livraria on-line

bibliographias@gmail.com / 934476529

.

.

7 de novembro de 2017

«A Literatura e o Mal» vs. A Política e o Mal

" (...) O desvio entre Dostoiewski e os marxistas é devido a uma consideração diferente do que é o mal. Para os marxistas o mal é a usurária, ou seja a burguesia. Dostoiewski, tendo primeiramente aceitado esta tese, repudia-a e chega à conclusão cristã de que o mal não é tanto a usurária quanto o meio usado, isto é, a violência. Este mal de Dostoiewski, no romance, não é somente representado pela morte violenta da usurária, mas também e sobretudo pela outra, da inocente e piedosa Lizaveta, irmã da usurária, que Raskolnikov mata, para suprimir uma testemunha do seu crime. Afinal, para os marxistas, na realidade o mal não existe desde que se trate unicamente de um mal social que pode ser liquidado com a revolução. Em vez disso, para Dostoiewski o mal existe como facto individual no coração de cada homem e exprime-se exactamente nos meios violentos dos quais se serve a revolução. Os marxistas lavam com a justificação histórica e social mesmo as consciências mais negras, Dostoiewski nega esta lavagem e afirma a existência inalienável do mal.
Assistimos portanto na U.R.S.S., de há noventa anos para cá [sic], a uma espécie de match entre Dostoiewski e Marx. O primeiro round foi ganho por Dostoiewski na medida em que escreveu uma obra-prima; o segundo por Marx, pelo facto de as suas teorias terem desencadeado uma revolução; mas o terceiro round parece ter sido ganho por Dostoiewski; o mal expulso pela janela pelo marxismo reentrou em torrente na U.R.S.S. pela porta do estalinismo, ou seja, dos meios usados pela revolução para se afirmar e se manter. E que coisa é, este mal? Disse-o Kruschev no seu discurso, assinalá-lo-ei mais brevemente: o mal na U.R.S.S. são as numerosas Lizavete, ou sejam, os numerosos inocentes torturados, aprisionados, mortos em nome da revolução e que agora são reabilitados, mas aos quais não se poderá jamais restituir a vida que lhes foi arrancada. O mal, em conclusão, é a dor, a imensa quantidade de dor que submergiu a Rússia nos últimos cinquenta anos. (...)"
(Alberto Moravia, Um Mês na U.R.S.S.)
 
Notas:
a) Não foi pela porta do estalinismo que o mal descrito por Moravia entrou/reentrou. Sabemos hoje que já tinha entrado antes
b, mais interessante) Moravia era comunista.