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18 de janeiro de 2016

Dedicar ou não dedicar, eis a (não) questão


Manual de Pintura e Caligrafia, Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis, três dos principais romances de Saramago, foram dedicados na edição original pelo escritor a "Isabel" (da Nóbrega), sua mulher (segunda) à época. Em edições posteriores, a dedicatória desapareceu, como tantas outras, sem qualquer sobressalto. Pouco depois do Nobel, com aquela perfídia maledicente tão portuguesa, tão invejosa, insidiosa, insistida, repetida, meia «cena» literária lembrou-se de desatar a protestar sobre o facto. Sem dar conta, primeiro, de que um livro reeditado já não é necessariamente o mesmo (às vezes, é até muito diferente, em escritores de reescrita mais obsessiva). E sem valorar, segundo, que o dono dele é quem o escreveu. Se, tantos anos depois, não apetece ao escritor repetir uma dedicatória, isso é lá com ele (ou nem isso: às vezes, é o editor...). Parecendo infantil discutir o assunto, e mais infantil ainda arrogar-se a interpretação do que nem se sonha. Que Saramago, à maneira comunista, queria reescrever a sua própria «História» e fazer desaparecer da galeria o retrato da ex-mulher. A hipótese parece disparatada (sempre foram duas décadas...), e está cercada de dezenas delas que o não parecem. Por exemplo: querer poupar a Pilar, segunda esposa, terceira mulher, a visão daquele nome na segunda edição. Por exemplo: ter razões de agravo em relação a Isabel. Por exemplo: pura e simplesmente, não lhe apetecer. Etc. Partir para um sumário julgamento de carácter a partir disto, afirmando que seria mais um saneamento como os do «República», é ridículo. Mas foi mesmo o que aconteceu.

O livro de António Prado Coelho aqui acabado de catalogar tem o oposto disto numa das dedicatórias mais infelizes e/ou absurdas que alguma vez li. Dedicou-o assim o professor, pai de Jacinto, avô de Eduardo, co-dedicando: "À minha segunda mulher". Assim, sem mais. Nem o nome. Só o numeral ordinal. Só o "segunda". Não era possível desvalorizar mais a pobre da senhora, caramba.

Portugal é o país que inventa ditados para tudo. São tantos, que acabam amiúde por contradizer-se mutuamente. «Não há duas sem três» e «À terceira é de vez», desde logo, e também podendo aplicar-se a mulheres. Ou, aplicando-se mesmo: «Não há amor como o primeiro» (versão Prado Coelho) e «Os últimos são os primeiros» (Saramago?). Ditados. Digo eu, já agora, que o segundo até pode ser o primeiro e o último. Pode sobrepor-se a tudo e ser o decisivo: já não o demasiado confiante e ingénuo do início, já não os desenganados que chegam mais tarde, o único: aquele em que tudo se abre novo, se ganha ou se perde (se isto faz diferença alguma, que o amor não é um jogo). Apesar do aparente desdém de Prado Coelho, talvez aconteça muito, mesmo muito. O amor não vai de ditados nem de ordinários numerais ordinais. Nem de discussões escusadas.

O que vai é isto: é muito, mesmo muito bonita uma história em que a leitora larga tudo para ir à procura do seu escritor. Encontrá-lo e abraçá-lo é e não é mais bonito ainda. É o que não se chega nunca a saber. Ganhar ou perder? Há empates fabulosos. Dedicatórias fabulosas nunca totalmente escritas, "impossíveis de escrever". Entre o dedicado, o entrevisto e o invisível. Entre as linhas, as entrelinhas e a brancura do papel. Entre o que se escreve e o que não se escreve.

[Mas não se iluda o leitor. Se pode ser difícil dedicar um livro a uma mulher, muito mais o é a inversa: dedicar uma mulher a um livro. Ernesto Sampaio, morta Fernanda Alves, pôs-se a escrever «Fernanda» e morreu ele a seguir, depois de terminar a empreitada. E o por ele traduzido André Breton, um tipo até bastante social, retirou-se numa casa de pedra isolada durante meses para escrever «Nadja». O seu segundo, primeiro e último amor? A minha velha tese.]