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27 de fevereiro de 2018

Quando o Nobel era uma «Forêt Vierge»...


Ainda a propósito de prémios, do Nobel e de Ferreira de Castro. Que várias vezes fôra já apontado no estrangeiro como merecedor do galardão mas, em 1959, o foi com particular insistência. Conta Jaime Brasil na biografia «A Obra e o Homem» que o Figaro indicava o romancista português e Alberto Moravia como os dois candidatos a vencer nesse ano - aos quais outros jornais parisienses acrescentavam o nome de Jean-Paul Sartre. Em Portugal, e sobretudo no Brasil, a ideia ganhou asas. Porém, quando Aquilino Ribeiro vê apreendido pela Censura Quando os Lobos Uivam, e se lhe abre o famoso processo criminal, um conjunto de escritores sugere à SPE a apresentação de uma candidatura em seu nome - e à qual Ferreira de Castro manifesta desde logo apoio, desistindo de uma própria.
Não sabendo até que ponto isto seria assim, e uma candidatura nessa época requeresse a anuência do candidato, aqui fica a história. E aqui fica a desistência «oficial» de Ferreira de Castro em carta ao vespertino República igualmente para 1960:
 
(...)
Mas como, na segunda parte da notícia, se diz que a Sociedade de Escritores, na sua próxima reunião, poderá manifestar a sua concordância com as presumíveis candidaturas de Aquilino Ribeiro e de Ferreira de Castro, bem como a de Miguel Torga, para o prémio deste ano, eu gostaria de esclarecer também que não pretendo ser candidato, pois não desejo estabelecer qualquer concorrência, por insignificante que fosse, com aqueles meus dois ilustres camaradas de letras, cujas obras tanto admiro.
 
Cabe recordar que o vencedor do Nobel em 1959 seria Salvatore Quasimodo e em 1960 o muito recomendável Saint-John Perse (em 1958 tinha sido Pasternak, de quem Aquilino era adepto, e em 1957 Albert Camus, que era adepto de Ferreira de Castro).
E que tamanho prestígio do romancista português em terras francesas talvez se devesse ao 
sucesso estrondoso de A Selva, lá editado dezenas de vezes desde 1938 até ainda hoje, com a honra de o tradutor ter sido nem menos que o poeta Blaise Cendrars - que conheceu e se tornou amigo de Ferreira de Castro muito antes, no Brasil.