Br.

Capa de Luís Filipe Abreu. O texto introdutório do ensaísta colombiano é bastante extenso.

Ambos os volumes com assinatura de propriedade, o primeiro com dedicatória de oferta que suponho alheia a editora e tradutora.

15€